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Otavia Sommavilla é confeiteira especializada em decoração artística de bolos, além de professora, criadora de conteúdo digital e autora de livros. Aos sábados nesta coluna ela vai falar da sobremesa e ampliará o leque, dividindo com os leitores truques e curiosidades sobre a confeitaria, desvendando trends e ensinando receitas desejadas

Panna Cotta Romeu e Julieta

A deliciosa combinação de sabores e texturas que formam uma panna cota

Por Otavia Sommavilla 23 Maio 2026, 14h46
Bolo retangular branco com listras horizontais de goiabada vermelha, sobre uma bandeja de mármore branco com bordas onduladas. Ao lado, uma colher dourada com cabo de bambu e flores cor-de-rosa, tudo sobre uma toalha xadrez vermelha e branca
 (Reprodução/Reprodução)
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Para mim, uma dos casamentos mais gloriosos que existem: a boa goiabada com queijo, par conhecido também por “Romeu e Julieta”. Ainda na esteira da última receita, de bom-bocado, continuo inspirada pela brasilidade. Mas eis que descubro que talvez ele seja um dos mais emblemáticos produtos da nossa herança ibérica. Não fomos nós que criamos a experiência de combinar queijos e compotas pela primeira vez.

Esta ideia já atravessava as mesas da Península Ibérica havia séculos. Em Portugal e na Espanha, era comum servir queijo ao lado da marmelada — o doce firme de marmelo cozido lentamente com açúcar até adquirir consistência e densidade.

Na Espanha, o membrillo servido com manchego ainda hoje é um clássico absoluto. O paladar humano parece reconhecer intuitivamente há muito tempo que a gordura e o sal do queijo encontram equilíbrio perfeito na acidez e no açúcar concentrado das frutas cozidas.

Quando essa tradição cruzou o Atlântico, ela precisou aprender um novo território. O marmelo jamais encontrou no Brasil o mesmo protagonismo que tinha na Europa ibérica. Já a goiaba — abundante, perfumada e naturalmente rica em pectina — adaptou-se magnificamente aos tachos de cobre e à tradição doceira trazida pelos portugueses. Aos poucos, a goiabada passou a ocupar o lugar da antiga marmelada europeia, mantendo a mesma lógica culinária: um doce intenso e firme o suficiente para ser servido em fatias ao lado do queijo.

É quase como se o Brasil tivesse preservado a estrutura emocional da combinação, mas trocado completamente sua paisagem.

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O queijo também mudou. Em vez dos manchegos e queijos de ovelha ibéricos, entraram em cena os queijos mineiros, frescos ou curados, profundamente ligados à vida rural brasileira. E foi justamente nesse encontro — entre a técnica portuguesa dos doces de fruta e a força leiteira de Minas Gerais — que nasceu algo novo, ainda que carregando raízes muito antigas.

Durante muito tempo acreditou-se que o nome “Romeu e Julieta” tivesse surgido numa campanha publicitária da goiabada Cica, já na segunda metade do século XX. A associação fazia sentido: a campanha, estrelada por Monica e Cebolinha vestidos como os personagens de Shakespeare, tornou-se extremamente popular e ajudou a espalhar a expressão pelo Brasil inteiro. A força da marca também contribuiu para essa memória coletiva. Fundada em 1941 em Jundiaí, interior de São Paulo, a Cica nasceu como sigla de Companhia Industrial de Conservas Alimentícias e, com o tempo, tornou-se um daqueles raros casos em que a sigla praticamente substitui o nome oficial no imaginário popular.A goiabada artesanal se transformou em um produto de escala nacional, ajudando a consolidar definitivamente a presença do doce na mesa brasileira.

Mas pesquisas mais recentes mostraram que o apelido romântico é muito mais antigo do que a propaganda.

Um dos registros conhecidos mais antigos da expressão aparece no livro Tarrafadas: Contos, Anedotas e Variedades, de Cornélio Pires, publicado em 1935. No trecho, o autor escreve: “a sobre-mesa, especialmente, é a mesma em toda a parte: queijo e goiabada ou ‘Romeu e Julieta’, como lhe chamam os viajantes commerciaes”.

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A frase é reveladora porque mostra que o nome já circulava oralmente décadas antes das campanhas publicitárias. E talvez exista algo de muito brasileiro nisso: primeiro o apelido nasce na fala popular, entre viajantes, comerciantes e mesas de interior; só depois a publicidade o transforma em patrimônio nacional.

Bolo de queijo cremoso retangular com tiras de goiabada por cima, servido em uma tábua branca decorada, sobre uma toalha xadrez vermelha e branca. Ao fundo, flores cor-de-rosa e uma colher dourada com cabo de bambu
Panna Cotta Romeu e Julieta (Reprodução/Reprodução)

Na receita desta semana parto desta deliciosa combinação de sabores e texturas e a contextualizo em uma sobremesa mais leve, a Panna cotta. Criada no Piemonte e originalmente feita com creme de leite ( a “panna”) aqui ela ganha o corpo do catupiry , tão cremoso e nosso, que faz um contraponto cheio de delicadeza com a leve acidez e doçura da goiabada cremosa.

Dica: para fazer em um molde, como no vídeo, use 15 g de gelatina sem sabor. Se preferir uma textura mais crescida, reduza para 10 g e coloque em taças

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Panna Cota Romeu e Julieta

15 g de gelatina em pó sem sabor

45 g de água fria

400 g de catupiry

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300 g de leite integral

5 g de extrato de baunilha

125 g de açúcar

250 g de goiabada cremosa ou geleia de goiaba

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Polvilhe a gelatina sem sabor sobre a agua e deixe hidratar até que fique translúcido.(5 minutos). Reserve.

Misture leite, açúcar, catupiry e baunilha em uma panela e leve ao fogo brando, mexendo com fouet até que fique bem quente e totalmente liso.(O catupiry vai derreter) . Retire do fogo e imediatamente junte a gelatina hidratada, misturando até que esteja homogêneo, e não sejam mais visíveis os grumos de gelatina. Se for colocar em uma forma unte levemente com óleo e escolha uma forma pequena. Se preferir despeje em 4 taças grandes e leve a geladeira até firmar, o que leva cerca de 4 horas.

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