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Guto Lacaz e seu universo lúdico são tema de mostra panorâmica no Itaú Cultural

Com curadoria dos designers Kiko Farkas e Rico Lins, a exposição desvenda o lado inusitado da obra desse amante da ciência que decidiu virar artista

Por Vanessa Barone 1 ago 2024, 09h44 | Atualizado em 1 ago 2024, 13h29
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Guto em seu ateliê, nos Jardins: artista com alma de cientista (Masao Goto Filho/Veja SP)
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A sociedade é muito injusta com os rolos de papel higiênico. Já pensou nisso? O artista multimídia Guto Lacaz, 75, não só pensou como agiu a respeito. “O papel higiênico costuma ter um destino trágico. E não merecia isso, pois tem uma proporção perfeita, é atemporal, bem resolvido e tem outras utilidades, como luneta”, discorre bem-humorado sobre uma de suas obras mais famosas, justamente um abajur feito com rolo de papel, na base, e filtro de café como cúpula. “A arte tem todo esse glamour, mas, na maior parte do tempo, é um ofício como tantos outros”, desconversa esse apaixonado pela anatomia das coisas cuja exposição — Guto Lacaz: Cheque Mate — ocupa os três andares do Itaú Cultural, na Avenida Paulista, a partir desta quinta-feira (1º) até 27 de outubro.

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Abajur de rolo de papel higiênico e filtro de café: arte em tudo o que vê (Ana Pigosso/itaú Cultural/Divulgação)

A mostra apresenta um panorama da obra do artista desde o fim dos anos 70, quando percebeu que a curiosidade juvenil sobre o funcionamento interno de brinquedos e eletrodomésticos — que o levaria a desmontar incontáveis objetos — era a semente para um trabalho artístico que se desdobraria em múltiplas plataformas ao longo da vida.

Nem a frustração pelo fracasso no curso de engenharia eletrônica, sua primeira vocação, atrapalhou o processo. “Guto é um dos artistas mais importantes de sua geração. E sempre foi multimídia: vai da performance ao cinema, passando pelo desenho e a poesia”, diz o designer Kiko Farkas, que assina a curadoria e a expografia da mostra junto com o também designer e diretor de arte Rico Lins. “Essa exposição não é do Guto Lacaz, mas sobre ele”, reforça Lins, que acredita na acessibilidade de sua produção para além do público tradicional das artes plásticas. “A sua obra comunica a partir do humor.”

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Os dois são amigos de longa data de Lacaz e, ao idealizarem a panorâmica de sua trajetória, pretenderam desvendar o “lado B” do artista, enfatizando seu processo criativo e os diferentes gestos que o compõem. Para isso, se valeram não apenas de obras finalizadas — algumas inéditas, como Volare, Nomes e Eletrolinhas —, mas também de desenhos, maquetes, croquis, vídeos e anotações, que revelam sua ironia fina e o jeito único de transformar qualquer coisa em discurso artístico-­político. “Acredito em uma luta de classes entre as coisas. Em uma casa, por exemplo, os artigos para a limpeza costumam ficar escondidos e nunca são expostos na sala. Eu questiono essa hierarquia”, explica Lacaz, que afirma não ser um erudito, mas um artista pop cujo olhar curioso é capaz de enxergar arte por trás de quase tudo. O abajur de papel higiênico está aí para provar.

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Kiko Farkas e Rico Lins: amigos de Lacaz e curadores da exposição (Masao Goto filho/Veja SP)
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A mostra traz, ainda, um trecho do documentário Guto Lacaz — Um Olhar Iluminado, conduzido por Farkas e Lins, e dirigido por Marcelo Machado, que está disponível no streaming Itaú Cultural Play (www.itauculturalplay.com.br). Para Kiko Farkas, Guto é econômico nas palavras, minimalista na construção, mas enfático no discurso. “É como se ele abrisse as portas de um mundo mágico para nós.” Mundo que transita entre movimentos artísticos como o dadaísmo e o surrealismo, dentro de uma linguagem transgressora que remete à obra de artistas como o franco- americano Marcel Duchamp (1887-1968).

Guto Lacaz gosta de dizer que nunca pensou em ser artista. “O meu foco sempre foi a ciência”, prefere. Tanto que considera a revista Mecânica Popular a sua “bíblia” e o desenho técnico, “uma instituição das mais importantes” pelo poder de diferenciar as coisas. “O papel e o lápis são a minha cachaça: não vivo sem”, explica.

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Sua primeira obra assinada, ainda na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São José dos Campos, onde se formou, em 1974, Escultura com Bandeira, de 1971, traz um pequeno objeto cinético elaborado com arames retorcidos e engrenagens. Mas a percepção de que “esse negócio de ser artista” valia a pena viria em 1978, quando se arriscou a participar da 1ª Mostra do Móvel e do Objeto Inusitado, no Paço das Artes. Enviou catorze trabalhos e acabou premiado pelo conjunto que continha, entre outros, o Crushfixo (1973) — obra integrante da mostra no Itaú Cultural, consiste em uma garrafa do refrigerante Crush fixada em um retângulo de gesso (sim, os trocadilhos estão em quase tudo o que ele faz). Com o reconhecimento, veio a vontade de se aprofundar nesse universo, o que o levou a estudar com o artista plástico Dudi Maia Rosa. Mas se valer dos suportes tradicionais para se expressar foi pouco para ele, que se aventurou por outros movimentos artísticos, como a performance. “Fui influenciado pelas más companhias”, brinca Lacaz, ao citar os artistas Ivald Granato, José Roberto Aguilar e Carlos Fajardo, entre outros, que inspiraram a ampliação do seu olhar artístico e o colocaram para interagir com suas traquitanas eletromecânicas.

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Logo depois vieram as intervenções urbanas, caso da obra Auditório para Questões Delicadas, de 1989, em que Lacaz dispunha várias cadeiras flutuando sobre o lago do Parque do Ibirapuera. “Errei, as cadeiras afundaram e passei vergonha”, relembra o artista, que refez o projeto e conseguiu a flutuação perfeita de seu inusitado auditório. O erro, aliás, é um companheiro constante de seu trabalho, como ele mesmo afirma. “Conheço o sucesso e o fracasso. Mas ganhei coragem e cara de pau”, explica o arquiteto-artista, que também é um craque nas artes gráficas, como fica evidente nas criações publicadas na revista Caros Amigos, na qual colaborou de 1997 a 2012, e na coluna de Joyce Pascowitch, na Folha de S.Paulo (de 1980 a 1990).

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Para Rico Lins, a obra de Lacaz é de fácil identificação, ao lidar com coisas do cotidiano. “Ele desvenda a mágica das coisas por dentro.” Tudo isso a partir de uma convivência lúdica com os objetos sobre os quais lança uma ótica peculiar. “Ele realmente tem um olhar iluminado”, reforça o amigo Kiko Farkas. Capaz de revelar o potencial poético de qualquer coisa, seja um tijolo, seja um cabide ou um rolo de papel.

Publicado em VEJA São Paulo de 2 de agosto de 2024, edição nº2904

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