Do mar ao cacau: os encantos de Itacaré em um roteiro cheio de história
O destino baiano aposta em turismo de experiência, passeios históricos e hospedagens exclusivas que valorizam a cultura local e a preservação
A paisagem é pitoresca. Diante de uma curta faixa de areia, barcos e canoas flutuam no ritmo manso da maré. Na orla, a rua de pedra-sabão, com casarões preservados do fim do século XIX, convida a desacelerar. Sob um céu azul, a cena emoldura o encontro do rio com o mar: de um lado, a estátua de Iemanjá, esculpida pelo artista baiano Goca Moreno, abençoa as águas; do outro, a Praia do Pontal completa o horizonte.
Ancorada na foz do Rio de Contas, Itacaré tem uma atmosfera encantadora. O destino, que foi aldeia indígena, polo cacaueiro, vila de pescadores e ponto de surfe, pulsa hoje por meio do turismo. O vilarejo se transformou, mas não deixou de estampar na pele as marcas da memória.
As praias são belezuras indispensáveis. Para banho, a mais próxima do centro urbano é a do Resende, cercada por vegetação e com o mar levemente animado. Quem quer se aventurar no surfe pode começar pela Praia da Engenhoca, enquanto os mais experientes no esporte comparecem à da Tiririca, palco de campeonatos, com ondas consistentes quase o ano todo.
Para além do mergulho marítimo, a cidade histórica a 73 quilômetros de Ilhéus reserva excursões cheias de história e significado. Andar de canoa ou fazer um passeio de barco pelo Rio de Contas não só nos faz desconectar, como é uma prática comum desde o fim do século XIX, quando o porto do local virou ponto de escoamento da produção agrícola do estado, como via estratégica para a Chapada Diamantina.
O principal pilar da atividade econômica era o cacau, naquela época pelas mãos de senhores de engenho. No entanto, os fazendeiros abandonaram a cidade no século XX em busca de outros polos, como Ilhéus, que ganhava ferrovias e estradas. Nos anos 1980, outro evento histórico impactou a região: a infestação da praga vassoura-de- bruxa, que devastou plantações. O movimento de surfistas, pescado res e viajantes de todo o mundo trouxe vida de volta ao lugar.
A tendência atual é de fazendeiros que prezam por qualidade em vez da quantidade, de maneira mais orgânica e respeitosa à natureza. Na Fazenda Taboquinhas, no distrito homônimo, o permacultor Osvaldo de Brito e a esposa, Laura, realizam uma visita guiada na propriedade, passando por todo o processo, da plantação de cacau ao chocolate intenso e derivados, como um licor e até um hidratante.
Conhecer o lugar, que é referência nacional em produção sustentável e turismo rural e foi assunto no programa Domingão com Huck, da TV Globo, é uma forma de aprender sobre a história e descobrir como o chocolate baiano virou um dos mais prestigiados do mundo. Osvaldo ressalta os benefícios do superalimento para a saúde e revela que apenas os cacaus de melhor qualidade são usados para a produção, enquanto o restante segue para exportação: “Nós fazemos uma seleção porque toda e qualquer impureza não pode ir para o forno para torrar”.
Essa e outras experiências estão disponíveis em um menu especial aos hóspedes do Barracuda Hotel & Villas e do Oiti by Barracuda (diárias para dois com café da manhã a partir de R$ 3 460,00 e R$ 1 200,00, respectivamente). Ambas as propriedades são administradas pelo casal formado pela designer paulistana Juliana Ghiotto e o surfista nativo Daniel Lima.
Em 2004, os dois se juntaram a um grupo de amigos suecos, entre hoteleiros, empresários e artistas, que se apaixonaram por Itacaré, para desenhar um conceito de hotelaria, em sintonia com a onda do novo luxo. “Não gosto de usar a palavra ‘luxo’”, afirma Juliana. “Prefiro falar ‘alto padrão’, porque esse termo diz respeito à qualidade e consistência.”
A estadia em ambos é como a de um hotel-boutique com piscina e vista para o mar. Com atmosfera mais isolada e tranquila, o Barracuda se espalha por 26 hectares de Mata Atlântica, oferece aulas de ioga e treino funcional em um deque em meio à natureza e tem duas opções de hospedagem: suíte ou vila (casa completa para até dezesseis pessoas).
O Oiti fica no meio do agito da cidade, com estilo de guest house (acomodação intimista). O projeto arquitetônico minimalista das duas unidades valoriza peças de designers brasileiros e as texturas naturais, como a madeira e a palha de dendê.
Com um número pequeno de quartos, a atenção é maior a cada hóspede e cada serviço é oferecido em ritmo artesanal, personalizado e compatível com o local. Os shampoos e condicionadores nos banheiros de cada suíte, por exemplo, são feitos pela mãe de Juliana, sem ingredientes químicos.
O drinque de boas-vindas leva mel de cacau (suco da polpa fresca do fruto) com um toque de limão. No restaurante, aproveite para provar o Barracuda frozen, que combina a bebida com gim, na companhia de pratos como o peixe em crosta de amêndoas ou o polvo tostado com batatas. “É uma hospitalidade muito baseada no território, em que Itacaré não é só um cenário, é uma parte presente em todos os momentos da jornada dos hóspedes”, avalia a sócia. “Não abrimos mão da nossa cultura e dos nossos valores.”
Para complementar a atuação, a empresa de hotelaria criou em 2021 o Instituto Yandê, uma associação sem fins lucrativos que tem como objetivo contribuir para o desenvolvimento socioambiental do município por meio de ações educativas e culturais de apoio ao empreendedorismo. “Como moradora, estou sempre dentro de iniciativas culturais em comunidades e vejo como isso é respeitado e preservado. Estar no instituto é a extensão desses valores”, conta a gestora de projetos da instituição, Michele Franco.
Uma vez em Itacaré, não deixe de conhecer o centrinho, onde es tão restaurantes charmosos — o Jiló prepara um tartare de peixe do dia e um arroz de polvo deliciosos —, lojas — a Rua da Pituba, como os nativos chamam a Rua Pedro Longo, seu nome oficial, concentra as mais interessantes, como a recém-inaugurada Yona, de roupas e acessórios —, a Igreja Matriz São Miguel Arcanjo, de 1723, a Praça dos Cachorros e o Mirante do Xaréu, perfeito para ver o pôr do sol.
Neste refúgio tranquilo e cheio de personalidade no sul da Bahia, cada canto reserva uma lembrança inesquecível.
Publicado em VEJA São Paulo de 17 de julho de 2026, edição nº 3004





