Michel Alcoforado: “Meu projeto maior é levar a antropologia para a rua”
Conhecido como “antropólogo do luxo”, o pesquisador fala sobre seu novo projeto cênico, a repercussão de 'Coisa de Rico' e as dinâmicas sociais de São Paulo
Desde que publicou Coisa de Rico (Todavia; 240 págs.; R$ 94,90), em 2025, Michel Alcoforado tem ouvido insistentemente a mesma pergunta: “Quando é que vai sair o livro dois?”. O motivo é o sucesso estrondoso do lançamento: foram mais de 175 000 exemplares vendidos, com direito a uma aparição na novela Quem Ama Cuida (2026).
A popularidade coroou um esforço de quase uma vida. Michel passou quinze anos estudando e “se infiltrando” nas diferentes elites do país para tecer uma narrativa que combina histórias reais com conceitos antropológicos.
Mesmo diante das cobranças periódicas, o pesquisador não dá o braço a torcer. “Não vai ter livro novo. Já falei tudo o que tinha para dizer.”
Para alívio dos fãs, porém, a obra ganha novos desdobramentos com a aula-espetáculo Coisa de Rico, Outras Histórias, que estreia no Teatro Sabesp Frei Caneca em 21 de agosto. A montagem, dirigida pelo artista visual Batman Zavareze, traz histórias inéditas dos ricos e novas reflexões.
A entrevista a seguir foi feita por videoconferência porque Michel estava em Santa Catarina para participar da Bienal Internacional do Livro de Jaraguá do Sul — o município conhecido como “a cidade dos bilionários”.
Você já disse que não quer fazer um segundo Coisa de Rico. Por que levar a história para o teatro?
Tenho um defeito seríssimo. Sou apaixonado por coisa que eu nunca fiz. Falaram “vamos fazer uma peça”, porque o povo ficava pedindo livro dois, três, quatro, cinco… Aí aceitei. Mas meu projeto maior é levar a antropologia para a rua. Quando você olha o mundo através das lentes antropológicas, você consegue reencontrá-lo. Isso é bonito demais.
O que o público verá no palco?
Então, fico a peça inteira conectando pontos sobre as coisas que vi no mundo dos ricos, na minha própria vida e na antropologia, para tentar mostrar que tem outras formas de enxergar a realidade. E as histórias do livro vão permeando isso. Eu diria que quem está indo lá só para ouvir mais sobre os ricos vai sair mais antropólogo.
No livro, você conta histórias reais que viveu no meio dos abastados. Alguém já ficou incomodado de se reconhecer nas páginas?
Me preocupei em manter a confidencialidade dos dados e o resguardo da identidade, que é um pacto dos antropólogos, por isso mudei o nome dos personagens. Mas é engraçado, porque existem três tipos de incômodo diferentes. Tem um grupo que chamo no livro de “ocupados desocupados”, que são essas figuras que não fazem nada relevante com o dinheiro que têm, mas fingem que fazem, como o curador que não fez curadoria de nada. Eles ficaram um pouco chateados e, em geral, são deles que saem as críticas mais duras ao livro. Tem outras figuras que ficaram chateadas porque queriam ter sido reconhecidas. Um deles anda por São Paulo dizendo que eu mudei a profissão dele, e mudei mesmo, para que ele não fosse identificado, mas ele queria ter sido. E tem uma pessoa só que ficou chateada pela forma como foi retratada no livro. Acho legítima a chateação. Ela tem o direito de ficar chateada comigo e tratar na análise. Mas, se ela não contar para ninguém que está no livro, nunca vão saber.
Quais são algumas das críticas que o livro recebeu por parte dessa elite?
Tem uma reclamação que acho até bonitinha. Alguns ricos reclamam que estão objetificados no livro, porque trato eles como “os ricos”, como se fosse uma coisa só. Mas foi assim que as elites sempre trataram outros grupos sociais. Sempre se falou sobre “os negros”, “as mulheres”, “os pobres”. Por que com rico tem que fazer diferente?
Depois do sucesso do trabalho, as pessoas ficaram com medo que você escrevesse sobre elas?
Toda vez que vejo um rico, faço dois disclaimers. O primeiro é: “Estou em paz porque não tem nenhum rico aqui”. Mesmo quando tem, porque eles não se acham ricos. O outro ponto que faço, e esse, sim, é verdade, é que não há nenhuma chance de o próximo livro ser sobre eles.
E sobre o que seria esse próximo livro?
Ainda estou namorando vários temas. Mas o que posso adiantar é que continuarei pensando o Brasil e ajudando o país a se entender. Mas é porque eu não sei mesmo. Estou preocupado com jovens, com as crianças, com a tecnologia, com alguns desses assuntos que são tão pulsantes na sociedade brasileira hoje.
Como foi sua experiência morando no Copan em um período de grandes transformações, com a popularização do Airbnb?
Quando fui morar em São Paulo, em 2012, queria morar no centro, porque sou apaixonado. E os paulistanos diziam que eu era maluco, que iam arrancar meu fígado, dois rins, e por aí vai. Mas em 2020, na pandemia, resolvi comprar um apartamento no Copan, e fui acompanhando esse processo de transformação. Como tudo numa grande cidade, é lindo de ver, porque é ambíguo pra caramba. Vi o impacto da quebra da ideia de comunidade que o Airbnb trouxe, mas ao mesmo tempo vejo a vida do térreo do Copan, que ganhou um fluxo grande e se transformou num ponto turístico. Mas o que me preocupa é que o centro de São Paulo não pode perder aquilo que ele é. E isso está para além da reocupação do centro, do retrofit. O centro sempre me fascinou porque talvez ele fosse o único lugar da cidade com uma experiência tão clara de igualdade entre quem serve e quem é servido. O porteiro do Copan também mora no prédio, os garçons vivem perto dos restaurantes… Isso é revolucionário. Não moro mais no prédio, mas ainda faço uma escolha pela região, moro na Avenida São Luís e meu escritório é na Galeria Metrópole. Sou fã do centro.
Existe uma diferença entre os ricos de São Paulo e os do Rio de Janeiro?
Existe. Acho que a elite carioca é uma elite aristocrática, até por causa da construção histórica. Lá, são as relações que constroem a posição das pessoas, onde você estudou, de que família você é, onde você mora… A elite paulistana é crédito ou débito. É uma elite orientada pelo trabalho e pela lógica burguesa. As pessoas estão preocupadas com o que você está trabalhando e o que o seu trabalho está te permitindo acessar em termos de dinheiro. Brinco que é mais caro ser rico no Rio do que em São Paulo, porque o investimento para entrar nessa corte carioca precisa ser feito na hora em que você nasce.
Publicado em VEJA São Paulo de 14 de agosto de 2026, edição nº3008







