‘Brasil 70’: Como a série recriou lances históricos da Copa do Mundo
Série da Netflix narra superação da seleção brasileira no tricampeonato e inspira o país a ter otimismo
Falta pouco para o Brasil voltar a torcer pela seleção de futebol na Copa do Mundo. Dias antes do início do campeonato mundial, marcado para 11 de junho, os brasileiros ganham uma dose de otimismo com Brasil 70, série da Netflix sobre o tricampeonato, lançada na plataforma no último dia 29. Os cinco episódios vão dos preparativos do time à vitória do título na Copa do Mundo no México, de 1970, uma das mais emblemáticas na história do país.
Não é apenas um retrato histórico, a produção chega para relembrar como há semelhanças com o momento atual e pode ser um incentivo aos jogadores nas partidas. A obra foi criada pelo casal de roteiristas Naná Xavier e Rafael Dornellas, formados pela Universidade de São Paulo (USP). Ambos são fãs de futebol e vêm de famílias com uma história de paixão pelo Veja São Paulo 5 de junho, 2026 esporte.
“A série nasceu em casa, na mesa de jantar, em que a gente contava muitas histórias da Copa”, conta Rafael. Não houve dúvida para escolher qual dos títulos narrar: o mundial de 1970 era o mais celebrado. “Meu pai era adolescente e marcou muito ele”, relata Naná. “Começamos a pensar devagar na ideia em 2022, com tantas anedotas que ele contava.”
Iniciaram a pesquisa e fizeram um levantamento histórico com base em diversas fontes, entre publicações na mídia, crônicas, documentários, entrevistas e biografias dos ídolos. Apresentaram o projeto para O2 Filmes, que então levou para a Netflix e deu início à produção. Na fase de roteiro, houve o apoio de pesquisadores e entrevistas com jogadores e figuras envolvidas, caso de Tostão, titular absoluto da seleção brasileira naquele ano. “Está tudo amparado por pesquisa”, explica o roteirista-chefe Felipe Sant’Angelo.
Nesse processo, tornou-se inevitável o arco de Pelé (interpretado por Lucas Agrícola) se tornar o principal. “A curva da série é pautada nele, o cara era dado como ‘morto’ e vira um ídolo para a eternidade”, diz Sant’Angelo. O craque era questionado pela mídia após uma sequência desfavorável de acontecimentos nos mundiais. A série mostra como ocorre a superação e mudança de perspectiva.
Outros dois personagens importantes são João Saldanha (Rodrigo Santoro), técnico demitido que vira comentarista de rádio e teve um papel importante para estimular os jogadores, e o técnico Zagallo (Bruno Mazzeo), ex-jogador que tenta se provar ao deixar as chuteiras para ser o líder da equipe. “O Saldanha é um prato cheio para a dramaturgia, era um provocador do Pelé. Amado, mas provocava, e também tinha o lado político”, afirma o roteirista. “O Zagallo chegou como treinador desacreditado, boa parte das pessoas preferia o Saldanha.”
O grande desejo dos diretores Paulo e Pedro Morelli (pai e filho) era filmar os lances dentro do campo. “Colocar a câmera em campo foi o princípio estrutural da filmagem”, diz Paulo. As gravações foram feitas em um estádio em Carapicuíba, na Região Metropolitana de São Paulo. “Reproduzimos as jogadas exatamente como aconteceram em 70, com muitas semanas de ensaio”, ele complementa. “Os atores tinham que jogar bem futebol, não bastava ser bom ator e parecido com o personagem, porque precisávamos de pessoas jogando em campo.”
Para agregar ao processo, a produção convidou a agência britânica Sports on Screen, especializada em coreografia e consultoria para obras audiovisuais relacionadas a esporte. “Eles ensaiaram e coreografaram as jogadas precisamente com elenco”, conta Pedro. Foram produzidos equipamentos especiais para a ocasião, como o caso de um carro com uma câmera que corria mais rápido do que o jogador.
Recursos como câmera lenta também foram usados para aumentar a tensão e transmitir o “tempo mental” do jogador. Os lances, em partidas contra países como Tchecoslováquia, Inglaterra e Peru, funcionam como clímax para os arcos narrativos de cada personagem ou assunto em foco no episódio.
“Pude reviver dentro do campo lances históricos”, conta o ator Caio Horowicz, que interpreta Mazetti, um jornalista que entrevista João Saldanha. “Sou muito apaixonado por futebol, fui muito para estádio e a série permitiu me reaproximar desse mundo. O futebol tem muitas aproximações com o trabalho de ator, também é um tipo de jogo, brincadeira coletiva.”
Para o diretor, a principal temática é a identidade brasileira. “É um retrato de como o brasileiro se encontra nesse ambiente, como a Copa do Mundo une todo mundo”, diz Pedro. “Achamos que seria bacana falar sobre isso neste momento, em que a própria camisa amarela começou a ser usada por um determinado grupo político, para que ela volte a ser de todos os brasileiros e a série traga esse amor pela camisa”.
Paulo espera que sirva de incentivo para os jogadores deste ano. “Eles se uniram como grupo, não é futebol individual. Esperamos que isso reverbere na seleção atual. Faz parte desde o começo do projeto sonhar que os jogadores assistam a série”. O diretor compara o clima de 1970 e 2026. “As duas seleções seleções entram em campo muito desacreditadas. Houve uma grande frustração em 1966 e o fantasma do Maracanazo (vitória do Uruguai sobre o Brasil, em 1950), do mesmo jeito que a gente vem de um 7 a 1 (na partida contra a Alemanha, na Copa de 2014). Ninguém confia muito, mas sabemos que temos craques incríveis.”
O roteirista-chefe da série vê as mesmas semelhanças entre o momento atual e aquela época. “Nosso desejo era resgatar uma espécie de confiança.”, analisa Felipe Sant’Angelo. “Naquela época, o Pelé estava com a autoestima completamente abalada”. Ele admite ter sido “pego pela própria narrativa” e está esperançoso de que o sentimento otimista da série contaminará a todos. Não só ele como toda a equipe de produção está confiante e torcendo para o Brasil voltar vitorioso.





