“Foi um completo descaso”, diz Jocy de Oliveira sobre ópera cancelada
Obra inédita seria apresentada em outubro e novembro no Theatro Municipal; segundo a compositora, ela não foi comunicada oficialmente sobre a mudança
A compositora Jocy de Oliveira, 90, falou à VEJA SÃO PAULO sobre o cancelamento das apresentações de uma ópera inédita de sua autoria, que estaria em cartaz no Theatro Municipal de 30 de outubro a 7 de novembro.
Seria uma double bill que reuniria a nova obra Medea e o direito de ser diferente, de Jocy, e Édipo Rei, de Igor Stravinsky (1882-1971), compositor e pianista russo que regeu diversas vezes a pianista brasileira como solista.
A ópera inédita foi encomendada pelo próprio Theatro Municipal ainda sob a gestão da Sustenidos Organização Social de Cultura. Em junho deste ano, o histórico espaço paulistano passou a ser administrado pelo Instituto Baccarelli. Após a transição, em agosto, foram anunciadas mudanças na programação já anunciada da casa de espetáculos, com um total de três óperas canceladas.
“Eu não tive notícia. Oficialmente eles não me responderam nada, aviso nenhum. Foi um completo descaso, como se eu não existisse e não houvesse compromisso comigo. Foi mais de um ano de trabalho com a instituição — se é uma gerência ou é outra, não é nosso problema. Obviamente eu merecia uma explicação”, afirmou a artista curitibana à Vejinha.
Segundo Jocy, uma resposta sobre o cancelamento só veio após o contato do seu advogado. A obra inédita foi encomendada no ano passado pelo Municipal, e passou por mudanças ao longo dos meses. “Primeiro foi encomendada uma ópera com o título Realejo de Vida e Morte. Era uma obra muito complexa e que teria necessidade de um bom tempo para ser montada e trabalhada. Inclusive, na época, no ano passado, escrevi e mandei o roteiro, e nada. Havia pausas de dúvida no trabalho, mas eles sempre disseram que a programação seria mantida, inclusive essa nova gestão”, explica a compositora.
Com o passar dos meses e o tempo se encurtando, a proposta foi reformulada, em diálogo com a gestão anterior do Municipal. “Pensamos em fazer outra ópera que fosse mais compacta e curta, fazendo junto com a ópera do Stravinsky, que era uma ideia muito bonita, dois mitos gregos pensados de maneiras diferentes.”
O espetáculo Medea e o direito de ser diferente não tem previsão de estreia em outra casa de espetáculos, apesar de convites terem surgido. “Essa Medea, ao meu ver, é uma mulher forte, uma transgressora que foi rejeitada pelos gregos. Ela é vista sob esse ângulo político, essa mulher desterrada que luta pelos direitos de existir dela e dos filhos. Na minha ópera, a importância é o aspecto dela de discriminada e imigrante. De uma maneira muito sutil e poética, não panfletária. O papel da arte é se expressar de uma forma artística, e não política”, descreve a artista, sobre a obra.
A compositora lamentou o cancelamento também pela quantidade de pessoas envolvidas no projeto. “A programação envolve inúmeras pessoas, artistas, o público, é um desrespeito a todos. Nesse meio cultural, os artistas são prejudicados e deixam passar. Não pode ser assim.”
O que diz o Theatro Municipal
À VEJA SÃO PAULO, a gestão da casa detalhou que a programação artística definida para o segundo semestre “levava em consideração as metas contratuais da gestão anterior e precisou compatibilizá-las com as metas previstas no novo contrato e com as condições operacionais e orçamentárias disponíveis”.
A decisão considerou “os compromissos já assumidos, a complexidade técnica e de produção dos títulos e os recursos necessários para realizá-los com a qualidade artística esperada pelo Theatro Municipal”. Segundo o Instituto Baccarelli, a decisão de mudar a programação “não decorre de uma avaliação artística das obras ou dos profissionais envolvidos”.
Sobre a obra de Jocy de Oliveira, o Theatro Municipal afirmou que “reconhece em Jocy de Oliveira uma das figuras mais importantes e singulares da música brasileira, pioneira na experimentação entre música, teatro, tecnologia e linguagens multimídia”, e que “sua obra e sua trajetória são motivo de profundo respeito e admiração por parte da instituição, que espera ter novas oportunidades de trabalhar com a compositora no futuro”.
Ainda segundo a gestão, “a programação do Theatro Municipal também contemplará produções contemporâneas, capazes de provocar debates e dialogar com questões do nosso tempo”.
Leia a nota completa do Theatro Municipal
Em razão da transição de gestão do Theatro Municipal de São Paulo, ocorrida em junho de 2026, foi necessário realizar uma adequação da programação de óperas previstas para o segundo semestre do mesmo ano, de forma a compatibilizá-la com as metas e diretrizes estabelecidas no atual contrato de gestão.
Entre as mudanças está o cancelamento do double bill, que reuniria as óperas de Jocy de Oliveira e Édipo Rei, de Igor Stravinsky, previsto para o período entre 30 de outubro e 7 de novembro. Em substituição, serão realizados três concertos da Orquestra Sinfônica Municipal.
O primeiro será o Requiem de Verdi, nos dias 23 e 24 de outubro, sob regência de Fabio Mechetti, em seu primeiro concerto na casa como diretor musical, com participação do Coro Lírico Municipal e Coral Paulistano. Na sequência, nos dias 30 e 31 de outubro, será apresentado o concerto Schubert e Mahler, sob regência de Roberto Minczuk. E nos dias 6 e 7 de novembro, também sob regência de Minczuk, será apresentado o concerto Morais e Tchaikovsky.
Outra alteração será a substituição da ópera Andrea Chénier, de Umberto Giordano, pela remontagem de Os Pescadores de Pérolas, ópera em 3 atos com música de Georges Bizet e libreto de Michael Carré e Eugène Cormon. A montagem será apresentada entre os dias 27, 28 e 29 de novembro, 01, 02, 04, 05 e 06 de dezembro, sob regência do maestro Roberto Minczuk e direção cênica de João Malatian.
As adequações têm como objetivo assegurar que a temporada artística esteja em consonância com as diretrizes e metas do atual contrato de gestão, preservando a qualidade da programação do Theatro Municipal de São Paulo.






