Entre TikTok, teatro e cinema, Clarice Lispector vive novo auge cultural
Escritora brasileira mais vendida do país volta aos palcos de São Paulo no espetáculo de Beth Goulart, que narra sua vida e obra
Há exatos 58 anos, Clarice Lispector publicava a crônica As Três Experiências, em que dizia que havia nascido para três coisas: “Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos”. A frase é um autorretrato da escritora, em que revela que vida e obra andavam juntas com a mesma importância. Talvez por isso atravesse os tempos.
Quase cinquenta anos após sua morte (em 1977), ela ocupa o topo do ranking de autores de ficção nacional mais vendidos do país. Só nos quatro primeiros meses de 2026, vendeu mais de 48 000 exemplares de A Hora da Estrela (Rocco).
“É uma experiência ler Clarice. É uma das maiores escritoras de todos os tempos”, avalia a professora de literatura brasileira da USP Yudith Rosenbaum.
Espelho literário
Seria simplório dizer que Clarice Lispector tem leitores. Aqueles que amam sua obra encontram em suas palavras um espelhamento e, portanto, se sentem íntimos dela. São como filhos e filhas de Clarice, que recorrem a seus livros para refletir sobre a própria condição humana e até sobre o sentido do viver.
“Ela escreve como se estivesse falando para você. A coisa não caminha no plano objetivo, vai por sugestões, sedução, por entrelinhas, sutilezas”, comenta a biógrafa Nádia Battella Gotlib, autora de Clarice: Uma Vida que Se Conta e Clarice Fotobiografia (ambos pela Edusp).
Muitos desses “filhos e filhas” acabam se identificando com suas palavras a ponto de recriarem sua obra para transpor para outras linguagens artísticas, expandindo o legado da própria autora — como a artista visual Mariana Valente, neta de Clarice (leia mais aqui), que criou uma obra de arte exclusivamente para esta reportagem de capa da Vejinha, estrelada por Beth Goulart, que volta aos palcos de São Paulo nesta sexta-feira (8) com a peça Simplesmente Eu, Clarice Lispector, depois de dezesseis anos.
Simplesmente Eu
O celebrado espetáculo, com o qual Beth ganhou o Prêmio Shell e o APCA de melhor atriz, fica em cartaz até o dia 28 de junho, no Teatro Moise Safra, na Barra Funda.
Sua estreia foi em 2009 e, desde então, já levou 1,3 milhão de pessoas ao teatro em 298 cidades. A retomada da montagem marcou a celebração dos cinquenta anos de carreira da atriz.
“Este trabalho me deu a alegria de apresentar Clarice para muita gente que nunca tinha lido seus livros e passou a ler através do espetáculo”, conta Beth.
De acordo com Paulo Rocco, editor da escritora desde 1998, Clarice nunca vendeu tanto como agora. Nos últimos dezesseis meses, foram vendidos mais de 100 000 exemplares apenas do romance A Hora da Estrela, segundo dados divulgados pela Lista Nielsen-PublishNews. No ano passado, na lista geral de ficção adulta (nacional e internacional), Clarice perdeu apenas para o escritor longseller americano Dan Brown.
Para o editor das obras de Clarice Lispector na Rocco, Pedro Karp Vasquez, trata-se de um fenômeno mesmo. “Quando ela lançou seu primeiro livro, nos anos 40, o país tinha pouco menos de 20 000 universitários e 61% de analfabetos. Hoje temos mais de 6 milhões de universitários e população majoritariamente alfabetizada. O público amadureceu e está mais preparado para entender Clarice”, analisa Pedro.
No livro Clarice pela Memória de Outros (Autêntica), organizado por Nádia, o editor Jiro Takahashi confirmou que ela desejava ser lida por mais leitores comuns.
“Ela queria ter um público amplo e conseguiu. Acho que iria adorar saber que hoje é o escritor brasileiro mais vendido do país”, aposta a biógrafa.
Novas edições
A editora Rocco acaba de lançar novas edições caprichadas de A Hora da Estrela e Água Viva. Sua popularidade é tal que São Paulo tem até o vegano Clarice Café & Cozinha, na Vila Mariana, criado por Claudia Dib, uma de suas leitoras “comuns”.
A escalada dos romances nas listas de mais vendidos é proporcional ao crescimento do interesse de um novo público, a geração Z e os millennials no Brasil e no mundo, incentivados por celebridades que se tornaram leitores.
Nos Estados Unidos, Olivia Rodrigo falou para a Vogue que lia Clarice. Dua Lipa ganhou um exemplar em um show na Argentina. E a atriz Cate Blanchett citou Clarice, “escritora brasileira simplesmente genial”, em discurso no Festival de San Sebastián em 2024.
No Brasil, os leitores declarados da nova geração vão da Sandy e do Junior até Larissa Manoela. Luísa Sonza gravou o clipe de Penhasco inspirado na estética da entrevista que a autora deu à TV Cultura em 1977.
“Clarice tem uma coisa muito atual, que é não tentar caber. Ela não suaviza o que sente, não organiza para ficar mais fácil de entender. Amo essa coragem de sustentar as próprias contradições, de ser intensa, confusa e ainda assim transformar isso em linguagem, em arte”, explica a cantora. “Eles (os jovens) estão na minha”, declarou Clarice nessa entrevista, gravada pouco antes de sua morte.
Nova onda
A escritora não poderia imaginar que no século XXI viraria febre nas redes sociais com frases que muitas vezes nem são de sua autoria. O rapper Filipe Ret a homenageou tatuando o rosto dela no ombro esquerdo. “Eu me identifiquei com a profundidade da personalidade dela e como ela expressava sua solidão e sua rebeldia. Sua escrita também me encorajou a compor de forma mais honesta com meu lado intuitivo e introvertido”, conta.
Para Bruno Zolotar, diretor de marketing e vendas da Rocco, as redes sociais ampliaram a visibilidade de Clarice. “Percebemos neste ano que a geração Z começou a falar sobre A Hora da Estrela no TikTok, que é a rede social que mais converte livros para o público jovem”, comenta, destacando que o relançamento de toda a obra para o centenário da escritora em 2020 foi fundamental nesse percurso que se concretiza com os números atuais de vendas.
“As adaptações para cinema e teatro também têm grande contribuição”, conta. Em 2024, Luiz Fernando Carvalho lançou o filme A Paixão Segundo G.H., com Maria Fernanda Cândido, que acaba de ser lançado nos Estados Unidos com ingressos esgotados no prestigiado BAM, em Nova York.
Em 2026, A Hora da Estrela (1985), dirigido por Suzana Amaral, entrou para o catálogo da Netflix. De acordo com Marcélia Cartaxo, protagonista do longa, o relançamento nos cinemas e no streaming deixou os jovens muito impressionados com Macabéa.
“Essa personagem retrata a invisibilidade social, a crueza humana e a solidão com muita poesia”, comenta a atriz.
Coincidência ou não, algumas atrizes que trabalharam com a obra de Clarice não costumam se desligar da escritora. “A relação que a gente tem com a Clarice é muito visceral, de alma”, reflete Beth. A atriz Rita Elmôr, que fez no teatro Que Mistérios Tem Clarice? (1998) e Clarice Lispector & Eu — O Mundo Não É Chato (2015), é até hoje confundida na internet.
“Minha foto virou da Clarice. Estou sendo, inclusive, vendida em canecas na Shopee. É uma história clariceana”, diverte-se Rita.
Ao todo, Maria Fernanda Cândido já soma três projetos ligados a Clarice. Além de protagonizar A Paixão Segundo G.H. no cinema, na TV ela viveu Helen Palmer, pseudônimo da escritora, na série global Correio Feminino (2013), também do diretor Luiz Fernando Carvalho.
No teatro, produziu e estrelou a peça Balada Acima do Abismo (2025), a partir de textos da escritora e que deve voltar ao Brasil em 2027. Em janeiro, Maria Fernanda apresentou a versão em francês do espetáculo no prestigiado Thêatre du Soleil, em Paris.
“Num mundo acelerado, cheio de estímulos e distrações, a escrita da Clarice vai na direção oposta: silêncio, pausa, percepção”, acredita. Para a atriz, também existe uma identificação muito forte com o olhar sobre o feminino. “Ela abriu espaço para uma subjetividade feminina complexa, contraditória, sem idealização”, diz.
Para a cineasta Marcela Lordy, que dirigiu O Livro dos Prazeres (2022), estrelado por Simone Spoladore, adaptar Clarice é um ato de coragem. “É uma das autoras precursoras a falar sobre o prazer feminino, quando ele era tradicionalmente um tema tabu e as mulheres estavam acostumadas a ler sobre o próprio corpo sob uma ótica masculina”, observa.
A atriz Malu Mader também é uma das “filhas” de Clarice, apesar de não ter feito nenhum projeto com a autora. Ainda não. “Li muitos livros. Talvez seja quem eu mais li na vida. Fiquei obcecada por ela durante um longo período”, revela a atriz.
Ela leu Laços de Família pela primeira vez na juventude, mas só se apaixonou perdidamente pela literatura clariceana depois dos 30 anos. “Aí, sim, eu estava preparada para esse encontro”, diz a atriz, que, inclusive, já fez aulas sobre a escritora com a imortal Rosiska Darcy de Oliveira.
O livro que Malu mais leu, A Descoberta do Mundo, é o mesmo de outro leitor voraz da escritora: Cazuza. Em um vídeo que viralizou recentemente, ele conta em entrevista a Marília Gabriela que seu maior ídolo é Clarice Lispector. “Eu não leio a Bíblia, leio A Descoberta do Mundo. Clarice tem uma coisa a mais. Não é uma escritora, uma pessoa de quem eu leio um romance e me distraio. A Clarice me leva ao pensamento”, descreve Cazuza, que leu Água Viva mais de 100 vezes.
A atriz Ludmila Rosa, que trabalha no processo criativo do espetáculo Solo um Aprendizado, texto original a partir de Clarice e outros autores, conta que nos seus 20 anos Clarice era um oráculo. “Eu era uma jovem angustiada e trazia Clarice na bolsa, como se eu não me sentisse segura sem ela”, lembra.
Avessos à literatura de Clarice — um grupo cada vez menor — costumam dizer que se trata de uma obra hermética. O historiador Leandro Karnal, fã declarado, responde aos críticos. “Clarice é hermética porque exige inteligência, paciência e saber que o mundo é sempre um quebra-cabeças incompleto. Ela é vedada a gente que aceita o mundo como ele é e que está perfeitamente feliz com a narrativa. Só é aberta para quem tem insatisfação e tem vida interior”, alfineta.
Como a própria Clarice escreveu no prefácio do romance A Paixão Segundo G.H., ela gostaria que seu livro fosse lido por “pessoas de alma já formada”. Num mundo onde as telas disputam a atenção, sua literatura provoca o que ela mesma define como “uma alegria difícil, mas chama-se alegria”.







