Luiz Fernando Guimarães: “O teatro foi a minha salvação e cura”
Ator carioca, que comemora cinquenta anos de carreira com nova peça em São Paulo, fala sobre paternidade, 'Os Normais' e sua maior referência na atuação
Luiz Fernando Guimarães, 76, adiciona mais um evento às celebrações de seus cinquenta anos de carreira: a peça inédita Curto-Circuito. Escrito por Gustavo Pinheiro e dirigido por Gustavo Barchilon especialmente para o ator carioca, o espetáculo está em cartaz no Teatro Renaissance até o dia 31.
Claro, uma comédia, especialidade do artista que estreou nos palcos em 1974, com O Inspetor Geral, ao lado do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone. Seus personagens hilários e espontâneos, que se aventuram em histórias cotidianas, também ganharam as telas em séries como Os Normais, na TV Globo, cuja estreia completa 25 anos em 1o de junho.
Interpretando Rui, par de Vani, vivida por Fernanda Torres, Luiz deixou sua marca na televisão brasileira. Após oito anos longe das novelas da emissora, participou de Três Graças, cujo capítulo final foi exibido no último dia 15. Desde 2020, sua vida mudou ao adotar, com o marido Adriano Medeiros, os irmãos Dante e Olívia. No papo a seguir, ele fala sobre paternidade, novidades e trajetória.
Qual o sentimento de completar meio século de carreira?
Tudo começou no teatro, sem muita consciência do que daria, se essa seria a minha profissão. Escolhi o teatro como recreação. Era uma forma de me expor, sempre fui muito tímido, com uma dificuldade enorme de me colocar no mundo. Foi minha salvação e cura. Eu fazia muita terapia aos 19 e 20 anos, como uma forma de conviver com as pessoas. Em um desses encontros, uma moça disse: “Luiz, você tem jeito para teatro”. Era Martha Rosman, professora do Tablado, que me apresentou ao Hamilton Vaz Pereira (diretor do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone). Eu ensaiava de noite e trabalhava em banco durante o dia. Até o momento em que decidi sair do emprego e fazer o que me dava prazer.
“As pessoas ficavam em casa só para ver Os Normais. O programa ficou no inconsciente coletivo”
Como o teatro o salvou?
O teatro te obriga a trabalhar com suas imperfeições. Eu seria uma pessoa muito introspectiva. Me sentia atrapalhado, e o palco transformou isso em charme. O que você não gosta em você pode ser uma característica muito forte e bonita.
Nessas cinco décadas, sua maneira de atuar mudou?
Fui amadurecendo e desenvolvendo a minha arte nesses anos, mas não mudei muito. Nunca entro em um projeto com o personagem pronto. Depende muito de onde será a gravação, dos colegas, das conversas com o diretor. Sinto que isso traz um tom naturalista. Não formalizo ou engesso, é uma característica minha.
Você ainda fica nervoso antes de subir ao palco?
Claro. E hoje sinto que preciso de silêncio antes de entrar em cena. Não tenho mais o frio na barriga nem o suor na testa. Tenho esse silêncio profundo, que pode significar “o que vai acontecer hoje?”. Tenho que estar preparado para o que vier. Me fortifico para entrar em cena. Isso me tranquiliza.
Como a comédia apareceu em sua vida?
Eu não planejei, foi algo natural. Duas características importantes sobre mim: tenho facilidade em dizer não e não tenho medo. Quando me oferecem um personagem, minha primeira pergunta é: “Por que você me chamou?”. Agora estão me convidando para papéis mais sérios, e estou gostando muito. Mas a comédia está integrada em minha forma de ver o mundo. Tenho uma certa ironia. Com 18 ou 19 anos, diziam: “Nossa, você é muito debochado”.
Como a peça Curto-Circuito dialoga com sua essência artística?
É um texto muito abusado, que conversa direto com o público. O curto-circuito, se você analisar, é o momento em que o ser humano não consegue resolver algo. A peça traz isso para a mente de um ator. São ilusões, sensações e sentimentos que passam pela cabeça dele antes de entrar em cena.
O que a paternidade mudou em você?
Foi a melhor coisa que me aconteceu. Sempre fui muito cuidador. Eles são o grande feito da minha vida, meu maior momento de felicidade. Jamais imaginei que pudesse estar neste momento com um filho de 15 e uma menina de 13, conversando sobre problemas de escola, dividindo o tempo com eles. Me sinto preparado. Antes eu e Adriano conversávamos sobre como faltavam pessoas na nossa vida. Eles preenchem a casa, o coração. Minha vida mudou radicalmente com a chegada deles.
Existe algum plano de um novo projeto para Os Normais?
O Alexandre Machado (escritor e roteirista da série ao lado de Fernanda Young, que faleceu em 2019) tem um projeto que mandou para a Globo, o que seria o terceiro filme. No início da série, eu tinha acabado de chegar de uma viagem com a Fernanda (Torres) para a África. Convenci a Globo de que ela deveria ser a minha noiva na série. Deu muito certo, claro. A gente não decorava. E a equipe era maravilhosa. Penso que sempre o espectador tem que olhar e pensar que fazemos aquilo com o pé nas costas. Gosto de passar uma facilidade, mesmo que não seja real, porque é resultado de muito trabalho. A leveza da mensagem e da postura cênica.
Até hoje trechos do programa fazem sucesso nas redes. Você fica surpreso com essa longevidade?
Vira e mexe vejo pílulas que nunca tinha assistido. E acho mais graça agora do que na época. É atual mesmo. A Vani representava todas as mulheres, era a borboleta, e o Rui era o boi. Ele sentado vendo o jornal, ela voando ao redor. Ela sempre ia para a casa dele, nunca o contrário. Rui é aquele homem confortável, um executivo que não ia perder o emprego, enquanto a Vani não parava em lugar nenhum. Foi surpreendente, estreamos depois do Globo Repórter. Eu ligava para a Nanda e falava: “Ninguém vai ver o nosso programa”. Mas começamos a observar que as pessoas ficavam em casa só para ver Os Normais. O programa ficou no inconsciente coletivo.
Quais os seus próximos passos?
Tenho um projeto que se chama Do Nosso Lado, sobre a nossa família. Desde o primeiro encontro com Dante e Olívia. É uma série de documentário, estamos apresentando a vários canais. E estou gravando o filme Um Casal Quase Perfeito, com Marisa Orth e grande elenco.
Quem é seu herói ou heroína da atuação?
Marco Nanini é a minha maior inspiração. É o ator que, desde que comecei no teatro, tenho como referência. Queria sempre ser igual a ele.
Tem um sonho a realizar?
Viajar para o Japão.
Publicado em VEJA São Paulo de 22 de maio de 2026, edição nº 2996





