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“A idade e a maternidade me fizeram perder a censura”, diz Martha Nowill

Às voltas com a criação dos filhos, com a direção de seu primeiro curta e a escrita de um romance, a atriz Martha Nowill vive uma fase fértil

Por Vanessa Barone 4 set 2026, 08h00 | Atualizado em 4 set 2026, 09h24
Mulher de pele clara, cabelos castanhos cacheados e volumosos, usando batom vermelho e camisa preta com gola dourada, olhando para cima com expressão séria
A atriz Martha Nowill: tudo ao mesmo tempo agora (Claus Lehmann/Divulgação)
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Há cerca de cinco anos, quando estava grávida de gêmeos — Maximilian e Benjamin, 5, frutos do relacionamento com o publicitário Luiz Braga —, a atriz Martha Nowill, 45, começou a escrever um diário sobre sua experiência com a maternidade.

O relato, bastante honesto, sobre as dores e delícias da gestação, do parto e dos primeiros meses de vida dos meninos resultou no livro Coisas Importantes Também Serão Esquecidas (Companhia das Letras, 224 págs., R$ 89,90), lançado no ano passado.

A obra acaba de ganhar uma versão em audiolivro e segue impactando leitores. “Recebo mensagens de mulheres e homens”, conta Martha, que agora planeja transformar o material em um sarau, ao lado do marido. “Penso em incluir músicas que vou cantar e serão tocadas por Luiz.”

Enquanto amadurece a ideia, ela explora suas diferentes vocações, como atriz, diretora, roteirista e escritora. “Comecei a escrever um romance”, afirma. Dentro de dois meses, ela começa a filmar À Revelia, seu curta- metragem de estreia como diretora, que fala de perdas e memória.

E, ainda em 2026, poderá ser vista no filme Privadas de Suas Vidas. O longa, dirigido por Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, ainda sem data para chegar aos cinemas, estreou no Festival de Rotterdam, no início do ano, e estará no 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, neste mês.

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Mulher de pele clara, cabelos cacheados escuros presos, vestindo blazer xadrez cinza, camisa bege e gravata fina brilhante, jeans azul, com a mão direita na nuca e a esquerda na cintura, olhando para frente com expressão séria
A atriz: livro, direção de curta e muito mais (Claus Lehmann/Divulgação)

Martha conversou com a Vejinha.

Qual é sua expectativa ao realizar À Revelia, seu primeiro curta-metragem como diretora?

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Mesmo tendo feito faculdade de cinema (na Faap), junto com a formação em teatro (na Escola de Teatro Célia Helena), ainda me dá um frio na barriga. Mas o fato é que conheço o que se passa por detrás da câmera. Além disso, acho que perdi a censura. Passei a vida me censurando, achando que não podia, que não cabia. Mas cheguei em um momento da vida, não sei se é a idade ou foi a maternidade, em que estou perdendo os pudores. E tem a questão da vida de artista mesmo, que ficou mais difícil, virou uma gincana, principalmente pós- -pandemia. Financeiramente, não está fácil para ninguém. Por isso, quero explorar outras possibilidades, fazer outras coisas, mesmo que às vezes ainda tenha um medinho lá no fundo. Fiquei mais descarada por necessidade e por vontade também.

O que pode contar sobre esse projeto?

Eu dirijo com o fotógrafo Loiro Cunha. No elenco, somos Charly Braun, Elias Andreato e eu. Braun é meu amigo e parceiro, que me dirigiu no filme Vermelho Russo, de 2017 (o longa, que tem Martha como uma das roteiristas, levou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival do Rio de 2016). Devemos começar as filmagens no final de outubro. A ideia inicial era filmar dentro da biblioteca maravilhosa que meus avós tinham na casa deles. Era lá que eu estudava e tinha aulas de catequese com a minha avó. Infelizmente, a casa foi demolida para virar um prédio. Mas tudo bem, porque o filme vai falar justamente disso: dos lugares que a gente perde. Será uma ficção sobre amor aos livros e a esse lugar cheio de histórias. Mas teremos que encontrar outra biblioteca.

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No longa Privadas de Suas Vidas, você interpreta Malu, uma mãe enlutada após perder um dos filhos gêmeos. Como foi fazer o papel sendo você também mãe de gêmeos?

Quando li a primeira linha da sinopse, comecei a chorar. Pensei: “Meu Deus, como é que eu vou fazer isso?”. Mas a verdade é que os diretores (que também são os roteiristas) não criaram o papel pensando em mim. A história já tinha essa mãe de gêmeos, que perde um dos filhos em um acidente na privada e fica traumatizada, a ponto de não conseguir sentar em uma nunca mais. Apesar de terror, o filme também tem um tom de comédia, faz uma alegoria sobre privadas que se revoltam contra a humanidade; é nonsense, escatológico e faz uma crítica social. A saída foi mergulhar na ficção e desassociar essa história da minha. E o produtor, Rodrigo Teixeira, facilitou isso, propondo que eu descolorisse os cabelos e ficasse loira. Passei dois dias no salão oxigenando os cabelos. Foi um gesto tão radical que ajudou a me sentir livre. Protegi a minha história e fiz o filme.

O que a maternidade te trouxe no âmbito profissional?

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Com certeza, ela trouxe muito mais repertório, emocional e intelectual. Trouxe um amor que eu nunca tinha sentido. Se antes o meu arco-íris tinha sete cores, ele passou a ter 200. Também me fez escolher trabalhos com mais critério, coisas que eu realmente quero fazer. Mas, claro, me fez pensar em comprar um apartamento e planejar a minha aposentadoria. Comecei a pensar em trabalhos mais duradouros, e não mais nessa coisa de atuar, ganhar dinheiro e gastar. Por isso, acredito em escrever mais livros e realizar mais projetos como diretora, coisas que me permitam ter uma renda que não dependa de eu estar lá, presente, em cena. A maternidade me trouxe essa energia, essa coisa de virar um trator e seguir em frente, como já vi muitas mães fazerem. Quero dar uma boa educação para os meus filhos, quero viajar com a família toda. É isso, acho que virei esse trator.

Você já tem outro livro engatilhado?

Depois de Coisas Importantes Também Serão Esquecidas, as pessoas começaram a me perguntar quando viria o próximo, inclusive a minha editora. Na hora, pensei: “Essa gente está doida. Não tenho outro livro. Sou atriz, não escritora”. Me pareceu aquela coisa quando o casal tem o primeiro filho e todo mundo começa a cobrar o segundo, sabe? Mas, aí, o meu amigo Alexandre Vidal Porto, escritor e diplomata, me falou: “Martha, você já é da literatura, não adianta negar”. Isso me fez pensar e ter várias ideias, inclusive para um livro infantil e uma ficção. Comecei a escrever o que vai ser o meu primeiro romance.

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Como paulistana, como é a sua relação com a cidade?

Eu amo São Paulo. Adoro andar a pé pela cidade e apresentar lugares diferentes para os meus filhos. Levo muito eles ao centro, a museus, ao Sesc, onde adoram brincar, e a bairros que eles ainda não conhecem. Gosto de explorar São Paulo com eles, que estudam em uma escola pública e andam bastante de ônibus e a pé. Outro dia, aconteceu uma coisa engraçada: disse a eles que iríamos à Pinacoteca ver uma exposição. Eles responderam: “Já fomos com a escola”. Ou seja, eles já têm uma agenda com a cidade e eu acho isso incrível, porque vão crescer amando este lugar tanto quanto eu. Atualmente, estou devendo um passeio de ponta a ponta pela Avenida Angélica, onde moramos. Max queria saber se ela é a maior avenida do mundo. Respondi que ela era a maior do nosso bairro. Agora, ele está me cobrando. Quer conhecer ela inteira.

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