Por dentro do novo MAM, que reabre com iniciativa inédita de preservação de sua memória
Após dois anos fechado, Museu de Arte Moderna volta à sua sede histórica na Marquise do Ibirapuera com melhorias na infraestrutura e planos para o futuro
No início de 2024, a equipe do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) foi surpreendida com uma notícia pouco animadora: o museu deveria esvaziar e fechar sua sede para conclusão das obras de requalificação da Marquise do Ibirapuera, onde está localizado, executada pela Urbia, concessionária responsável pela gestão do parque. Assim foi feito e, em 26 de agosto daquele ano, o MAM fechou as portas. A previsão inicial era de que a reforma durasse seis meses, mas se estendeu por um ano além do prazo. “Há mais ou menos um ano, a gente veio ver como estava a reforma e foi desesperador, porque não tinha nada. Tudo foi derrubado. Os vidros, a fachada, as paredes, o forro, os banheiros, o cabeamento, a parte elétrica, a parte hidráulica, não tinha nada. Eu pensei: não tem mais MAM. Acabou, não tem museu”, conta o curador-chefe Cauê Alves. “Mas, claro, foi só um momento de pânico. Depois eu pensei: vamos reconstruir”, esclarece. E reconstruíram. O resultado pode ser visto desde o último sábado (12), quando o MAM reabriu as portas após dois anos fechado.
Depois da entrega da Marquise, em janeiro, o museu iniciou uma reforma de requalificação de seus próprios ambientes. O edifício do MAM foi construído em 1954 por Oscar Niemeyer (1907-2012) — integrado à marquise projetada por ele — e adaptado por Lina Bo Bardi (1914-1992) em 1982, quando ganhou a estrutura que conhecemos hoje, com a fachada de vidro que promove um diálogo entre a área verde e o museu. A ideia da reforma de 2026 foi, então, preservar essa arquitetura tombada pelo patrimônio histórico e, ao mesmo tempo, atualizar seus espaços para ampliar a experiência do público.
O projeto foi assinado pelo escritório Metrópole Arq, com novo sistema de sinalização desenvolvido pelo Estúdio CLDT. A intervenção promoveu a reorganização dos fluxos internos para criar uma experiência de acolhimento mais fluída e acessível, eliminando desníveis e melhorando a acessibilidade, além da implementação de um forro técnico com trilhos móveis nas salas expositivas, permitindo maior flexibilidade na hora de montar as exposições, do reposicionamento da bilheteria para a área externa e da renovação integral do educativo, da biblioteca e da loja. O restaurante do MAM passa a ser operado pelo Petí Gastronomia, do chef Victor Dimitrow e da restauratrice Bárbara Camargo, com opções de menu fixo e sazonal e pratos inspirados nas exposições. O espaço foi adornado com uma obra inédita de Carmela Gross, Brasil à Mão Livre, um mapa desfigurado do país construído em tubos de LED rosa, que capta a atenção do visitante e propõe uma reflexão sobre território, memória e as formas de representação do Brasil.
A reforma resultou ainda em uma reserva técnica inédita para o Clube de Colecionadores MAM, um novo projeto luminotécnico, atualização na identidade visual e novos equipamentos de ar-condicionado, com mais precisão no controle de umidade e temperatura. “O ar-condicionado do MAM era dos anos 70. Estava funcionando, mas como aquele carro velho que dá para andar, mas exige manutenção, gasto de energia. A conta de luz certamente vai cair”, diz Cauê. Ao todo, a obra custou 21,5 milhões de reais, dos quais cerca de 10 milhões de reais foram custeados pela prefeitura de São Paulo. O restante foi captado via doações de pessoas físicas e empresas parceiras.
A volta do MAM é marcada pelo 39º Panorama da Arte Brasileira. A tradicional exposição bienal promovida pela instituição e dedicada a mapear a produção contemporânea brasileira em todas as regiões do país acompanha grandes momentos do museu desde sua criação, em 1969 — a 1º edição inaugurou a sede do Ibirapuera. Apesar de existir desde 1948, foi só naquele ano que o MAM passou a ocupar o prédio sob a Marquise. Com o título Depois que Tudo Foi Dito, o 39º Panorama reúne 33 artistas de onze estados, com curadoria de Diane Lima — responsável, em 2026, pelo Pavilhão do Brasil na 61ª Bienal de Veneza.
“Apenas nos últimos anos, o Brasil foi capaz de organizar uma produção de conhecimento que inclui as cosmologias africanas, afro-diaspóricas e indígenas, a cultura queer e as culturas dissidentes em geral. Essa organização foi fundamental para que o mundo da arte conseguisse chegar em formas, modos de expressão, técnicas e apresentações de materialidades que antes não tinham sido possíveis ou foram invisibilizadas. Este Panorama fala desse momento e celebra o pensamento do feminismo negro, que tem estado na linha de frente dessas mobilizações há algum tempo”, resume Diane. Estão em cartaz nomes como Allan Weber, Lia D Castro, Ana Cláudia Almeida, Jota Mombaça e Lita Cerqueira. As obras têm em comum o experimentalismo e a tridimensionalidade, passeando por escultura, instalação e arte digital.
As novidades não se encerraram com a esperada reabertura. Em novembro, será inaugurado o Centro de Documentação e Memória no espaço que antes ocupava a biblioteca da instituição. “Fomos vendo ao longo dos anos que a nossa biblioteca não é uma biblioteca apenas. Ela abriga uma documentação institucional que é uma salvaguarda importante, porque a maior parte das atividades do museu é efêmera”, conta Pedro Nery, museólogo do MAM. “Uma série de pesquisadores entra em contato com a gente pedindo material e muitas vezes a gente sente que não está conseguindo dar tudo para o interessado, porque não está organizado.”
Por meio de um financiamento de 1,4 milhão de reais via edital da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o MAM começou a tratar, catalogar, organizar e digitalizar seu acervo documental — um trabalho que seguirá pelos próximos dois anos. Os materiais a serem revelados e disponibilizados incluem fotos de exposições antigas, arquivos pessoais de personalidades como o escritor Luis Martins (1907-1981), que foi casado com Tarsila do Amaral (1886-1973), desenhos e maquetes de Lina Bo Bardi para o projeto da reestruturação da sede do MAM em 1982, documentos, atas, vídeos de performances, além de cartas da própria Lina e de artistas como Di Cavalcanti (1897-1976). Seguirá o modelo de iniciativas como a Biblioteca Kandinsky, do Centro Pompidou, em Paris.
Um objetivo é fortalecer a preservação da história do museu a partir de 1969. Fundado na Rua Sete de Abril (em 1948), o MAM passou a ocupar diferentes áreas do Ibirapuera a partir de 1953, como o prédio da Fundação Bienal de São Paulo — as seis primeiras Bienais (entre 51 e 61) foram realizadas pelo museu, até a criação da Fundação Bienal, em 1962. No ano seguinte, toda a coleção foi doada para a USP, dando origem ao Museu de Arte Contemporânea (MAC-USP). “A ideia é que no futuro a gente faça um acordo com a Bienal e possivelmente com o MAC, que têm muita documentação do início do MAM, para que a gente consiga fazer um portal integrado. Também, queremos receber mais arquivos pessoais de artistas e ampliar a instituição enquanto um centro difusor de conhecimento”, adianta Pedro. O espaço terá acesso livre, sem necessidade de pagar ingresso, funcionando de terça a sábado.
“Como um todo, o museu está mais tecnológico e atualizado. E sem dúvida o Centro de Documentação é um passo fundamental para a institucionalização dessa memória, desse patrimônio público de relevância mundial que está preservado, mas não está totalmente disponível e digitalizado para o público. Então, acho que subimos não só um degrau, mas talvez uma boa escadaria”, sintetiza Cauê. ■
MAM. Parque Ibirapuera (Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, Vila Mariana), ☎ 5085-1300. → Acesso pelos portões 1 e 3. Ter. a dom., 10h/18h (entrada até 17h30). R$ 40,00 (dom., grátis). Até 24/1/2027.
Publicado em VEJA São Paulo de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013.






