“A saída para a IA é restabelecer relações de confiança”, diz Rafael Lazarini
Por trás do lançamento do SP2B, novo evento de inovação no Ibirapuera, empresário fala sobre a programação e as previsões para o futuro do trabalho
Um novo evento está chegando para ajudar a consolidar a capital paulista no mapa da inovação mundial. O SP2B, sigla para São Paulo Beyond Business (“São Paulo Além dos Negócios”), vai ocupar o Parque Ibirapuera de 9 a 16 de agosto. Pela primeira vez, todos os equipamentos do local serão ocupados por um único evento.
A empresa responsável pela realização é a Da20, comandada por Rafael Lazarini, 53, a mesma do Rio2C — realizado nesta semana no Rio de Janeiro, com encerramento no domingo (31). A ideia é replicar o modelo do SXSW, festival de inovação sediado em Austin, nos Estados Unidos, desde 1987, porém com uma essência brasileira.
A programação vai desde expoentes internacionais, como a escritora best-seller Esther Perel e o embaixador global do LinkedIn, Sankar Venkatraman, até importantes vozes nacionais, como o psicanalista Christian Dunker, a atriz e especialista em neurociência Dani Suzuki, o publicitário Nizan Guanaes e a influencer e empresária Bianca Andrade (a Boca Rosa).
Serão mais de 750 painéis e cerca de 2 000 palestrantes, distribuídos em trinta palcos organizados em oito espaços temáticos. Espera-se um público de mais de 500 000 pessoas.
Lazarini divulga com exclusividade à Vejinha novos nomes do line-up e opina sobre o cenário atual dos negócios no país e o futuro do trabalho.
Como surgiu a ideia do SP2B?
A gênese foi o SXSW. Tenho uma relação longa com eles, fui pela primeira vez em 2007 e fiquei próximo dos fundadores. Sempre brincava de trazer uma edição para o Brasil. Os fundadores originais resistiam à ideia. Na pandemia, eles foram muito prejudicados, tiveram que vender parte da empresa. Os novos sócios entraram com olhar para a expansão global e mostraram interesse. Começamos a desenhar o projeto em São Paulo. A ideia era explorar as potencialidades da cidade e ser uma vitrine do Brasil pujante. Em 2024, eles falaram que precisariam dar uma pausa por problemas complexos na operação em Austin. Voltamos para dentro e entendemos que São Paulo precisa de um grande evento como esse. Com a nossa experiência no Rio2C, foi muito orgânico virar a chave e construir do nosso jeito.
Como foi a escolha do Parque Ibirapuera como sede?
Só tinha um lugar que pudesse se assemelhar aos quarteirões do SXSW em Austin, pensamos na proposta fantástica de ocupar o espaço lindo do Ibirapuera. Tem conexão com a cidade, a questão ambiental, os prédios de Oscar Niemeyer. Falamos com a Urbia (concessionária que administra o espaço) e entenderam na hora, já conheciam o SXSW. Assinamos termo de compromisso e estamos tendo cuidado para trabalhar a cenografia de forma minimalista, para não se sobressair aos ícones arquitetônicos.
Quais são as diferenças e semelhanças entre o SP2B e o Rio2C?
Os dois são muito centrados no humano. Entendemos a tecnologia como ferramenta. Além da experiência do evento, com curadoria aprofundada na programação, as semelhanças terminam por aí. O Rio2C é um evento atrelado ao cenário e à indústria criativa carioca. O SP2B traz a ideia de ação, de tirar a ideia do papel e ter atitude no lugar em que você estiver, para além do mérito de ter uma empresa. Um é o pensamento criativo, o outro, pensamento empreendedor.
Como foi montada a programação e que nomes inéditos você destacaria?
No nosso processo de construção, o nome é a última coisa que vem, não fazemos pensando nisso. No próprio SXSW, os nomes maiores são clickbait (caça-clique), em geral, não são as conversas com insights mais relevantes. Vamos ocupar o parque com temas sobre ancestralidade, ética, sociedade, cultura, arte, comportamento, tecnologia. Também buscamos lideranças criativas do Brasil, como o empreendedor Conrado Schlochauer e Demi Getschko, engenheiro eletricista considerado pioneiro da internet no país, que podemos anunciar agora. E há dias focados em públicos específicos, como estudantes e microempreendedores.
“É uma nova fronteira, muitas vezes assustadora. Antes, falávamos em futuro daqui a cinco ou dez anos. Agora, o futuro é ano que vem”
Rafael Lazarini
O que observa sobre o perfil atual do empreendedor brasileiro?
Quem mais emprega não são as startups, são as pequenas e médias empresas (PMEs). Ao mesmo tempo, essas empresas têm os maiores índices de mortalidade. Geralmente, é aquela coisa de vender o carro e pegar o dinheiro para fazer um negócio. Não pensam em estratégia ou rodada de financiamento. É o cara que tem um restaurante, um agronegócio ou uma produtora audiovisual e tem que buscar relacionamento com o banco para conseguir linha de crédito de capital de giro. É uma realidade muito mais solitária e difícil. Não tem ninguém olhando muito para esse pessoal. Surge um vácuo complicado e gera espaço para coaches malucos, que acabam pegando pessoas boas em busca dessa troca. A gente quer ser esse lugar saudável para conexões.
Que transformações recentes enxerga nas formas de trabalho?
Os modelos tradicionais de carreira e aposentadoria não existem há algum tempo. Temos uma expectativa de vida cada vez maior. Começa a ter um gap (lacuna). As pessoas constroem carreira dentro de empresa e se deparam no meio da capacidade laboral sem saber o que fazer. Enxergamos que essa resposta passa pelo empreendedorismo. É uma visão ampla. Pode ser voltar para a escola para se especializar, estudar outras coisas, mudar de ramo.
Que posicionamento São Paulo tem hoje no cenário global?
São Paulo é um caldeirão cultural, com todas as regionalidades brasileiras. É muito plural. Uma cidade que abraça boas ideias. Essa abertura gerou um círculo virtuoso, tem espaço para todo mundo. É muito louco como uma conexão te leva a outras dez. Escolhemos o nome Beyond Business para mostrar a cidade por outra lente. São Paulo é globalmente reconhecida pelos negócios, mas é muito mais do que isso. Grandes metrópoles globais fizeram esse movimento há muito tempo, como Nova York e Londres.
Muito se fala sobre uma ameaça da inteligência artificial aos empregos. Como aborda essa discussão?
É uma nova fronteira, muitas vezes assustadora. Ouvimos vozes sensatas e embasadas trazendo preocupações complexas sobre o uso de inteligência artificial sem o devido regramento. As discussões chegam a ser filosóficas, até espirituais. Já estamos vivendo essa realidade. Os medos são justificáveis. Entendemos que a saída é restabelecer relações de confiança. Olho no olho, aperto de mão, abraço, conversas em um ambiente propício e saudável. Antes, quando falávamos em futuro, pensávamos daqui a cinco ou dez anos. Agora, o futuro é ano que vem.
Publicado em VEJA São Paulo de 29 de maio de 2026, edição nº 2997





