Avatar do usuário logado
Usuário

“A solidão é um assunto contemporâneo”

Radicada em Los Angeles e com experiência em produções audiovisuais, Anne Pinheiro Guimarães prepara-se para estrear seu premiado longa 'Pequenas Criaturas'

Por Vanessa Barone 17 jul 2026, 08h00
Mulher de pele clara, cabelo curto escuro, blusa preta, sentada em uma poltrona de auditório escura, com o cotovelo esquerdo apoiado no encosto da poltrona à frente e a mão direita na cabeça, olhando para a frente com expressão séria
A cineasta Anne Pinheiro Guimarães: Brasília como personagem (Fê Pinheiro/Divulgação)
Continua após publicidade
“A solidão é um assunto contemporâneo” Priorizar nos meus resultados Google

O tempo é algo precioso no filme Pequenas Criaturas, da cineasta brasiliense Anne Pinheiro Guimarães, 50, que estreia na quinta (23), nos cinemas de todo o país. Seja no sentido da passagem dos dias ou como sinônimo de clima, o tempo dá o tom e as cores da narrativa.

O longa, vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival do Rio 2025, encanta pela delicadeza com que trata os conflitos pessoais de uma mãe, a personagem Helena, vivida por Carolina Dieckmmann, e seus dois filhos — o adolescente André (Théo Medon) e o menino Dudu (Lorenzo Mello).

“Esse é um filme que fala de amadurecimento, solidão, sentimentos guardados, mas também de um período do Brasil, o ano de 1986, em que se acreditava que o futuro seria melhor”, diz Anne, que acumula uma vasta experiência na direção de séries, filmes publicitários e outras produções audiovisuais.

Antes de Pequenas Criaturas, escreveu e dirigiu o longa Transe (2024), ao lado de Carolina Jabor — com quem também divide a direção da série Desnude (2018), do canal GNT — e o curta Desejo (2005), protagonizado por Wagner Moura e Lázaro Ramos.

Além disso, é diretora e produtora da série Desjuntados (2021), produção original da Amazon.

Radicada em Los Angeles, Anne conversou com a Vejinha em sua passagem por São Paulo para lançar seu novo filme. Acompanhe, abaixo, a entrevista:

Continua após a publicidade

 

Como foi a sua vivência em Brasília, entre os 8 e 15 anos?

Eu nasci em Brasília. O meu pai era diplomata, então, logo depois a gente se mudou. Voltei a morar lá entre os 8 e os 15 anos, justamente as idades dos personagens Dudu e André. Mas, por incrível que pareça, só me dei conta disso bem depois de ter escrito o roteiro. Por conta da carreira do meu pai, vivi essa coisa de estar sempre chegando ou partindo de algum lugar. Era muito difícil. Mas, em Brasília, um programa que eu fazia com o ele era ir ao aeroporto, onde ficávamos vendo os aviões e encontrávamos amigos. Naquela época, a cidade não tinha muito lugar interessante para ir. E o aeroporto tinha uma cafeteria que ele gostava. Inclusive, faço aniversário semana que vem (no dia 20) e me lembrei que passei alguns aniversários ali.

Como surgiu o argumento de Pequenas Criaturas?

A vontade de escrever essa história surgiu depois que tive a minha primeira filha e tinha perdido a minha mãe. A maternidade me fez pensar nela, não como mãe, mas como mulher, casada, com filhos e com o marido sempre viajando a trabalho. Também pensei na criança que eu fui, nos sentimentos que surgem na infância, e tudo isso virou uma espécie de lava sentimental. Acredito que o que acontece com a gente entre os 8 e os 15 anos é fundamental. São pequenas coisas, alguns dramas, que nos fazem amadurecer. No filme, isso acontece com os personagens. Esse é um longa que fala de amadurecimento, mas também de esperança em um futuro melhor. Mostra uma mulher (Helena, interpretada por Ca- rolina Dieckmmann) que se muda com o marido (vivido pelo ator Michel Melamed) e os filhos para Brasília, mas que se vê sozinha quando o companheiro precisa viajar. Um dia, ela acorda e se dá conta que nada daquilo foi escolha dela.

O calor e a aridez da capital federal são bastante presentes. Como isso influenciava a vida das pessoas?

Brasília é um personagem muito forte. É uma cidade que exige muito de quem é recém-chegado. O longa tinha que se passar lá, e não apenas por ser onde vivi parte da minha infância. A cidade é um lugar peculiar, ainda mais nos anos 1980, sem internet e com interurbanos muito caros. Todo aquele sol, calor e imensidão do céu podem ser muito opressores. Brasília é única, diferente de todas as outras: planejada, futurista e modernista, com seus encantos e seus desafios. Não é fácil, mas tem seus momentos mágicos e deixa marcas profundas. Fiquei imaginando como foi isso para a minha mãe, com o meu pai viajando muito.

Com esse argumento, você quis fazer uma crítica à sobrecarga das mães, comparada à liberdade dos pais de serem ausentes?

Talvez inconscientemente, sim. O filme tem muito do desejo feminino, mas não no sentido romântico ou sensual. Mas no sentido de escolher o que quer para a vida. Nos anos 1980, elas talvez nem se permitissem desejar, se deixavam levar. E quando chegavam na meia-idade, começavam a se questionar, a olhar para dentro, para os próprios sentimentos.

Continua após a publicidade

Helena, personagem de Carolina Dieckmann, fala muito pouco durante o filme. Que mensagem esse silêncio quer passar?

Acredito que o que a personagem vivia não dava mesmo para traduzir em palavras. Ela sente um desconforto tão grande que impede que ela aceite ajuda da vizinha Angela (papel de Leticia Sabatella). Apesar da personalidade mais festiva, Angela é divorciada e também se sente sozinha. Aliás, o filme fala bastante da solidão de diferentes personagens. E a solidão é um assunto contemporâneo, mesmo que hoje a gente se comunique, através do celular. É uma comunicação, não uma conexão ou troca verdadeira.

O filme mostra uma infância sem telas e com bastante liberdade. É possível compará-la a hoje?

Eu não sou nostálgica. Cada época tem coisas boas e coisas ruins. Eu acho que a gente está vivendo um momento de transição, com tudo mudando muito rápido. Mas, como mãe de duas adolescentes, com 18 e 13 anos, fico desesperada de vê-las no celular o tempo todo. Acredito que elas estejam perdendo muita coisa. Por exemplo: o tédio. O tédio é criativo, permite olhar para dentro. Por outro lado, quando eu era adolescente, para conhecer uma banda internacional, tinha que esperar algum amigo conseguir um LP. Hoje, pelo streaming de música, temos acesso a praticamente tudo.

Como enxerga o momento do cinema nacional?

Quando comecei, há vinte anos, havia poucos filmes sendo feitos e todos dirigidos por homens. As opções eram ir para a televisão, fazer novela, ou trabalhar com publicidade. Quando surgiram os canais a cabo, a gente conseguiu mais espaço. Mas foi o surgimento dos streamings que mudou tudo. Depois, vieram mais políticas públicas de incentivo e editais com cotas para as minorias. Passamos a ter mais oportunidades. E isso é muito bom, porque quanto maior for o setor de audiovisual, no Brasil, mais vozes podem ser ouvidas e mais diversidade teremos. Então, o momento é muito bom. Espero que a gente tenha mais reconhecimento internacional, como foi com Ainda estou Aqui e O Agente Secreto. O sucesso de um filme é bom para toda a indústria

 

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

Revista em Casa + Digital Premium
Impressa + Digital
Revista em Casa + Digital Premium

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.
Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
*Assinantes da cidade do RJ

A partir de R$ 39,99/mês