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Zé Maurício e Giovanna Machline criam projeto para expandir Prêmio da Música Brasileira

Com sintinia fina, pai e filha comandam a Pointer, empresa que vai conectar artistas e mercado com visão apontada para o futuro da música brasileira

Por Pedro Só 5 jun 2026, 08h00 | Atualizado em 5 jun 2026, 10h58
Uma mulher jovem de cabelo cacheado e blusa listrada preta e branca, em pé, com as mãos na cintura, e um homem mais velho de blazer bege e calça clara, sentado, com o braço apoiado na perna da mulher, ambos sorrindo para a câmera, em um fundo verde-oliva
Zé Maurício Machline e Giovanna Machline (Leo Aversa/Veja SP)
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Em certas calçadas dos Jardins e entre funcionários da tradicional Casa Santa Luzia, ele é conhecido como “Seu Zé da Música”. Algum desavisado que topar com aquele senhor de 69 anos rodando pela área, montado numa bicicleta elétrica, com música (boa) saindo de uma caixinha de som em alto volume, pode pensar que aquela figura é mais do que excêntrica. Errado não está.

Há cerca de 42 anos, quando foi ao Rio de Janeiro conversar com André Midani (1932-2019), lendário executivo de gravadora, sobre seu interesse em montar um selo, ouviu a pergunta: “Você é maluco?”.

Metódico e disciplinado, mas apaixonado por música, Zé Maurício Machline pesou as consequências da aventura e pensou: “Pode ser que eu seja mesmo”. E daquela sábia conversa de doido nasceu a gravadora independente Pointer, de breve atividade (veja o quadro na pág. 13), mas marco inicial de longa trajetória de inestimáveis serviços prestados à cultura brasileira.

 

Desde 1987, seu idealizador, gaúcho de nascimento, mas mezzo carioca, mezzo paulistano, faz história comandando o mais importante prêmio da música do país — ao mesmo tempo que cultiva amizades incríveis com grandes artistas como Fernanda Montenegro, Maria Bethânia, Ney Matogrosso e João Bosco. Em 2009, quando o projeto ficou sem patrocinador, todos eles (e mais outros colegas) se mobilizaram e trabalharam sem cachê para viabilizar a cerimônia.

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Na quarta (10), no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira vai homenagear Cazuza (1958-1990), um dos vencedores na noite de estreia do evento, em 31 de maio de 1988, como cantor revelação na categoria pop/rock.

A 33ª edição marca uma retomada da marca Pointer, como uma nova holding que abarca todas as frentes de atuação da equipe responsável pelo Prêmio da Música Brasileira. A empresa nasce para trabalhar um ecossistema de fomento, exposição e sustentação da produção artística, oferecendo soluções criativas para o mercado, sem perder de vista a paixão pela música.

Inclui projetos como o Te Vejo no Palco, que seleciona potências diversas como a pernambucana Juliana Linhares (uma das grandes revelações desta década na MPB), a banda cearense Mateus Fazeno Rock e o pioneiro do samba-reggae baiano Lazzo Matumbi para serem registrados em audiovisual ao vivo; a série documental Casa PMB, que promove encontros musicais em diferentes regiões; o programa Música É Negócio, que trabalha capacitação e conhecimento de mercado para jovens artistas; e a Incubadora Musical, voltada para o desenvolvimento e aceleração de talentos.

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A holding tem também uma nova líder, com visões e capacidades diversas: a presidente Giovanna Machline, 40, filha de Zé Maurício, que desde os 2 anos vive o Prêmio da Música circulando pelas coxias. Uma foto dela miudinha a flagra no colo do pai, junto de Tia Lucinha e Tio João (Araújo), pais de Cazuza.

“Eu cresci vendo o prêmio, no meio desse povo. O Nizan (Guanaes, publicitário) brinca, dizendo que eu devia passar por mentirosa na escola, porque eu chegava do feriado falando que Maria Bethânia estava lá em casa, junto com tais e tais artistas”, conta a executiva.

Aos 15 anos, ela já tinha função séria nos bastidores, como show caller nas cerimônias de premiação, marcando a entrada de palco de cada artista. Giovanna poderia ter seguido carreira em família, cercada do carinho de figuras inesquecíveis como Rita Lee (veja o quadro na pág. 14), mas foi buscar seu próprio caminho no audiovisual.

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Estudou cinema em Nova York e voltou para trabalhar, inicialmente como assistente de direção, nas novelas da TV Globo. “Comecei como estagiária e fiquei por dezoito anos”, conta. “Sempre houve esse subtexto ‘ela é filha de não sei quem’, então eu tive que mostrar capacidade. A gente precisa se impor. Depois, com a maturidade, amansa um pouco.”

Ela observa que a ferramenta que usava para dirigir atores vale para lidar, como executiva, com músicos, artistas e clientes: “Eu olho e converso, busco me conectar com a pessoa”.

Com o pai, rola uma comunicação excepcional, “uma coisa quase telepática”. O que não quer dizer que não haja embates. “Eu já tive vontade de matar”, brinca Zé Maurício.

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Giovanna ri e desenvolve: “A minha carreira me fez ter um repertório que é diferente do dele e o complementa. O estresse de um dia de prêmio é quase diário no audiovisual. A gente cria um repertório rápido para resolver problemas. É um misto de maturidade com fé. Alguma solução haverá”.

Ele lembra que, mesmo antes de assumir a direção do prêmio, a filha já tinha sido responsável por resolver questões de timing e palco. “A dinâmica foi toda criada por ela, há muitos anos”, conta. Mas foi uma emergência de saúde que definiu essa mudança.

No começo de 2024, Zé Maurício pegou uma hepatite. “E com ela veio uma coceira desesperadora, pelo corpo inteiro. Meses assim. Perdi mais de 20 quilos. Eu não conseguia dormir, eu não comia, eu não conseguia fazer o trabalho que eu mais gosto, que, naquele ano, era pesquisar o repertório do Tim Maia.”

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Giovanna salvou aquela edição e, depois do momento emergencial, provou sua competência também nas funções executivas para além da premiação.

A preocupação inicial do pai, de estar tirando a filha de uma carreira bem-sucedida (ela havia acabado de dirigir a série Beleza Fatal, da HBO), logo se dissipou.

Uma menina de vestido azul e laço branco no cabelo é segurada por um homem de smoking, que sorri para uma mulher de cabelo escuro. Outro homem de smoking e lenço vermelho no bolso observa a cena à direita
Giovanna com o pai e Lucinha e João Araújo, pais de Cazuza (Arquivo pessoal/Divulgação)

“Ela se tornou uma presidente de empresa muito melhor do que eu já fui. Muito, muito melhor do que eu jamais fui. E, graças a ela, eu consigo fazer meu trabalho de uma maneira muito melhor. É a executiva dos meus sonhos”, rasga.

Filho mais velho de Mathias Machline (1933-1994), self-made man gaúcho de Bagé que fez fortuna como representante da marca japonesa de eletrodomésticos Sharp, Zé Maurício contou com o patrocínio da empresa nas onze primeiras edições do prêmio.

Após um hiato (2000 e 2001), o evento seguiu sem interrupções até 2018 — ainda que, em 2009 e 2017, não tenha contado com o apoio de grandes parceiros. Retomado somente em 2023, o PMB ganhou em 2025 novo patrocinador e assumiu o nome Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira.

Machline conta, não sem orgulho, que não foi ele quem bateu à porta do banco. “André Esteves (chairman e sócio sênior do BTG Pactual) foi a uma edição do prêmio, em 2024, levado por outra pessoa. E ficou interessado em patrocinar, nos procurou.”

Esse tal soft power que a música brasileira e seus personagens agregam não é mole, não.

“O Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira valoriza um dos maiores ativos do país: a nossa cultura. A música brasileira atravessa gerações, fronteiras e classes sociais, levando a identidade do Brasil para o mundo inteiro. Além do impacto cultural, existe uma cadeia econômica extremamente relevante por trás desse setor, que movimenta empregos, renda e oportunidades para milhares de pessoas”, comenta Esteves.

A transformação em holding deve-se muito também à visão de outra personagem: Heloísa Guarita, da consultoria RGNutri, que se tornou sócia de Machline em 2023.

“Desde o começo, meu desenho com o Zé foi criar algo que fosse além do prêmio — não porque ele fosse pouco, mas porque dava para ir mais longe pelo artista e pela cultura brasileira”, comenta a executiva.

“Trazer a Giovanna foi a melhor decisão que tomamos. A criatividade do Zé extrapola, e é a execução dela que aterrissa. Eu escuto os dois lados, empurro daqui e de lá — e é aí que aparece também a sabedoria da segunda geração, que vai assumindo no seu tempo, com atenção e respeito. Isso é construção de legado!”, ressalta.

Giovanna conta que, na adolescência, não ouviu rock pesado ou algum gênero que pudesse gerar conflito com o pai.

“Já nasci contaminada pela música brasileira. Meu álbum favorito era O Grande Circo Místico (canções de Chico Buarque e Edu Lobo interpretadas por Milton, Tom Jobim, Gil, Gal, Tim Maia…). Até hoje, meu pai é quem me contagia e apresenta os novos artistas.”

Zé Maurício não cria mais pointers ou cães para exposição. Porém não vive sem suas quatro cachorras: as chihuahuas de pelo longo Dolores (homenagem a Dolores Duran) e Severina, a biewer terrier Teresinha e, na casa de Angra dos Reis, Marrom (uma rodesiana, ou rhodesian ridgeback), cujo nome é homenagem à amiga Alcione.

Desfez-se dos vinis quando mudou de São Paulo para o Rio, em 2000. Sete anos depois, foi a vez dos CDs serem doados.

Para Zé da Música, a materialidade não importa. Ele diz que o que mais gosta de fazer na vida é ouvir os 15 mil títulos que recebe anualmente para o prêmio.

“Claro que tem coisas que eu odeio. Seria hipócrita dizer que não tem. Mas em cada universo diferente encontro coisas que gosto.”

Ele identifica problemas de repertório na produção atual (“poucos sabem pesquisar, tem composições que são uma pobreza”), mas é o primeiro a defender o estado geral da música brasileira.

“Desde o começo dos anos 2000 já havia essa questão, da geração que está envelhecendo e parando de lançar discos inéditos. Gil, Caetano, Edu, Chico, Francis etc. são de uma geração muito fora da curva. Mas hoje temos uma diversidade imensa em assuntos, poesia, ritmos: talentos com aquela coisa interiorana genial, como Chico César, e nomes como o Yago Oproprio, no rap.”

Numa trajetória marcada por tantas amizades com pessoas incríveis, Zé Maurício conta que Nana Caymmi (1941-2025) é “a cantora da minha vida”.

“Pra mim, ela é a melhor do mundo, sempre foi. Eu tinha 19 anos e, ouvindo a Nana cantar em lugares pequenos em São Paulo, fiquei fascinado.”

Nana o apresentou ao pai, Dorival Caymmi (1914-2008), que também o arrebatou à primeira entrevista.

“A gente começou ali uma amizade eterna. Quando eu gravava o programa Por Acaso, ele se apaixonou pela maquiadora da equipe. Eu então prometi para ele que sempre o levaria para passar o dia comigo, acompanhando as gravações. Fazia vários programas direto, e ele ficava lá, horas, só olhando para a maquiadora.”

Num desses dias, Renato Russo, também convidado, quase desmaiou ao ver o mítico baiano — mas depois encarou o dueto em Só Louco (que pode ser visto no YouTube).

Segundo Zé Maurício, histórias como essa fazem parte do legado que construiu na música brasileira e que agora busca expandir, apontado para o futuro, com a liderança de Giovanna.

“A Incubadora Musical talvez seja uma das coisas mais gratificantes emocionalmente que a gente fez nesses quarenta anos de trabalho. Apesar da música ser a mola mestra, é importante garantir a essência do artista, pegá-lo pela mão para que ele possa seguir em sua jornada.”

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