Uma tarde com Tom Zé, prestes a completar 90 anos: “Não posso me queixar do destino”
O músico mostra em primeira mão uma música inédita e fala sobre o acidente que sofreu há dois anos, o Tropicalismo e o show que apresenta no Coala Festival
Instrumentos esquisitos, fotos de shows, prêmios e muitos livros recebem quem chega ao apartamento. São dois andares de um simpático edifício em Perdizes, um para moradia e outro para trabalho. Em ambos, por onde passa, Tom Zé, 89, traz suas companhias inseparáveis — a pasta com anotações para a conversa, os óculos de leitura e a fiel escudeira, Neusa, sua empresária e esposa há mais de cinquenta anos.
Educadíssimo e com o típico cabelo bagunçado, Tom estava fino: de camisa e gravata bem assentada no pescoço. “No ginásio usava, então desde criança sei dar nó de tudo que é jeito. Mas hoje não acertei. Tá mais ou menos, dá para enganar”, brincou. Estava perfeito. Logo no início, o papo enveredou por Irará (BA), sua cidade natal, e o Corinthians, seu time, até aterrissar no Coala Festival, que acontece nos dias 12 e 13, no Memorial da América Latina.
O cantor e compositor baiano vai apresentar um show inédito no Auditório Simón Bolívar, no domingo (13). Na conversa, Tom estava munido de papéis sobre a história do animal que dá título ao evento, o pequenino mamífero nativo da Austrália. “É claro que eu vou fazer uma musiquinha brincando com o nome, porque é um achado mesmo”, adiantou. Dito e feito. Seis dias depois, Tom enviou a letra e o áudio da música inédita que escreveu, em homenagem ao festival (escute nas redes sociais da Vejinha).
As nove décadas de vida serão completadas no dia 11 de outubro. O libriano Tom ainda não sabe como vai comemorar. “No palco seria bom. E vivo, né? Porque 90 anos é uma idade que a pessoa já gastou e desgastou, sabiamente e analfabeticamente. A gente trata a vida assim, jogando fora e também aproveitando para alguma coisa”, se diverte, com um sorriso de menino. Além do trabalho — pode-se classificá-lo como workaholic —, a saúde é um tema presente na rotina, desde o acidente doméstico que sofreu em 2024, quando caiu e bateu a cabeça. “O médico descobriu que aquilo me deu uma confusão. Um coágulo na cabeça. Eu tive que passar a estudar tudo de novo”, contou, queixando-se da capacidade de leitura afetada desde então.
Mas o diagnóstico foi atenuado no mesmo instante por um complemento de Neusa, sempre atenta à conversa. “Para resumir, ele está lendo um dos textos mais complexos de Schopenhauer”, dedurou. Um dia perfeito para Tom é de muita criação. “É quando a minha saúde me deixa trabalhar. A saúde vai ficando quebrada daqui, de lá”, conta. Ele está preparando incansavelmente um novo projeto, ainda confidencial.





São 27 anos vivendo no mesmo prédio e quase seis décadas em território paulistano. A primeira visita à capital paulista foi em 1965, com o espetáculo Arena Canta Bahia, dirigido por Augusto Boal (1931-2009). Três anos depois, mudou-se definitivamente, venceu o 4º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, com a canção São São Paulo, lançou seu primeiro disco, Grande Liquidação, e o álbum Tropicália ou Panis et Circencis, manifesto definitivo do Tropicalismo, ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa (1945-2022), Os Mutantes, Nara Leão (1942-1989) e outros.
“A gente trata a vida assim, jogando fora e também aproveitando para alguma coisa.”
O movimento de vanguarda aproximou a canção brasileira da cultura pop ocidental, absorvendo influências estrangeiras para recriálas sob uma perspectiva nacional. Um dos nomes mais emblemáticos daquela trupe, justamente pelo experimentalismo sempre presente em sua obra, Tom não pode ser definido só por aquela produção. “Não dá para dizer que meu trabalho seja só um trabalho tropicalista. Acho pouco. É mais amplo, embora eles (Caetano e Gil) possam ter resultados até melhores, o meu tem mais amplitude”, comenta.
A começar pelo processo criativo: Tom Zé assimila a própria realidade e a transforma em letra e melodia. “Eu nunca compus sobre o mundo do amor ou do malandro. Sempre compus para coisas da região em que eu vivia ou com quem eu convivo”, define. Esse método de cientista-cronista leva a uma discografia nada redundante, com investigações autoexplicativas como Estudando o Samba (1976), Estudando o Pagode (2005) e Estudando a Bossa (2008).
Seu disco mais recente, Língua Brasileira (2022), é um mergulho nas origens do nosso idioma. O gosto pelo estudo vem dos primeiros anos. Tom aprendeu a falar ouvindo, na loja do pai, a linguagem “da roça”. E, nos jantares de família com os tios comunistas, descobriu o universo político e acadêmico. “Transformei minha infância em uma universidade de línguas. Eu sentava à mesa e ouvia, mas as pessoas não sabiam que eu estava estudando. Quando me botavam para dormir, eu ficava repassando o que tinha escutado”, explica.
Naquele tempo, se habituou ao fuso horário de comerciante do pai, o qual segue até hoje, acordando às 4 da manhã e deitando às 21h. Aos fins de semana, escutava nos altofalantes da loja músicas como Asa Branca, de Luiz Gonzaga (1912- 1989) e Humberto Teixeira (1915- 1979), e sucessos de Adoniran Barbosa (1910-1982). “Eu tinha uma namorada e com uns 7 anos comecei a fazer músicas para ela. Um dia levei o violão para cantar, mas não consegui. Fiquei frustrado. Mas, quando cheguei em casa, passei a criar sobre o mundo em que eu vivia”, rememora Tom. Ali nasceu sua assinatura musical, de observador e estudioso.
Os livros deram asas aos interesses de Tom. “Quando li Euclides da Cunha, falei: ‘Eu existo’. A emoção de saber que você existe ao encontrar na literatura algo que fala de um universo semelhante ao seu… Ali me apaixonei pela leitura”, diz. De péssimo aluno em português, passou a tirar boas notas. Ele conta que, após ser reprovado na escola em Salvador, voltou a Irará e se sentiu deslocado e ignorado pelos irmãos. “Não existir era um problema terrível para mim. E pensei: ‘Se é estudando que vou existir, vou estudar’. Então me tornei um bom aluno”, diz.
Mesmo a espiritualidade é encarada como estudo para o baiano. “Hoje não tem essa obrigatoriedade de uma religião. Temos uma visão de mundo intelectualizada pelo que outros autores descobriram”, responde, sem revelações. Tom tem um filho, Everton, de um casamento anterior, e dois netos, Maria Clara e João Gabriel. “Meu neto me escreveu na semana passada, disse: ‘Quero fazer músicas de parceria com o senhor’. Pedi para ele enviar ideias que eu vou achar o que me interessa e levar adiante. Ele não me respondeu, vou até aproveitar que você me lembrou disso agora”, diz, em um apelo público ao neto.
“Parece que meu tempo na América já esgotou, porque ele (David Byrne) nunca publicou outro disco meu.”
Depois da Tropicália, nos anos 80, Tom foi “redescoberto” por David Byrne, líder da banda Talking Heads, que encontrou o LP Estudando o Samba em uma loja no Brasil e se interessou. O artista escocês-americano lançou discos seus no estrangeiro, e a repercussão internacional reacendeu a carreira do baiano. “Ele me trata muito bem quando se refere a mim, mas parece que meu tempo na América já esgotou, porque ele nunca publicou outro disco meu. Naquele tempo aqui no Brasil ninguém estava ligando muito para mim. Quando meu disco foi publicado em Nova York e os jornais publicaram matérias, o Brasil me readotou”, recorda.
Nos tempos de alta ou baixa, duas constantes: a curiosidade e Neusa. Quando Tom fala sobre a amada, percebe-se na voz a gratidão. “Foi uma bênção. Uma pessoa que, quando se aborrece comigo, é porque estou atrapalhando a mim mesmo. Uma pessoa com juízo privilegiado. Isso nem ajoelhado pedindo a Deus você encontra. Eu não posso me queixar do destino.” Os dois começaram a namorar no fim dos anos 60, quando Tom excursionou com Gal Costa (que chegou a ser sua namorada por um período breve) no Rio e em São Paulo, cidade da companheira. “Foi como descobrir uma mina de ouro.”



O casal mantém uma rotina caseira em Perdizes. “Fomos envelhecendo dentro de casa”, diz Tom. Seu maior parceiro criativo é Daniel Maia, integrante da banda que estará no Coala, junto de Andreia Dias, Fábio Alves, Felipe Alves e Cristina Carneiro. O festival ainda terá atrações como Maria Bethânia, Emicida, Seu Jorge, Criolo e João Gomes. Os shows são fonte de energia para Tom. “Tenho quase 90 anos e continuo fazendo trabalhos e subindo ao palco. Um dia morro lá. A morte não vai ter muita escolha, tem que pegar a gente onde estamos mais (risos)”, brinca.
Tom esbanja juventude e conserva a curiosidade e o ímpeto criativo de uma criança. Na visita da reportagem de VEJA SÃO PAULO, o jovem fã Leon, de 12 anos, filho do fotógrafo Christian Gaul, acompanhou o pai como assistente. E deixou perguntas como “qual é sua música favorita?”. É Augusta, Angélica e Consolação. E “qual é seu prato preferido?”. “De preferência de louça”, foi a resposta espirituosa de Tom, que dedicou ao pequeno a canção inédita que vai estrear no festival. O que é a idade nesse universo criativo de Tom Zé? Nada além de um número. Noventa e avante. ■
Memorial da América Latina. Avenida Mário de Andrade, 664, Barra Funda, ☎ 3823-4600. → Sáb. (12) e dom. (13), 12h30. R$ 297,20 a R$ 1 449,00. 16 anos. totalacesso.com.
Publicado em VEJA São Paulo de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011







