Avatar do usuário logado
Usuário

“A briga pela atenção está ferrenha hoje em dia”, afirma João Wainer

Diretor paulistano lança documentário sobre o craque Zico, fala sobre carreira e dá detalhes do próximo projeto, uma ficção sobre a origem do PCC

Por Mattheus Goto 1 Maio 2026, 08h00
joao-wainer
Do jornalismo ao cinema: filmes de João Wainer (Roberto Setton/Veja SP)
Continua após publicidade

O repertório eclético é uma peça essencial no trabalho de João Wainer, 50. O paulistano, que tem uma sólida trajetória no jornalismo e enveredou pelo cinema, lançou na quinta (30) o documentário Zico, o Samurai de Quintino, sobre o ídolo do Flamengo.

A obra retrata Arthur Antunes Coimbra, o Zico, por meio de depoimentos do próprio ex- jogador e de figuras próximas como Ronaldo Fenômeno, e mergulha no seu acervo pessoal. Há um olhar especial para a vivência do atleta no Japão, uma escolha do diretor.

A diversidade de experiências na sua carreira — que vai da fotografia ao roteiro, do documentário à ficção, passando pela publicidade — contribuiu para que ele soubesse abordar assuntos diversos. A veia cinematográfica se mistura com a jornalística e “uma camada de entretenimento”, como descreve.

Sua filmografia inclui Pixo (2009), o perfil da cantora Anitta (Larissa: o Outro Lado de Anitta, 2025) e a série Meu Ayrton (2025), sobre a relação de Adriane Galisteu e Ayrton Senna. Em entrevista à Vejinha, João fala sobre as produções e o próximo projeto, uma ficção sobre a origem do PCC.

Que relação você tinha com o Zico e o futebol em geral antes do filme?

Eu sou fã do Zico. Ele foi o maior que eu vi jogar. Não sou flamenguista, sou santista, mas não conseguiria fazer um filme sobre o Santos, por ser tão apaixonado. Fui chamado pelos produtores para dirigir esse documentário e tentar embalar a história de um jeito diferente do convencional. A gente queria trazer um frescor e, aos poucos, percebemos que você só consegue entender o Zico dentro de campo se entender o ser humano.

Na passagem pelo Japão, surge o “spirit of Zico”. Como descreve esse espírito e por que quis destacá-lo?

Eles descrevem em três palavras: trabalho, lealdade e respeito. Acho que vai além, é um jeito de olhar para o mundo e a vida. O Japão é fundamental para o perfil do Zico. Criei uma teoria meio maluca, que não botei no filme, mas que me ajudou com o arco narrativo, de que ele é um samurai que viveu no século XVIII, morreu e reencarnou em Quintino com a missão de aprender o futebol e levar de volta para a casa dele.

Continua após a publicidade

Para a série Meu Ayrton, como foi a conversa com Adriane?

A gente foi ganhando a confiança um do outro. Ela estava insegura no começo, gosta de trabalhar com pessoas conhecidas. Desde o início, expliquei o que eu queria fazer. A história tinha todos os arquétipos de um conto de fadas. A menina pobre que encontra o príncipe encantado, a madrasta malvada, a carruagem que vira abóbora. Uma história conhecida sempre tem ângulos novos, que normalmente vêm das mulheres. A vida do Ayrton tinha sempre sido contada por homens, mas tem várias mulheres envolvidas. O olhar delas tem me interessado muito.

Ao perfilar uma pessoa, sente influência do lado jornalista?

Total. Trabalhei muitos anos no dia a dia da redação. O jornalismo de imagem me ajudou a imaginar a cara do filme. É um elemento importante, pois a briga pela atenção está ferrenha hoje em dia. Uma vez, ouvi do empresário Nizan Guanaes que as pessoas não assistem a vídeos para se informar, assistem para se entreter. Se você não criar uma embalagem de entretenimento, a informação se perde. Não adianta ter a melhor informação do mundo. Estou o tempo todo tentando encontrar essa camada.

Como a experiência no jornalismo o marcou?

Eu ganhei bastante experiência na rua. Quando fui fotografar o Cacá Diegues (19402025), tinha 19 anos, contei que queria trabalhar com cinema. Ele falou: “Quer uma dica? Fica no jornalismo o máximo de tempo que você puder antes. No jornal, vai aprender sobre a vida, as pessoas, tragédias, glórias, derrotas. Vai ver de tudo. E aí, quando vier para o cinema, vai ter coisa para contar”. Eu levei bem a sério a dica. Cheguei tarde ao cinema, mas cheguei com bagagem. Migrei para o audiovisual de vez quando comecei a sentir que algumas histórias tinham detalhes que ficavam de fora.

“Zico foi o maior que vi jogar. Sou santista, mas não conseguiria fazer um filme sobre o Santos, por ser tão apaixonado”

João Wainer
Continua após a publicidade

 

Quais foram os principais desafios ao dirigir o primeiro longa?

Pixo é meu filme mais legal, mais verdadeiro. Ninguém prestava atenção quando andava na rua em São Paulo. Foi difícil, como tudo é. Os moleques eram muito fechados, mas tudo é uma questão de ganhar confiança. Tem que lidar com imprevistos e chegar com bastante respeito e humildade, do pixador (com “x” mesmo, como o movimento surgido na capital nos anos 1980 grafa para se diferenciar do termo no dicionário com “ch”) à Adriane Galisteu. Comecei a olhar para a pixação de um jeito diferente.

Desde o filme, as discussões sobre o pixo mudaram?

Evoluiu muito. Antes do filme, fiz um texto para a revista SUPERINTERESSANTE dizendo que o considerava uma expressão artística. Fui massacrado. Recebi 900 e-mails me xingando. Por outro lado, as pessoas começaram a ver e a entender um pouco o movimento, que também é uma forma de comunicação muito sofisticada, de um pixador para outro. E poderia ser um aliado do próprio Estado. Eles nunca pixam nos Jardins, pois gastariam tinta à toa quando o zelador pintasse por cima no dia seguinte. Eles pixam onde sabem que vai durar. A prefeitura poderia entender que onde tem mais pixação tem menos manutenção.

O que chama sua atenção no cinema hoje em dia?

Divido as produções entre as que têm alma e as que não têm. O dinheiro não compra alma. Os contratantes (produtores) muitas vezes pedem mais literalidade, mas o público mudou muito. Com o streaming e a popularização do formato, as pessoas percebem nuances que antes não percebiam. O barato no cinema está em ser menos literal.

Que outros projetos estão em vista?

Tem uma série muito legal, da qual não posso falar. Outra história que quero contar é a do PCC (Primeiro Comando da Capital), do ponto de vista das mulheres. A gente comprou o direito dos livros do Josmar Jozino, incluindo Cobras e Lagartos (2017), que conta a origem da organização. Surgiu como uma espécie de sindicato dos presos e era uma mulher quem trazia informações, uma militante de esquerda que se apaixonou por um assaltante de banco. Ele queria mudar o mundo com um revólver e ela, com as ideias. Vai ser um filme de ficção. Vi de perto o PCC nascer, trabalhei no Carandiru por quatro anos. Para além do cinema, estou finalmente organizando meu acervo de vinte anos de fotos, juntando tudo num servidor. Quero botar na rua em breve.

Publicado em VEJA São Paulo de 1° de maio de 2026, edição nº 2993

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Revista em Casa + Digital Completo
Impressa + Digital
Revista em Casa + Digital Completo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.
Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
*Assinantes da cidade do RJ

A partir de R$ 39,99/mês