De Pilar Brandão a Maria Bruaca: a arte pulsante de Isabel Teixeira
Atriz, diretora e artesã das palavras, a artista equilibra o furor dos palcos, a paixão pelos livros e a força de vilãs marcantes na televisão brasileira
A atriz Isabel Teixeira, 52, nunca foi morna. Ela não é dessas. Ou ferve de paixão, como Maria Bruaca, de Pantanal, ou estala de frieza, como Pilar Brandão, de Quem Ama Cuida. Em qualquer que seja o papel — ou ofício, já que ela também é escritora, dramaturga e diretora teatral —, Isabel coloca para jogo o prazer de ser o que é.
“Ela é muito mais do que atriz. É inteligente, criativa e culta, sem deixar de ser uma menina alegre que adora brincar”, elogia o ator Mateus Solano, que trabalhou com Isabel na concepção do espetáculo O Figurante (leia mais na pág. 14). “A Bel divide sua vocação entre os livros e o teatro e é capaz de entender as personagens que desempenha com profunda clareza”, complementa o músico Renato Teixeira, 81, pai orgulhoso da atriz, que desde pequena demonstrava dotes artísticos (leia o depoimento na pág. 12).
Dotes que ela exercita, profissionalmente, desde os 10 anos de idade, quando atuou na peça Uma Aventura a Caminho do Guarujá, em 1984, e pela qual foi escolhida melhor atriz revelação pelo Prêmio Apetesp (Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo).
No espetáculo, Isabel atuou ao lado da mãe, a também atriz Alexandra Corrêa (1949- 2006) e foi dirigida pelo padrasto, Carlos Meceni. A partir de 1994, Isabel emendou trabalhos, como atriz e diretora, entre os quais estão os espetáculos Um Bonde Chamado Desejo (2002), Arena Conta Arena 50 Anos (2004), Rainha[(s)] — Duas Atrizes em Busca de um Coração (2009), adaptado do texto do alemão Friedrich Schiller, pelo qual ganhou o Prêmio Shell, e E Se Elas Fossem para Moscou? (2014).
Isabel Teixeira de Oliveira, Bel, para os íntimos, é paulistana nascida em uma família de artistas. Além da mãe atriz e do pai compositor, é neta da pianista e atriz Virgínia Vanni (1923-2005) — pseudônimo de Maria de Lourdes Corrêa — e sobrinha-neta da atriz Margarida Rey (1922-1983). Ambas são musas inspiradoras, para as quais Isabel presta reverências até hoje ao entrar no palco.
“São as minhas atrizes preferidas, que vivem e sobrevivem no teatro da minha memória”, escreveu a neta, em um texto publicado no jornal Folha de S.Paulo, em 2011.
Do avô, o jornalista Moacyr Corrêa (1919-2007), ela herdou outro amor, pelas letras, que a acompanha desde muito jovem e a fez criar a própria editora, a Fora de Esquadro, montada na sala de seu apartamento no bairro de Santa Cecília, onde edita textos teatrais e romances, entre outras coisas.
“No fundo, acho que o que sempre quis foi ser editora de livros”, admite a atriz, que é formada pela Escola de Arte Dramática (EAD) da USP e hoje utiliza a aptidão para a escrita para registrar textos dramatúrgicos que nascem da técnica escrita na cena, adotada por ela para desenvolver o argumento de um espetáculo.
Da Fora de Esquadro também saem livros autorais, caso do infantil Janelas para o Chão, do romance Avelã, além da obra Cadernos do Exílio, escrita durante uma temporada na França. Mas se engana quem pensa que vai encontrar essas obras à venda no circuito comercial. Seu barato é outro: confeccionar os livros do começo ao fim, cuidando da impressão e da encadernação. “São tiragem de 25, cinquenta exemplares que faço para mim e para dar de presente aos amigos.
Com O Livro de Linhas foi assim. Criada a partir do processo de concepção da peça Elã, que dirigiu para a companhia teatral Mungunzá, a obra foi feita a várias mãos, unidas para criar o conceito e a encadernação, depois da impressão na gráfica Amarelinho.
Do trabalho coletivo, saíram 125 exemplares. “Isabel nos abasteceu com o seu olhar artístico, com a maestria de artista múltipla que ela é”, diz Lucas Bêda, da Mungunzá. Para a atriz, o teatro vai além de um ofício, é um treino para a vida em sociedade.
“Ele nos ensina sobre convivência, escuta e presença”, afirma. Tanto que, na sua opinião, o teatro deveria fazer parte do currículo obrigatório nas escolas, como forma de amenizar o déficit de atenção e a dificuldade de escutar os outros — problemas frequentes na sociedade instagramável, em que todos se sentem protagonistas e donos da verdade. “Em cena, é preciso estar presente e atento. Não se faz teatro sozinho. Ele é uma criação coletiva que envolve todos: atores, iluminadores, figurinistas e tantos outros.”
Mas, se no palco Isabel cresceu e aprendeu a ver o outro, na TV ela precisou se acostumar a ser vista — e julgada. “Muita gente considera a novela uma espécie de arte menor. Mas ela não é. Inclusive, é uma parte importante da nossa tradição cultural, uma arte democrática que chega a todo mundo, pela TV aberta, que é de graça”, afirma a vencedora do prêmio de melhor atriz de televisão de 2022, pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
“O interessante é que nunca ganhei esse prêmio no teatro.” Com Pilar Brandão, Isabel está em seu quinto papel de destaque em uma novela da TV Globo. Antes vieram Jane, de Amor de Mãe (2020), Maria Bruaca, de Pantanal (2022), Helena, de Elas por Elas (2023) e Violeta, de Volta por Cima (2024).
No atual folhetim das 21h, Quem Ama Cuida, do autor Walcyr Carrasco e com direção de Amora Mautner, a atriz encarna uma vilã egoísta, gananciosa e narcisista, que inveja o sucesso do irmão Arthur (Antonio Fagundes), cobiça a fortuna da família e inferniza a vida da mocinha Adriana (Letícia Colin).
Para o futuro da personagem, Isabel não espera nada mais do que a merecida ruína. “Ela é uma vilã tradicional, do tipo Perpétua (interpretada por Joana Fomm na novela Tieta, de 1989), com a função social de desopilar o fígado. É feita para ser xingada, odiada”, afirma sua intérprete, sem dó nem piedade. “O seu dia foi difícil, você foi maltratada no trabalho, pegou muito trânsito? É só ligar a TV e gritar com a desgraçada da Pilar. Ela canaliza a raiva nacional.”
Isabel não tem medo de parecer má. Pelo contrário. “É importantíssimo ter uma vilã, porque lava a nossa alma de alguma maneira. Ela não existe sem a mocinha, a mocinha não existe sem a vilã. É isso que dá a estrutura à trama”, diz. Para a atriz, os dois arquétipos têm uma relação simbiótica — e isso foi desenvolvido com Letícia Colin, que nas palavras da oponente é uma heroína complexa e transbordante. Uma potencializa a outra. “E, no final, a gente sabe o que acontece: virá a derrocada”. Para alívio dos fãs e dela mesma.
As idas e vindas ao Rio de Janeiro para as gravações da novela têm feito Isabel, que é mãe de Diego, 22, e Flora, 15, frutos de seu antigo casamento com o fotógrafo Roberto Setton (autor do ensaio de fotos para esta reportagem), sentir saudades de casa. “Eu sou de São Paulo e adoro essa cidade”, diz ela, que, no entanto, também presta reverência à Cidade Maravilhosa — onde, atualmente, passa a maior parte do tempo.
“O Rio tem algo que exige respeito. Não sei se é a geografia, o lado social ou espiritual. Só sei que é um lugar onde peço permissão para estar”, diz. “É feito o mar de Copacabana, que pode te dar um caldo e te jogar no chão.”
Da capital paulista, a atriz guarda as recordações de infância na Vila Clementino e o prazer adulto de caminhar pelas ruas de Santa Cecília, onde vive. “Fui me reconhecer paulistana quando comecei a passar tempos longe. Já avisei que, depois de morta, quero que minhas cinzas sejam jogadas no Minhocão. Quero virar pó sobre os móveis de quem mora ao redor.”
Escrita na cena
Isabel Teixeira não gosta de falar em metodologia. Segundo a atriz, que é também uma elogiada dramaturga, o trabalho de criação de um texto teatral, a partir da improvisação dos atores, é uma técnica.
“Não fui eu que inventei, mas utilizo a escrita na cena desde 2008”, diz ela, que assina a dramaturgia do espetáculo O Figurante, junto com o ator Mateus Solano e o diretor Miguel Thiré. A técnica foi essencial para o desenvolvimento do texto final do monólogo, diz Solano.
“Eu estava em um impasse, até Isabel me falar sobre a técnica e fazer o espetáculo nascer a partir de improvisações que eram captadas e transcritas. Fizemos esse fluxo várias vezes e a escrita foi sendo lapidada. Isabel costurou as ideias”, afirma o ator, que trabalhou ao lado dela por seis meses.
“Ela me ensinou a importância de exercitar a minha criatividade, com a sua erudição, cultura, inteligência e bom humor.”
O trabalho ao lado da companhia Mungunzá foi semelhante e deu origem à obra O Livro de Linhas e ao espetáculo Elã, de 2025, dirigido por Isabel. Mas, nesse caso, eram sete atores da companhia criando: Léo Akio, Lucas Bêda, Marcos Felipe, Pedro das Oliveiras, Sandra Modesto e Verônica Gentilin “Utilizei a escrita na cena com cada um, separadamente. A partir daí, fiz um dossiê com todas as histórias e isso virou o ‘Livro de Linhas’, que depois deu origem ao espetáculo”, explica Isabel.
Para Lucas Bêda, que assina a assistência de direção e a preparação do elenco, todo o processo foi prazeroso. “Isabel nos acolheu e nos abasteceu com seu olhar artístico. Foi a força motriz do espetáculo, escutando cada ator e jogando luz nas propostas”, conta. “Ela funcionou como uma metralhadora que disparava referências que se somavam ao trabalho. A construção foi fluída e muito feliz. Ficamos amigos.
Isabel, por Renato Teixeira
“Isabel foi uma criança saudável e participativa. Eu me separei de Alexandra (a atriz Alexandra Corrêa, mãe dela) quando Bel era ainda bem pequena. Mas não me separei da minha filha. Pelo contrário. Quando percebi a empatia que existia entre nós, entendi que caminharíamos juntos a todo e qualquer custo. Alexandra a criou com muita sabedoria, o que a transformou numa pessoa segura e corajosa. As reações infantis da Bel eram diferenciadas.
Quando ela fazia birra, por exemplo, a partir de um determinado momento começava a atuar. Era muito engraçado. Minha mãe dizia que ela incorporava Maria Della Costa. Minha filha se preparou para o teatro de uma forma intensa e aprendeu tudo relacionado à função, como dança e artes circenses. Tudo para qualificar a sua vocação. Ela toca piano, violão e flauta, e ainda canta muito bem. Pensei que ela seria cantora, mas o teatro falou mais alto.
Pelo lado materno ela é sobrinha-neta de Margarida Rey, uma grande atriz. Ela também herdou amor pelas letras. Neta de Moacyr Corrêa (jornalista), ela divide sua vocação entre os livros e o teatro e é capaz de entender os personagens que desempenha com profunda clareza.
Por isso Pilar (sua personagem em ‘Quem Ama Cuida’) é tão convincente. Gosto muito de tudo que ela faz. Quando nasceu, fiz uma música para ela chamada ‘Uva e Vinho, Trigo e Pão’, que foi uma espécie de premonição do que seria nossa vida juntos.
Quando estamos juntos continuamos, como sempre, nosso diálogo a respeito da vida e dos nossos sonhos. Revisamos posições e avaliamos nosso dia a dia.”







