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“O dentista precisa ter olhar social e responsabilidade”, afirma Fábio Bibancos

Profissional renomado alerta sobre importância da saúde bucal, critica mercado dominado por procedimentos estéticos e fala sobre trabalho social na Turma do Bem

Por Mattheus Goto 24 abr 2026, 08h00
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Fábio Bibancos: à frente de clínica prestigiada e de trabalho social (Angeluci Figueiredo/Divulgação)
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A saúde bucal dos brasileiros não anda bem. Segundo uma pesquisa de 2023 do Ministério da Saúde, 43,9% dos jovens entre 15 e 19 anos e praticamente metade dos adultos possuem um ou mais dentes com cárie não tratada.

Além da falta de cuidado, a odontologia lida com uma avalanche de procedimentos estéticos que dominaram o mercado. Com quarenta anos de profissão, o dentista Fábio Bibancos, 62, nada contra essa corrente.

Dono da renomada clínica que leva seu sobrenome, responsável pelo sorriso de uma extensa lista de celebridades, de Chico Buarque a Lázaro Ramos, de Criolo a Marina Sena, ele é fundador da Turma do Bem, organização que gerencia uma rede de voluntariado com mais de 18 000 dentistas em todos os estados do Brasil e em outros onze países.

Anualmente, eles fazem a megatriagem, evento nacional que encaminha crianças e adolescentes de 11 a 17 anos em situação de vulnerabilidade para tratamento odontológico gratuito. A edição de 2026, marcada para a terça (28), oferecerá 900 vagas só na capital paulista.

A ONG também trata mulheres cis e trans vítimas de violência que tiveram a dentição afetada. Confira a entrevista.

Como será a próxima megatriagem em comparação aos anos anteriores?

No ano passado foi um sucesso, conseguimos atender 5 000 crianças no Brasil todo. Este ano estamos repetindo o feito, só que vamos aumentar o número de cidades. Em 2025, foram 146 e agora são 155. Temos realizado sem grandes problemas nos últimos anos.

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Você foi capa da Vejinha em uma matéria sobre os dentistas dos famosos em 2002, ano em que fundou a Turma do Bem. O que mudou de lá para cá?

A ONG era pequenininha, e a Vejinha deu a chancela de que estava fazendo algo baca na. As pessoas não entendem quando se fala em ONG de dentistas, parece que não é importante; a gente ficava atrás de patrocínio. Os espaços na mídia nos ajudaram a crescer. Tivemos um baque em 2018 com o bolsonarismo, que enxergava as ONGs como criminosas. Foi difícil sobreviver, impactou a nossa rede, mas vem melhorando.

Como avalia o cenário atual de políticas públicas para saúde bucal?

Existe o Brasil Sorridente, do governo Lula, um programa nacional que leva o paciente ao SUS, mas que não consegue dar conta de tudo. Nós atuamos nas especialidades e nas grandes necessidades que o programa não cobre. Antes, o país ficou seis anos sem coordenação e sem política estruturada, desde o governo Michel Temer. O problema de ser desdentado é de pessoas pobres. O atual governo tem um olhar para a saúde bucal. Por mais que haja esforço e empresas engajadas, o retorno (das políticas públicas) é um processo difícil.

O que a pesquisa do Ministério da Saúde diz sobre o país?

Temos um problema de desigualdade social. A cárie não é mais uma doença das classes média e alta — vimos uma redução brutal com o flúor na rede de abastecimento de água e nas pastas dentais desde 1977. Melhorou muito a condição do brasileiro que tem acesso a escova, pasta e fio. Nesses grupos, os problemas agora são o apertamento (pressão involuntária), o bruxismo e o desgaste dos dentes, ligados à ansiedade e ao uso de celular. Os mais pobres, além da cárie, também são acometidos por essas doenças.

Que problemas o setor odontológico enfrenta hoje?

O que mais me preocupa é a formação. Tem dentista se formando sem saber anestesiar. O mercado empurra os formados para fazerem Botox e preenchimento. Vemos cada vez menos dentista “raiz”. A Anvisa estabeleceu novas regras para as clínicas funcionarem, são rigorosas, perfeitas no meu ponto de vista, mas duvido que vá se concretizar. E tem a loucura da rede social, dentista dando pirueta para chamar paciente. Todo mundo é influenciador. Os coaches de mercado para profissional de saúde são aberrantes. A quantidade de fake news é gigante. É desesperador. O dentista precisa ter um olhar social e entender sua responsabilidade.

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“Os coaches de mercado para profissional de saúde são aberrantes. A quantidade de fake news é gigante. É desesperador”

Fábio Bibancos

A odontologia ainda é subjugada no âmbito médico?

Se eu pedir um exame de sangue para um paciente, o convênio não paga, mas paga se o médico pedir. É estranho como a boca foi separada do corpo, as pessoas acham menos importante, só procuram quando sentem dor. O check-up da boca é tão importante quanto o do coração. O que tem sido bastante discutido pela ciência é que muitas doenças estão sendo relacionadas à odontologia, finalmente. Cardiopatias, diabetes, o Alzheimer, doenças que apresentam sinais na língua do paciente. Isso mostra a importância da odontologia.

Como a saúde bucal impacta a vida da pessoa?

Uma pessoa sem dentes está mutilada. Ela não come direito, não trabalha, não beija. É absoluta e absurdamente excluída. Precisa de um dentista para que ela volte a ser integrada à sociedade. As técnicas de estética podem ser boas, como nos casos de mulheres vítimas de violência, quando há afundamento ou perda óssea, para corrigir ou facetar dentes machucados. O problema é que vemos gente facetando menino de 14 anos. Isso não é saúde, é doença social.

Quais são os perigos da onda de Botox, lentes e harmonização?

Os perigos são os lançamentos desenfreados e sem regulação dessa indústria. A lente é uma técnica ótima, quando bem utilizada, para quadros de apertamentos com erosões, por exemplo, mas virou uma coisa tão vulga rizada. Vendem um sorriso tão branco que não existe, as pessoas ficam monstruosas, desgastando dentes naturais, com risco de perdê-los e causar grandes inflamações. O que é o peeling de fenol? Para quê? Nós estamos vivendo mais tempo, há uma obsessão em querer parecer mais jovem. Um pequeno procedimento, como uma aplicação de colágeno, não fere se a pessoa se sentir melhor, porém, virou uma loucura.

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Quais são os problemas bucais mais comuns atualmente no Brasil?

Tenho quarenta anos de profissão. Hoje, aparecem três coisas na minha clínica com muito mais frequência do que antigamente: câncer bucal; apertamento e bruxismo, raros são os pacientes que não têm, a ansiedade está muito presente; e os problemas gengivais.

Tem outros projetos em vista?

Nós fazemos o prêmio Melhor Dentista do Mundo para reconhecer profissionais que contribuíram em seus municípios, atendendo populações vulneráveis. Em meio a tantas notícias ruins, é legal saber que há dentista comprometido com impacto social. Existem brasileiros incríveis, mobilizados em prol do país, e precisamos jogar luz sobre eles.

Publicado em VEJA São Paulo de 24 de abril de 2026, edição nº 2992

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