Masp inaugura anexo na Avenida Paulista e passa por transformação histórica
Com o prédio vizinho e o vão livre, museu dobra área de atuação e dá um grande passo em direção a novas dinâmicas, prioridades e objetivos

O Museu de Arte de São Paulo abre na sexta-feira (28) o tão esperado anexo e dá um passo fundamental em direção a uma transformação histórica. O edifício no número 1500 da Avenida Paulista, batizado de Pietro Maria Bardi em homenagem ao diretor artístico fundador (1900-1999), tem catorze andares e 7 821 metros quadrados, com galerias, espaços multiúso, laboratório de restauro, salas de aula, restaurante e loja.
Somado ao vão livre, concedido pela prefeitura por vinte anos, o museu dobra a área de atuação de 10 485 para 21 863 metros quadrados. “É um momento muito importante para a cidade e a nossa cultura”, afirma o presidente da instituição, Heitor Martins.
A inauguração é considerada o feito mais significativo do Masp desde 1968, quando deixou a sede dos Diários Associados, na Rua 7 de Abril, e foi para o icônico prédio modernista de pilastras vermelhas, projetado por Lina Bo Bardi (1914-1992) — que agora leva o nome da arquiteta, esposa de Bardi.


Foi então que o museu, fundado em 1947 pelo empresário Assis Chateaubriand (1892-1968), consolidou-se no cenário nacional. “O museu veio para a Avenida Paulista e se incorporou definitivamente ao imaginário da população”, descreve Martins.
Mais da metade de um século se passou. São Paulo triplicou sua população e virou uma cidade turística, mais dinâmica, com demandas e temas culturais mais amplos. “O edifício que a gente tinha ficou pequeno”, diz o presidente.


O anexo chega para complementar a atuação, com condições de climatização, iluminação, preservação e segurança compatíveis com instituições de metrópoles internacionais — o prédio da Lina apresenta desafios por causa da fachada envidraça da e do vão livre.
A nova estrutura, com docas para carga e descarga, promete facilitar e favorecer o empréstimo de obras internacionais, na perspectiva de projetar ainda mais o Masp no planeta.

Cinco andares do novo edifício serão dedicados a exposições — um aumento de 60% do espaço expositivo. A abertura ao público será pautada pelos Ensaios sobre o Masp, com cinco mostras de obras do acervo: Histórias do Masp, Renoir, Geometrias, Artes da África e Isaac Julien: Lina Bo Bardi — Um Maravilhoso Emaranhado. O percurso imaginado para o visitante é subir ao 6° andar e descer até o 2°.
A curadoria pretende explorar a verticalidade e, no futuro, espalhar exposições maiores em mais de um piso. “Cada andar tem um tamanho médio muito bom, que permite criar diferentes configurações para uma mostra”, garante o diretor artístico, Adriano Pedrosa.

Os dois pisos com salas multiúso poderão receber obras de artes ou sediar eventos. Com mais flexibilidade, as mostras iniciais já apre sentam expografias variadas, que não seriam possíveis antes.
A previsão de Pedrosa é que a inauguração do Edifício Pietro reflita no Lina em 2027. O segundo subsolo do cartão-postal paulistano deve se dedicar ao acervo — de mais de 11 000 peças, das quais só 1% está exposta.


A Escola Masp ganha agora um andar com três salas. A proposta educacional existe desde a fundação, mas nunca teve lugar próprio. Além das disciplinas existentes, cria-se uma nova frente: “Todas as exposições terão um curso”, adianta a coordenadora pedagógica Iliriana Rodrigues.
O acréscimo à sede permite oportunidades, como apresentar obras das reservas técnicas aos alunos e demonstrar a teoria na prática. “Teremos imersão na maioria dos cursos.” As aulas serão realizadas de forma presencial, remota e híbrida.
O vão livre também oferece mais possibilidades, como exibição de obras de grandes dimensões, atividades para crianças, shows e performances.

O espaço deixará de receber a tradicional feirinha de antiguidades, que acontecia aos domingos há mais de quatro décadas, agora transferida para a Rua Ministro Rocha Azevedo, entre a Avenida Paulista e a Alameda Santos — a decisão da gestão tem sido alvo de audiências públicas e projetos de lei.
A instalação inaugural do belvedere é O Outro, Eu e os Outros, de Iván Argote, formada por gangorras gigantes interativas. “Será um destino muito mais nobre”, acredita Alfredo Setubal, patrono e presidente do conselho do museu.
O imóvel do anexo foi adquirido em 2005 com 12 milhões de reais doados pela Vivo. Trata-se do antigo edifício residencial Dumont-Adams, construído nos anos 1950. Iniciou-se uma intervenção arquitetônica assinada por Júlio Neves, então diretor do Masp, mas a obra foi interrompida, devido ao baixo orçamento e à Lei Cidade Limpa, além de determinações dos órgãos de patrimônio histórico.
Com a herança de dívidas sanada, a prioridade passou a ser atrair mais visitantes. O público flutua em torno de 500 000 por ano — espera se alcançar 2 milhões com a expansão.
O conselho realizou a captação de fundos. “Abordamos diversas famílias de empresários que fizeram a vida em São Paulo e as convidamos a dar um presente para a cidade. Tivemos sucesso.” A doação total foi de 250 milhões de reais — a maior captação filantrópica na história do país, segundo Setubal.
A reforma começou em 2019, com a assinatura do antigo diretor e do escritório Metro Arquitetos Associados. “Trabalhamos no Masp desde o início da gestão atual”, relata Martin Corullon, sócio-fundador do Metro. Embora o museu seja privado, o argumento é um contraponto à crítica de não ter sido feito um concurso para a adequação do anexo.


A obra manteve a fachada e eliminou colunas estruturais do núcleo central do prédio. O projeto buscou diálogos com o da Lina, como o volume retangular, o concreto aparente e o piso preto. Para não roubar o protagonismo do original, tem revestimento externo de chapas metálicas pretas e a ausência do vermelho.
O projeto recebeu críticas nas redes sociais. “É visualmente desagradável por fora, parece uma torre de computador gigante”, comenta o historiador Douglas Nascimento, da página São Paulo Antiga. Há apoiadores. “É interessante, pois resolve um problema difícil, de construir ao lado de um edifício icônico em outro edifício preexistente”, acredita o curador e crítico de arquitetura Fernando Serapião.
Para o sócio da Metro Arquitetos, o prédio não pode ser pensado isoladamente, pois vem para “atualizar, complementar e potencializar as virtudes do projeto da Lina”.
Um exemplo dessa proposta é a mudança para o anexo da bilheteria, instalada ao longo de todos esses anos no vão livre, a fim de liberar o belvedere para atividades culturais, como a arquiteta modernista ítalo-brasileira idealizara. No segundo semestre deste ano, a entrada ocorrerá pelo monolito preto, com a abertura do túnel subterrâneo.
![Iran do Espírito Santo, Lata K [Can K], 2005. Acervo MASP_Crédito Eduardo Ortega, cortesia Fortes D’Aloia & Gabriel, São Paulo_Rio de Janeiro.jpg 'Lata' (2005), de Iran do Espírito, na mostra 'Geometrias'](https://beta-develop.vejasp.abril.com.br/wp-content/uploads/2025/03/Iran-do-Espirito-Santo-Lata-K-Can-K-2005.-Acervo-MASP_Credito-Eduardo-Ortega-cortesia-Fortes-DAloia-Gabriel-Sao-Paulo_Rio-de-Janeiro.jpg.jpg?quality=70&strip=info&w=650)

O térreo da caixa preta também apresenta fachadas envidraçadas e cria áreas de convivência para a população, além de espaço para loja e para o restaurante A Baianeira — o estabelecimento reabre na sexta (28).
“Minha impressão é que as pessoas vão compreender melhor a arquitetura quando visitarem o prédio”, diz Miriam Elwing, gerente de projetos e arquitetura do Masp. “Quando se olha por fora, parece uma tela opaca. Do lado de dentro, há uma moldura interessante.” Em paralelo, Miriam ajudou a conduzir a restauração do edifício original, que ganha agora uma nova pintura.
O momento de celebração é generalizado entre os colaboradores da instituição. “É emocionante viver tudo isso”, diz a supervisora de relacionamento Jussara Nascimento. “Agora, dobra a expectativa de pessoas apoiando com doações.” Wanda Mirabile, líder de orientação de público, complementa: “Sou uma paulistana ferrenha, é um marco. Trabalhar no maior atrativo turístico da cidade, quiçá do Brasil, é um orgulho”.
A partir da próxima semana, o visitante que comprar uma entrada para o Masp (75 reais a inteira) terá acesso a todas as exposições dos dois prédios.

Publicado em VEJA São Paulo de 21 de março de 2025, edição nº 2936