Panna Cotta Romeu e Julieta
A deliciosa combinação de sabores e texturas que formam uma panna cota
Para mim, uma dos casamentos mais gloriosos que existem: a boa goiabada com queijo, par conhecido também por “Romeu e Julieta”. Ainda na esteira da última receita, de bom-bocado, continuo inspirada pela brasilidade. Mas eis que descubro que talvez ele seja um dos mais emblemáticos produtos da nossa herança ibérica. Não fomos nós que criamos a experiência de combinar queijos e compotas pela primeira vez.
Esta ideia já atravessava as mesas da Península Ibérica havia séculos. Em Portugal e na Espanha, era comum servir queijo ao lado da marmelada — o doce firme de marmelo cozido lentamente com açúcar até adquirir consistência e densidade.
Na Espanha, o membrillo servido com manchego ainda hoje é um clássico absoluto. O paladar humano parece reconhecer intuitivamente há muito tempo que a gordura e o sal do queijo encontram equilíbrio perfeito na acidez e no açúcar concentrado das frutas cozidas.
Quando essa tradição cruzou o Atlântico, ela precisou aprender um novo território. O marmelo jamais encontrou no Brasil o mesmo protagonismo que tinha na Europa ibérica. Já a goiaba — abundante, perfumada e naturalmente rica em pectina — adaptou-se magnificamente aos tachos de cobre e à tradição doceira trazida pelos portugueses. Aos poucos, a goiabada passou a ocupar o lugar da antiga marmelada europeia, mantendo a mesma lógica culinária: um doce intenso e firme o suficiente para ser servido em fatias ao lado do queijo.
É quase como se o Brasil tivesse preservado a estrutura emocional da combinação, mas trocado completamente sua paisagem.
O queijo também mudou. Em vez dos manchegos e queijos de ovelha ibéricos, entraram em cena os queijos mineiros, frescos ou curados, profundamente ligados à vida rural brasileira. E foi justamente nesse encontro — entre a técnica portuguesa dos doces de fruta e a força leiteira de Minas Gerais — que nasceu algo novo, ainda que carregando raízes muito antigas.
Durante muito tempo acreditou-se que o nome “Romeu e Julieta” tivesse surgido numa campanha publicitária da goiabada Cica, já na segunda metade do século XX. A associação fazia sentido: a campanha, estrelada por Monica e Cebolinha vestidos como os personagens de Shakespeare, tornou-se extremamente popular e ajudou a espalhar a expressão pelo Brasil inteiro. A força da marca também contribuiu para essa memória coletiva. Fundada em 1941 em Jundiaí, interior de São Paulo, a Cica nasceu como sigla de Companhia Industrial de Conservas Alimentícias e, com o tempo, tornou-se um daqueles raros casos em que a sigla praticamente substitui o nome oficial no imaginário popular.A goiabada artesanal se transformou em um produto de escala nacional, ajudando a consolidar definitivamente a presença do doce na mesa brasileira.
Mas pesquisas mais recentes mostraram que o apelido romântico é muito mais antigo do que a propaganda.
Um dos registros conhecidos mais antigos da expressão aparece no livro Tarrafadas: Contos, Anedotas e Variedades, de Cornélio Pires, publicado em 1935. No trecho, o autor escreve: “a sobre-mesa, especialmente, é a mesma em toda a parte: queijo e goiabada ou ‘Romeu e Julieta’, como lhe chamam os viajantes commerciaes”.
A frase é reveladora porque mostra que o nome já circulava oralmente décadas antes das campanhas publicitárias. E talvez exista algo de muito brasileiro nisso: primeiro o apelido nasce na fala popular, entre viajantes, comerciantes e mesas de interior; só depois a publicidade o transforma em patrimônio nacional.
Na receita desta semana parto desta deliciosa combinação de sabores e texturas e a contextualizo em uma sobremesa mais leve, a Panna cotta. Criada no Piemonte e originalmente feita com creme de leite ( a “panna”) aqui ela ganha o corpo do catupiry , tão cremoso e nosso, que faz um contraponto cheio de delicadeza com a leve acidez e doçura da goiabada cremosa.
Dica: para fazer em um molde, como no vídeo, use 15 g de gelatina sem sabor. Se preferir uma textura mais crescida, reduza para 10 g e coloque em taças
Panna Cota Romeu e Julieta
15 g de gelatina em pó sem sabor
45 g de água fria
400 g de catupiry
300 g de leite integral
5 g de extrato de baunilha
125 g de açúcar
250 g de goiabada cremosa ou geleia de goiaba
Polvilhe a gelatina sem sabor sobre a agua e deixe hidratar até que fique translúcido.(5 minutos). Reserve.
Misture leite, açúcar, catupiry e baunilha em uma panela e leve ao fogo brando, mexendo com fouet até que fique bem quente e totalmente liso.(O catupiry vai derreter) . Retire do fogo e imediatamente junte a gelatina hidratada, misturando até que esteja homogêneo, e não sejam mais visíveis os grumos de gelatina. Se for colocar em uma forma unte levemente com óleo e escolha uma forma pequena. Se preferir despeje em 4 taças grandes e leve a geladeira até firmar, o que leva cerca de 4 horas.





