Ismael Nery é tema de exposição inédita na Pinacoteca com 230 obras
Itens perpassam toda a produção do surrealista, de seu primeiro desenho a peças feitas no sanatório tratando da tuberculose
Apenas 33 anos de vida foram suficientes para Ismael Nery (1900-1934) deixar uma marca única na arte brasileira. O pintor, desenhista, arquiteto, decorador, cenógrafo e poeta paraense se manteve às margens do circuito modernista de Tarsila do Amaral (1886-1973) e Di Cavalcanti (1897- 1976), mas bebeu dessa e de outras fontes — como as vanguardas europeias — para elaborar sua própria linguagem, até a morte precoce por tuberculose. Sua trajetória é foco de Ismael Nery: Armadilha Moderna, mostra que ocupa, a partir deste sábado (5), sete salas da Pina Luz com cerca de 230 obras. “Essa exposição revela como Nery teve uma visão particular do que deveria ser o modernismo brasileiro”, resume o curador Yuri Quevedo.
Yuri passou dois anos negociando a vinda das peças de cerca de cinquenta museus e coleções — apenas oito são do acervo da Pinacoteca. Sem apreço por fazer sua produção durar, no leito de morte, Nery chegou a pedir que tudo fosse destruído. Seu amigo, o poeta Murilo Mendes (1901-1975), se recusou a cumprir o desejo e salvou o acervo conhecido hoje. Sua produção permaneceu restrita a coleções privadas e ao círculo de amigos próximos durante décadas. O reconhecimento da crítica e do público ocorreu somente a partir de 1965, com a 8ª Bienal de São Paulo.
“A gente estima que ele tenha produzido entre 100 e 120 óleos”, diz o curador. A mostra em cartaz exibe quase sessenta desses, ou seja, pelo menos metade da produção total de Nery. A eles se unem pinturas em nanquim e aquarela e desenhos. A última sala é dedicada à série História de Ismael Nery, composta de desenhos feitos quando estava no sanatório tratando da tuberculose. Outra área dedica-se à fase mais famosa do artista nascido em Belém e radicado no Rio de Janeiro, a surrealista.
“O Nery era muito católico e buscava, como todo cristão, a eternidade. E a eternidade é você atingir um estado corporal e mental à imagem e semelhança de Deus, ou seja, atemporal e imaterial. E ele faz isso nas obras dele.” Essa busca traduziu-se no recorrente tema da androginia e da duplicidade. Em muitos autorretratos e retratos de sua esposa, a poeta Adalgisa Nery (1905-1980), a figura dos dois se funde, tornando difícil perceber quem é quem.
A androginia e a sensualidade das pinturas de Nery — artista pouco compreendido em vida — tornam suas obras atuais, como nunca antes. “Essa liberdade que ele tinha de se construir ressoa muito nos tempos de hoje”, diz Yuri. “Porque a construção do corpo como identidade é uma questão da nossa sociedade atual. Os procedimentos de cirurgia plástica, as questões antienvelhecimento, como as pessoas vão se uniformizando e ficando cada vez mais parecidas umas com as outras, uma ideia de não binariedade. É possível, hoje, olhá-lo por esse viés, mesmo que seja anacrônico para os anos 20.” ■
Pina Luz. Praça da Luz, 2, Luz, ☎ 3335-4990. → Qua. a seg., 10h/18h (entrada até 17h). R$ 40,00 (sáb., grátis). Até 31/1/2027.
Publicado em VEJA São Paulo de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011.







