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“O Teatro da Vertigem chegou ao limite”, diz fundador Antonio Araújo

Diretor fala sobre as dificuldades para manter a sede da companhia e dá detalhes sobre a próxima edição da Mostra Internacional de Teatro de SP

Por Júlia Rodrigues 9 fev 2024, 06h00 | Atualizado em 5 jun 2026, 17h54
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Antonio Araújo, fundador da companhia, que completa 32 anos  (Guto Muniz/Divulgação)
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Na última terça (6), o Teatro da Vertigem, companhia paulistana com mais de 30 anos de existência, gerou comoção ao divulgar uma campanha on-line para a arrecadação de fundos para manter a sede do grupo, no Bixiga. O imóvel está com aluguel e IPTU atrasados, gerando uma dívida de cerca de 90 000 reais. O diretor Antonio Araújo, 57, um dos fundadores do Vertigem, que surgiu na Universidade de São Paulo (USP), em 1992, tenta encarar a situação com esperança. Ele torce para que as quatro indicações ao Prêmio Shell deste ano dadas a Agropeça (2023), último trabalho da trupe, viabilizem uma nova temporada e, assim, as contas diminuam.

O espetáculo, que ficou em cartaz no ano passado no Sesc Pompeia, dá continuidade à abordagem crítica e provocadora do grupo, colocando personagens do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, em uma arena de rodeio, para refletir sobre a influência da cultura do agronegócio no país. Em paralelo, Araújo se prepara para estrear, junto dos diretores Guilherme Marques e Rafael Steinhauser, em 1º de março, a nona edição da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), que traz montagens de cinco países e também do Brasil aos palcos paulistanos.

O Teatro da Vertigem corre o risco de perder sua sede no Bixiga devido a dívidas de aluguel e IPTU. Como a situação chegou a esse ponto?

Está muito complicado. Não dá mais para tirar do nosso bolso para manter a sede. Já faz alguns anos que não conseguimos apoio de editais e a situação piorou na pandemia. Paramos de pagar o aluguel dos galpões onde guardávamos nosso acervo e tivemos que colocar tudo na nossa sede, que está abarrotada. Mal sobrou espaço para ensaiar. Ainda assim, fizemos Agropeça, que só foi possível com o apoio do Sesc. Foi superbacana, lotamos a plateia todos os dias e imaginamos que, com o sucesso, daria para fazer uma segunda temporada, mas até agora não deu. Só recebemos recusas, é uma loucura. Vendemos nossos equipamentos, como mesa de luz, computador, mas acabou, não tem mais o que vender. Se perdermos a sede, vamos ter que jogar os cenários e figurinos de mais de trinta anos no lixo. A campanha é um apelo para ver se conseguimos reverter essa situação, pagar a dívida e, se sobrar dinheiro, conseguir um fôlego durante alguns meses. Nunca fizemos isso, chegamos no limite.

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Por que acha que essa recusa tem acontecido? 

Há um cenário mais amplo, de reconstrução do país, depois de toda a destruição na área cultural que aconteceu nos últimos anos. Destruir é muito fácil, você acaba com as coisas com uma canetada; já reconstruir leva tempo. Outro fator é que existe um mito de que as companhias mais longevas, como o Teatro da Vertigem, não precisam mais de apoio, mas isso é uma mentira.

Em um depoimento no Instagram, você disse que o último trabalho do grupo, Agropeça (2023), foi uma das direções mais plenas que já fez. Por quê?

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Por várias razões. No âmbito artístico, desde antes do governo Bolsonaro, eu já queria falar sobre o conservadorismo, o movimento reacionário que despontou no Brasil. Queria olhar para isso a partir da perspectiva do agronegócio, da música sertaneja, do rodeio. Acho que, na Agropeça, consegui, como encenador, materializar esse universo. Também foi o primeiro grande espetáculo que fiz com o Vertigem desde Patronato 999 Metros, no Chile, em 2015. Sonho em circular pelo país com esse trabalho, principalmente para as capitais do Centro-Oeste e as cidades do interior de São Paulo, onde essa realidade é muito presente. Sigo tentando, mas até agora não conseguimos nenhum apoio. No âmbito pessoal, Agropeça marcou minha saída de uma depressão que eu enfrentava havia alguns anos. Sei que é uma doença insidiosa, que vai e volta, mas, hoje, me sinto curado.

Como e por que surgiu a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo?

O diretor-geral da mostra, meu colega Guilherme Marques, fazia o Encontro Mundial das Artes Cênicas (Ecum), em Belo Horizonte, e eu era um dos curadores. Decidimos criar a MITsp justamente pela inexistência, na época, de um festival internacional de teatro em São Paulo, que é um dos centros mais importantes da atividade teatral do país.

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Neste ano, a nona edição da MITsp reúne dez espetáculos, nove estrangeiros, vindos de países como Argentina e África do Sul, e uma estreia nacional. Quais foram os critérios utilizados na curadoria?

Tentamos intensificar na curadoria desta edição a perspectiva decolonial. Não haverá nenhum grande artista europeu, por exemplo. Além dos espetáculos, sempre demos uma ênfase igualmente importante na parte reflexiva, que são os debates e as palestras. Outra característica muito importante da MITsp é o eixo MITbr — Plataforma Brasil, que criamos em 2018. A partir dele, convidamos programadores daqui e de outros países para assistir a peças de companhias brasileiras de vários estados. O projeto teve uma resposta muito rápida, para a nossa surpresa. Muitos espetáculos que estrearam na mostra começaram a circular em festivais europeus. O MEXA, que é um grupo paulistano pequeno formado por travestis em situação de rua, se apresentou em uma edição da MITbr e conseguiu financiamento de festivais da Inglaterra e da Bélgica para fazer um novo espetáculo, o Poperópera Transatlântica (2023), que agora veio para o Brasil. A Janaína Leite (diretora e uma das fundadoras do Grupo XIX de Teatro) está circulando pela Europa com História do Olho: um Conto de Fadas Pornô-Noir (2023), que também estreou na MITbr. É incrível.

Você cresceu em Araguari, no interior de Minas Gerais, mas mora na capital paulista há quarenta anos. Qual a sua relação com a cidade?

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Do ponto de vista artístico, o Vertigem tem uma relação fundamental com a cidade, pois saímos do teatro e ocupamos as ruas, a igreja, o presídio, o Rio Tietê… Nosso trabalho não existiria em outro contexto. Sempre que eu penso no trabalho que faço com o Vertigem, penso a partir de São Paulo. A cidade é o que me alimenta, o que me inspira, o que me dá vontade de fazer teatro.

Publicado em VEJA São Paulo de 9 de fevereiro de 2024, edição nº 2879

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