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Denise Weinberg: “Fomos para a Berlinale sem a menor expectativa”

Dama do teatro, a atriz é a protagonista de 'O Último Azul', filme de Gabriel Mascaro sobre etarismo que ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim

Por Arnaldo Lorençato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
7 mar 2025, 11h35 •
Mulher olhando para foto série e com plantas ao lado
Denise: carreira nos palcos e mais de trinta filmes desde a estreia, em 1997 (Roberto Setton/Veja SP)
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  • Com uma sólida carreira nos palcos, a atriz carioca Denise Weinberg, 68, também é um fenômeno nas telas. Sua interpretação em O Último Azul, de Gabriel Mascaro, certamente teve uma contribuição essencial para que o filme arrebatasse o Urso de Prata no Festival de Berlim, conhecido como Berlinale e realizado em fevereiro.

    Ela vive uma rebelde senhora de 77 anos, que se recusa a ir para uma colônia de aposentados na Amazônia, em uma obra que se insurge contra o etarismo. A artista com voz poderosa de contralto traz no currículo pelo menos trinta participações no cinema. A estreia foi em 1997 com Guerra de Canudos, de Sergio Rezende.

    Com o mesmo cineasta, ela ganhou projeção em 2009 como a antagonista de Salve Geral, a advogada Ruiva. No teatro, a trajetória se inicia bem antes, em 1979, como membro do Grupo Tapa, nascido no Rio de Janeiro e consolidado ao mudar-se para São Paulo, em 1986. “Me tornei atriz quando me mudei para São Paulo”, afirma. Foram mais de vinte anos com a trupe, período no qual seu trabalho foi reconhecido com troféus APCA, Mambembe e Shell.

    No cinema, o papel de Salve Geral garantiu três prêmios de atriz coadjuvante. Confira o papo com a “paulistaníssima” Denise, que mora desde 1999 no mesmo apartamento da Vila Buarque.

    Existia alguma expectativa no Festival de Berlim?
    Fomos sem a menor expectativa. Ela começou a ser criada no dia da conferência de imprensa internacional quando os jornalistas assistiram ao filme. Um jornalista, o Rodrigo Fonseca, chegou perto da gente e disse: “Olha, foi uma comoção o filme de vocês. Deram um urro na sala quando acabou a projeção. O pessoal adorou”. Aí, a gente ficou assim: “Caramba, será?”. À tarde, a gente teve a estreia na Berlinale e foi outra comoção. A partir daí, começamos a acreditar que poderia sair alguma coisa, porque foi unânime, um aplauso enorme. Até chegar o dia da premiação, que é quase uma via-crúcis que você passa de sofrimento. A alma fica lutando contra o ego. Mas aí foi afunilando, afunilando, e a gente ganhou o Urso de Prata. É um belíssimo prêmio.

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    Como surgiu o convite do Gabriel Mascaro para fazer O Último Azul?
    Foi uma coisa mágica. Não conhecia o Gabriel. Só tinha visto Boi Neon. Um dia minha agente me liga e diz: “Gabriel Mascaro está atrás de você para um longa na Amazônia”. Pedi para mandar o roteiro e fiquei louca. O maior critério para aceitar é o (texto) que eu vou dizer, independentemente do tamanho do papel. Ele fez um Zoom e a gente conversou. Ele tem uma história pessoal com os corpos, as peles, as carnes. Fiz o filme de cara lavada. São muito poucas atrizes que não têm retoques. Dessa vez, minhas rugas ganharam.

    Quais as características da sua personagem?
    A Teresa foi inspirada na avó do Gabriel. Aos 80 anos, ela abriu uma porta, começou a pintar. Ele ficou muito impressionado com a possibilidade de nessa idade iniciar uma nova atividade. A Teresa é uma mulher idosa que ainda luta por alguma coisa, se indigna. Aos 77 anos, é retirada da casa dela e levada para uma colônia, na realidade, um conjunto habitacional. Ela não quer ir, bate o pé. Por intuição, ela percebe ser uma cilada, começa a promover uma fuga e conhece pessoas, que são Rodrigo Santoro, o Adanilo e a Miriam Socarrás, uma cubana maravilhosa de 82 anos. Eu entendo essa rebeldia da Teresa porque sou rebelde até hoje, sou ovelha negra. Sempre fui muito indignada. Foi o teatro que me salvou nesse sentido, porque comecei a vida por outros pontos de vista, aqueles que os personagens trazem.

    Como foram as filmagens?
    Que aventura, que delícia. Fiquei dois meses na Amazônia. Fui primeiro para Manacapuru, uma cidade a 90 quilômetros de Manaus, um porto na beira do Rio Solimões. É extremamente urbana, tem fábricas no meio daquela floresta. Depois, fomos para Novo Airão, que é o paraíso terrestre no Rio Negro. Filmei todos os dias. Estou em todas as cenas. Eram seis por um, uma folga por semana. O Último Azul é um boat movie. Há pouquíssimas cenas em terra firme. Era barco para tudo que era lugar. Barco para comer, se vestir, para se maquiar… A gente filmou muito no Solimões. Quando fomos para o Rio Negro, essa parte toda com o Rodrigo Santoro praticamente foi em um igarapé, em Novo Airão. Foi maravilhoso.

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    A preparação para interpretar uma personagem mais velha que você requer cuidados especiais?
    Tive essa preocupação porque acho muito perigoso fazer a velhinha, a caricatura. Essa coisa de caricatura é quase teatro infantil da pior qualidade. Tenho pânico disso. Esqueci que ela tinha 77 anos. Eu sou idosa e a velhinha não podia ser caquética. O filme é sobre etarismo para mostrar que velhos produzem. Como os outros, ela teria de ir para a colônia, esse conjunto habitacional que não aparece no filme, porque não presta para nada. É sobre um governo autoritário que arranca o idoso de dentro de casa para não atrapalhar a produção dos jovens. Ela é exatamente o oposto. Tem desejos.

    Participou de outras produções recentes?
    Em dezembro de 2024, rodei o filme mais recente, Por Nossa Causa, com direção do Sergio Rezende. Filmamos em petit comité na casa do Sergio, em Itaipava. Sou a protagonista, mais a Larissa Nunes e Romeu Evaristo. É sobre uma mulher fanática política.

    O que achou da vitória de Ainda Estou Aqui no Oscar?
    Achei muito bonito. Estou orgulhosa de fazer parte desse levante. Da Berlinale, trouxemos para o Brasil o Urso de Prata, e, agora, o Oscar de melhor filme internacional. Isso é muito, muito bom. E a gente tem que saber aproveitar e faturar isso. Abriuse uma porta, um portão.

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    Tem planos de voltar aos palcos?
    Estou parada há mais de um ano. O teatro está perverso, e olha que é a minha casa. É o que mais gosto de fazer na vida. O Grupo Tapa vivia de bilheteria. Mas hoje em dia é edital. Aí você ganha aquela merrequinha para fazer tudo e tem a contrapartida. É uma loucura. Mas plano de voltar sempre tenho. O problema é como. Tenho um projeto com o Newton Moreno, meu parceiro há muito tempo. Ele está escrevendo uma peça chamada Rio Lear. É em cima da Amazônia, da desgraceira de cortar a terra. Newton tem uma cabeça incrível. Devemos começar em julho. Tem ainda outra proposta com a Velha Companhia, um Dostoiévski, pelo qual sou apaixonada. É uma adaptação de Crime e Castigo.

    Publicado em VEJA São Paulo de 7 de março de 2025, edição nº 2934.

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