A vida entre trabalho e intimidade de Agnes Nunes e Tom Ribeira, prodígios da nova MPB
Novos talentos da música brasileira fazem shows na Europa e lançam single neste Dia dos Namorados
Seja sorte ou destino, ter um amor é uma preciosidade. Mais ainda quando esse encontro acontece não só pelo romance, mas também por meio da arte. Quem vive essa realidade são os novos talentos da música brasileira, Agnes Nunes e Tom Ribeira, ambos de 24 anos. A paixão é evidente no olhar dos artistas, cujo trabalho chamou a atenção de grandes nomes da MPB.
Nas palavras do casal, nenhum dos dois se sentiu sozinho depois de ter o carinho do outro. Essa é uma das declarações em Vc Assim, novo single da dupla lançado nesta sexta-feira (12), Dia dos Namorados.
A vida a dois tem trilha sonora. E a música vai da intimidade aos palcos. Em abril, eles viajaram a Paris para abrir o show de Gilberto Gil no Théâtre du Châtelet, durante o festival Back2Black. “Era um mar de gente, nós dois juntos ecoamos com a voz naquele teatro, foi muito emocionante poder viver esse momento ao lado do meu amor”, ela conta.
Agnes protagonizou um show emocionante no Lollapafoografia looza, em março, com Tiago Iorc como convidado especial, e foi acompanhada pelo namorado nos bastidores. Agora se preparam para shows solo na Europa: ele se apresenta neste mês em Londres e Lisboa, enquanto ela viaja por seis países e volta à capital da França para abrir o palco para Djavan, em outubro.
Mesmo com a agenda cheia, eles encontram formas de se desligar do profissional. “A gente consegue se resguardar da exposição e das pessoas, do que querem que a gente seja. Aqui é vida real. Trampamos, cozinhamos, limpamos a casa”, relata a cantora. A música surge de modo muito natural, como um “porto seguro”, segundo Tom. “Viro para ele e falo: ‘estou com tédio, vamos escrever música?’”, emenda Agnes.
Para equilibrar, a artista baiana afirma gostar igualmente do silêncio. Quando não estão viajando em turnê, dividem a rotina entre um apartamento na região da Avenida Faria Lima e um sítio da família de Tom em Botucatu, onde o cantor nasceu. “Lá é bem mais calmo, tem muito verde, cachoeira. A gente consegue ficar mais livre”, ele descreve. “Ele é bicho do mato, não usa chinelo nem nada. Eu sinto um negócio espiritual em Botucatu”, acrescenta a namorada.
Nos momentos a sós, o repertório é diverso. Dos clássicos, eles vão da MPB ao samba e forró com inspirações em Elza Soares, Chico Buarque, Caetano Veloso, Luiz Gonzaga, Anastácia, Zeca Pagodinho, Alcione, Gal Costa e Maria Bethânia. Da geração mais recente, o gosto segue eclético, tendo como referência nomes do rap, trap, R&B e até indie rock, como Bia Ferreira, Ebony, Duquesa, Ajuliacosta e Francisco, el Hombre. “A melhor lírica e o melhor flow de hoje em dia são das minas do trap e do rap”, analisa Tom.
Também se identificam com o posicionamento da banda Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo. “Eles têm um posicionamento político que faz a diferença na nossa geração. Já que temos voz, precisamos usá-la para fazer as pessoas pensarem”, define Agnes. Para o casal, duas canções que definem o relacionamento são Ocê i Eu, de Gonzaguinha, e Insista em Mim, de Ana Frango Elétrico.
“Fui criada por mulheres, não tive parâmetro de presença masculina. Nós somos nossa própria referência de relação.”
Agnes Nunes
Agnes e Tom conquistaram uma multidão de fãs nas redes sociais com fofura e talento. “Casal mais afinado do planeta”, comentou a atriz Sophie Charlotte em uma publicação, de dezembro, dos dois cantando Sanfona Sentida, imortalizada na voz de Luiz Gonzaga, com mais de 1 milhão de visualizações.
“Fiquei muito feliz em ver que esses jovens talentosos estão descobrindo as minhas músicas e a nova geração está se interessando pelo meu trabalho”, conta a cantora pernambucana Anastácia, compositora da canção em parceria com Dominguinhos. “Valorizo muito isso e torço por eles, para que cheguem ao topo com a musicalidade que possuem e o trabalho dos compositores. São vozes maravilhosas.”
Os dois se aproximaram em São Paulo, por meio de uma amiga em comum. Agnes estava na casa dessa colega, bebendo um vinho, e, encorajada por ela, resolveu mandar uma mensagem a Tom no Instagram: “Só faltava você”. O impulso foi movido por um sentimento “maravilhoso, transcendental”, ela conta. O músico já era fã e prontamente respondeu. Passaram um mês se conhecendo e estão juntos desde dezembro de 2024. “Ele faz com que eu me sinta maravilhosa”, declara a amada. O namorado aproveita a oportunidade e elogia: “A voz dela é a mais linda do Brasil. Que sorte poder dividir a vida com uma pessoa assim”.
O sentimento é percebido pelas pessoas à volta. Amigo de Tom desde a infância, o ator Ivan Lucca, 24, lembra quando recebeu a notícia do relacionamento: “Foi numa ligação, ele me falou: ‘Ivan, você não vai acreditar, acho que eu estou namorando e ela é muita coisa’. Eu respondi que, para ele, tinha que ser mesmo. Foi chocante quando contou que era a Agnes”.
A cantora já era bem conhecida na cena musical naquela época. A primeira impressão de Lucca foi uma quebra de expectativa, por ela ser “uma grande diva, com uma voz insana”, mas na vida real ter “uma simplicidade, um carinho lindo pelas pessoas”. “Ela é uma grande querida. Foi como se a gente se conhecesse há muito tempo.” O ator está morando um tempo com o casal em São Paulo e fica encarregado de cuidar do cãozinho Liro, mascote dos dois. Para Lucca, a palavra que define o relacionamento é leveza. “Eles se respeitam e se amam muito, com bom humor.”
O relacionamento é um exemplo positivo até para a mãe da cantora, a professora Cida Nunes, 44. “Aprendi com eles que é possível construir uma relação em que os dois se realizem plenamente, com parceria, paixão, conquistas e crescimento conjunto”, diz. “Você percebe que eles passam longe do tipo de namoro com traços tóxicos e estereótipos do papel do homem e da mulher.”
Quando a filha lhe contou que estava conhecendo um rapaz da música, ela logo ficou feliz, pela possibilidade de conexão e compreensão do pretendente sobre como é estar nesse meio. Ao conhecer Tom, ficou ainda mais encantada. “Sempre falo para ele que nem nos meus melhores sonhos eu imaginava um genro tão bom. Conversamos por horas e horas, sobre diferentes assuntos; ele tem essa capacidade de interagir, é um menino de muitas qualidades.”
Uma lembrança de Cida é dos primeiros meses de namoro dos dois, quando Agnes estava em Campina Grande e vivia falando ao telefone com Tom. “Parecia romance de adolescente. Eles conversavam direto, sem parar.” Esse período a distância é retratado no clipe de Vc Assim, em que eles aparecem justamente falando em uma ligação. “Os dois têm um gás que alimenta a música. Sozinhos são grandes, juntos são enormes.”
O namoro dos dois músicos é uma luz nos tempos modernos, em que muito se duvida do amor. “As pessoas têm se individualizado. Nesse sistema, o amor é revolucionário”, define ele. “É um momento de muito imediatismo. Hoje é hoje e amanhã não se sabe mais”, complementa ela. Para os céticos, a atitude tomada e recomendada por Agnes é sair de casa e ver os amigos — foi assim que conheceu Tom.
“A voz dela é a mais linda do Brasil. Que sorte poder dividir a vida com uma pessoa assim.”
Tom Ribeira
A cantora celebra a capacidade da capital paulista de servir como lugar de encontros: “Existe amor em SP”. Para ela, a cidade é muito dura, mas trouxe muitas coisas boas: “O meu trabalho e o meu amor”. Tom define a metrópole como uma grande encruzilhada, onde os caminhos se cruzam.
Afinal, esses encontros são coincidência ou obra do destino? “Eu acredito em alma gêmea. Pode ser uma visão poética ou inocente, mas é legal acreditar”, diz Agnes. Porém, não é o bastante. “Isso é 50%. A outra metade é construção, paciência e diálogo. Não é fácil manter relacionamento. Às vezes a gente passa um mês longe. Para dar certo, tem que querer.”
As crenças de Tom se alinham mais à segunda metade. “Parece antiético eu dizer isso namorando a Agninha, mas não adianta encontrar a alma gêmea se não der o valor que ela merece.” A paixão foi à primeira vista. “Desde que a vi, me apaixonei. É um amor gigante.” A cantora brinca: “Na verdade, somos almas siamesas”. Há uma colaboração mútua. Quando ele tinha dúvidas sobre a carreira e quando ela estava deprimida e insatisfeita, por exemplo, cada um soube dar o apoio necessário para levantar o outro.
“De toda beleza que eu vi / A mais bela foi você vivendo no mesmo mundo que eu vivo / Deusa”, diz a letra de Baião de Dois, canção de Tom inspirada na namorada. Esse amor segue inspirando música e arte. É o que promete Agnes para o seu próximo álbum, sem entregar muito: “Não posso falar tanto, mas vem muita liberdade, paraibanidade e brasilidade, junto com o amor desse homem”, revela. Estaremos de ouvidos atentos para acompanhar os novos capítulos dessa história.
Memórias românticas favoritas
O primeiro encontro > Caminhar no Parque Ibirapuera.
Passeio da rotina > Ir à Praça do Pôr do Sol com o Liro. “A gente vai andando daqui de casa e tem uma vista linda de São Paulo, dá para ver melhor o horizonte”, diz Agnes.
Imersão na música > Bar Picles, em Pinheiros, refúgio da cena musical independente. “É um lugar afetivo, deveria existir mais lugares assim, para as pessoas se libertarem”, afirma Tom.
Para dançar > Canto da Ema, casa noturna de forró na Avenida Brigadeiro Faria Lima. “É um lugar muito gostoso, Mestrinho e Dominguinho já tocaram lá”, conta o músico.
Date romântico > Ir comer lámen na Liberdade pegando metrô. “Andamos muito de metrô. Um casal bem metropolitano”, diz a artista.
Além da música > Assistir a um bom filme no cinema. “Se não gostamos, saímos no meio do filme”, ela brinca. “E não temos ido à noite, senão dormimos na sessão.”





