Masp inaugura anexo na Avenida Paulista e passa por transformação histórica

Com o prédio vizinho e o vão livre, museu dobra área de atuação e dá um grande passo em direção a novas dinâmicas, prioridades e objetivos

Por Mattheus Goto
Atualizado em 26 mar 2025, 14h43 - Publicado em 21 mar 2025, 06h00
Expansão do Masp: a construção modernista de Lina Bo Bardi ao lado do novo prédio, assinado por Júlio Neves e Metro Arquitetos
Expansão do Masp: a construção modernista de Lina Bo Bardi ao lado do novo prédio, assinado por Júlio Neves e Metro Arquitetos (Romulo Fialdini/Veja SP)
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O Museu de Arte de São Paulo abre na sexta-feira (28) o tão esperado anexo e dá um passo fundamental em direção a uma transformação histórica. O edifício no número 1500 da Avenida Paulista, batizado de Pietro Maria Bardi em homenagem ao diretor artístico fundador (1900-1999), tem catorze andares e 7 821 metros quadrados, com galerias, espaços multiúso, laboratório de restauro, salas de aula, restaurante e loja.

Somado ao vão livre, concedido pela prefeitura por vinte anos, o museu dobra a área de atuação de 10 485 para 21 863 metros quadrados. “É um momento muito importante para a cidade e a nossa cultura”, afirma o presidente da instituição, Heitor Martins.

A inauguração é considerada o feito mais significativo do Masp desde 1968, quando deixou a sede dos Diários Associados, na Rua 7 de Abril, e foi para o icônico prédio modernista de pilastras vermelhas, projetado por Lina Bo Bardi (1914-1992) — que agora leva o nome da arquiteta, esposa de Bardi.

Heitor Martins, presidente do Masp
Heitor Martins, presidente do Masp (Romulo Fialdini/Veja SP)

 

Comoção interna geral: equipes em celebração do novo prédio do Masp
Comoção interna geral: equipes em celebração do novo prédio do Masp (Romulo Fialdini/Veja SP)

Foi então que o museu, fundado em 1947 pelo empresário Assis Chateaubriand (1892-1968), consolidou-se no cenário nacional. “O museu veio para a Avenida Paulista e se incorporou definitivamente ao imaginário da população”, descreve Martins.

Mais da metade de um século se passou. São Paulo triplicou sua população e virou uma cidade turística, mais dinâmica, com demandas e temas culturais mais amplos. “O edifício que a gente tinha ficou pequeno”, diz o presidente.

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Térreo do prédio novo do Masp
Térreo do prédio novo do Masp (Romulo Fialdini/Veja SP)
Vista do térreo do prédio novo do Masp
Vista do térreo do prédio novo do Masp (Leonardo Finotti/Divulgação)

O anexo chega para complementar a atuação, com condições de climatização, iluminação, preservação e segurança compatíveis com instituições de metrópoles internacionais — o prédio da Lina apresenta desafios por causa da fachada envidraça da e do vão livre.

A nova estrutura, com docas para carga e descarga, promete facilitar e favorecer o empréstimo de obras internacionais, na perspectiva de projetar ainda mais o Masp no planeta.

Fachada do novo prédio do Masp
Fachada do novo prédio do Masp (Leonardo Finotti/Divulgação)
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Cinco andares do novo edifício serão dedicados a exposições — um aumento de 60% do espaço expositivo. A abertura ao público será pautada pelos Ensaios sobre o Masp, com cinco mostras de obras do acervo: Histórias do Masp, Renoir, Geometrias, Artes da África e Isaac Julien: Lina Bo Bardi — Um Maravilhoso Emaranhado. O percurso imaginado para o visitante é subir ao 6° andar e descer até o 2°.

A curadoria pretende explorar a verticalidade e, no futuro, espalhar exposições maiores em mais de um piso. “Cada andar tem um tamanho médio muito bom, que permite criar diferentes configurações para uma mostra”, garante o diretor artístico, Adriano Pedrosa.

'Um Maravilhoso Emaranhado' (2019), de Isaac Julien, videoinstalação com Fernanda Montenegro e Fernanda Torres no papel de Lina
‘Um Maravilhoso Emaranhado’ (2019), de Isaac Julien, videoinstalação com Fernanda Montenegro e Fernanda Torres no papel de Lina (©Isaac Julien Cortesia do artista, Nara Roesler e Victoria Miro, Londres/Divulgação)

'Menina com as Espigas' (1888), de Renoir
‘Menina com as Espigas’ (1888), de Renoir (Isabella Matheus/Divulgação)
No caso de Histórias da Ecologia, tema do ano no museu, haverá uma única coletiva ocupando os cinco andares. “Os espaços lembram o aspecto de um cubo branco, que pode ser pintado de qualquer cor, receber suportes, tecidos e materiais”, descreve.

Os dois pisos com salas multiúso poderão receber obras de artes ou sediar eventos. Com mais flexibilidade, as mostras iniciais já apre sentam expografias variadas, que não seriam possíveis antes.

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A previsão de Pedrosa é que a inauguração do Edifício Pietro reflita no Lina em 2027. O segundo subsolo do cartão-postal paulistano deve se dedicar ao acervo — de mais de 11 000 peças, das quais só 1% está exposta.

Sala multiúso no 9° andar do novo prédio do Masp
Sala multiúso no 9° andar do novo prédio do Masp (Leonardo Finotti/Divulgação)
Escada no 9° andar do novo prédio do Masp
Escada no 9° andar do novo prédio do Masp (Leonardo Finotti/Divulgação)

A Escola Masp ganha agora um andar com três salas. A proposta educacional existe desde a fundação, mas nunca teve lugar próprio. Além das disciplinas existentes, cria-se uma nova frente: “Todas as exposições terão um curso”, adianta a coordenadora pedagógica Iliriana Rodrigues.

O acréscimo à sede permite oportunidades, como apresentar obras das reservas técnicas aos alunos e demonstrar a teoria na prática. “Teremos imersão na maioria dos cursos.” As aulas serão realizadas de forma presencial, remota e híbrida.

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O vão livre também oferece mais possibilidades, como exibição de obras de grandes dimensões, atividades para crianças, shows e performances.

Instalação de Iván Argote
Instalação de Iván Argote (Mohammed Bu Hasan/Cortesia de Noor Riyadh e Havas/Divulgação)

O espaço deixará de receber a tradicional feirinha de antiguidades, que acontecia aos domingos há mais de quatro décadas, agora transferida para a Rua Ministro Rocha Azevedo, entre a Avenida Paulista e a Alameda Santos — a decisão da gestão tem sido alvo de audiências públicas e projetos de lei.

A instalação inaugural do belvedere é O Outro, Eu e os Outros, de Iván Argote, formada por gangorras gigantes interativas. “Será um destino muito mais nobre”, acredita Alfredo Setubal, patrono e presidente do conselho do museu.

O imóvel do anexo foi adquirido em 2005 com 12 milhões de reais doados pela Vivo. Trata-se do antigo edifício residencial Dumont-Adams, construído nos anos 1950. Iniciou-se uma intervenção arquitetônica assinada por Júlio Neves, então diretor do Masp, mas a obra foi interrompida, devido ao baixo orçamento e à Lei Cidade Limpa, além de determinações dos órgãos de patrimônio histórico.

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Vista aérea do terreno em 1957, na exposição 'Histórias do Masp'
Vista aérea do terreno em 1957, na exposição ‘Histórias do Masp’ (Luiz Hossaka/Divulgação)
Quando a gestão atual assumiu, em 2015, as partes renegociaram o acordo. “Hoje, o prédio é do Masp, que vai virar um centro cultural completo”, diz Setubal.

Com a herança de dívidas sanada, a prioridade passou a ser atrair mais visitantes. O público flutua em torno de 500 000 por ano — espera se alcançar 2 milhões com a expansão.

O conselho realizou a captação de fundos. “Abordamos diversas famílias de empresários que fizeram a vida em São Paulo e as convidamos a dar um presente para a cidade. Tivemos sucesso.” A doação total foi de 250 milhões de reais — a maior captação filantrópica na história do país, segundo Setubal.

A reforma começou em 2019, com a assinatura do antigo diretor e do escritório Metro Arquitetos Associados. “Trabalhamos no Masp desde o início da gestão atual”, relata Martin Corullon, sócio-fundador do Metro. Embora o museu seja privado, o argumento é um contraponto à crítica de não ter sido feito um concurso para a adequação do anexo.

Croqui de Lina Bo Bardi para o vão livre do Masp
Croqui de Lina Bo Bardi para o vão livre do Masp (Luiz Hossaka/Divulgação)
Desenho do Metro Arquitetos para o novo Masp
Desenho do Metro Arquitetos para o novo Masp (Metro Arquitetos/Divulgação)

A obra manteve a fachada e eliminou colunas estruturais do núcleo central do prédio. O projeto buscou diálogos com o da Lina, como o volume retangular, o concreto aparente e o piso preto. Para não roubar o protagonismo do original, tem revestimento externo de chapas metálicas pretas e a ausência do vermelho.

O projeto recebeu críticas nas redes sociais. “É visualmente desagradável por fora, parece uma torre de computador gigante”, comenta o historiador Douglas Nascimento, da página São Paulo Antiga. Há apoiadores. “É interessante, pois resolve um problema difícil, de construir ao lado de um edifício icônico em outro edifício preexistente”, acredita o curador e crítico de arquitetura Fernando Serapião.

Para o sócio da Metro Arquitetos, o prédio não pode ser pensado isoladamente, pois vem para “atualizar, complementar e potencializar as virtudes do projeto da Lina”.

Um exemplo dessa proposta é a mudança para o anexo da bilheteria, instalada ao longo de todos esses anos no vão livre, a fim de liberar o belvedere para atividades culturais, como a arquiteta modernista ítalo-brasileira idealizara. No segundo semestre deste ano, a entrada ocorrerá pelo monolito preto, com a abertura do túnel subterrâneo.

'Lata' (2005), de Iran do Espírito, na mostra 'Geometrias'
‘Lata’ (2005), de Iran do Espírito, na mostra ‘Geometrias’ (Eduardo Ortega/Cortesia D'Aloia Gabriel/Divulgação)
Cartaz de anúncio do Masp em francês
Cartaz de anúncio do Masp em francês (Acervo Masp/Divulgação)

O térreo da caixa preta também apresenta fachadas envidraçadas e cria áreas de convivência para a população, além de espaço para loja e para o restaurante A Baianeira — o estabelecimento reabre na sexta (28).

“Minha impressão é que as pessoas vão compreender melhor a arquitetura quando visitarem o prédio”, diz Miriam Elwing, gerente de projetos e arquitetura do Masp. “Quando se olha por fora, parece uma tela opaca. Do lado de dentro, há uma moldura interessante.” Em paralelo, Miriam ajudou a conduzir a restauração do edifício original, que ganha agora uma nova pintura.

O momento de celebração é generalizado entre os colaboradores da instituição. “É emocionante viver tudo isso”, diz a supervisora de relacionamento Jussara Nascimento. “Agora, dobra a expectativa de pessoas apoiando com doações.” Wanda Mirabile, líder de orientação de público, complementa: “Sou uma paulistana ferrenha, é um marco. Trabalhar no maior atrativo turístico da cidade, quiçá do Brasil, é um orgulho”.

A partir da próxima semana, o visitante que comprar uma entrada para o Masp (75 reais a inteira) terá acesso a todas as exposições dos dois prédios.

Capa da edição 2936
Capa da edição 2936 (Romulo Fialdini/Veja SP)

Publicado em VEJA São Paulo de 21 de março de 2025, edição nº 2936

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