Tiago Iorc revê ‘Troco Likes’: “Me acostumei a deixar as coisas para trás”
Confira a entrevista com o músico, que estreia em São Paulo o show comemorativo do disco que emplacou hits como 'Coisa Linda' e 'Amei Te Ver'
Tiago Iorc decidiu, pela primeira vez, parar e olhar para trás. E, quando fez isso, sorriu. Por isso resolveu celebrar o sucesso do seu disco Troco Likes (2015), lançando um álbum inteiro de regravações e uma turnê que começa neste sábado (1o), em São Paulo.
Em entrevista à Vejinha, o cantor e compositor falou sobre a decisão de fazer um projeto retrospectivo. O álbum em questão marcou uma virada (de sucesso) na sua carreira, com hits nacionais como Amei Te Ver e Coisa Linda.
Foi também o primeiro trabalho do artista todo em português. Nascido em Brasília, Tiago se mudou para a Inglaterra aos 10 meses, onde viveu até os 5 anos. Depois, morou no Rio Grande do Sul até os 11 e em Nova York até os 18. Por isso os seus primeiros lançamentos tinham letras em inglês.
O êxito de Troco Likes foi tamanho que Tiago teve que dar uma pausa na carreira entre 2018 e 2019, retornando com o disco Reconstrução. “Concluí que um descanso vai me fazer bem. Me ausentar dessa nossa vida instagrâmica que nos consome e me permitir viver sem calcular tanto, me descobrir em novos medos, voltar a ter certeza do que é improvável”, escreveu no anúncio do hiato, à época.
Sobre o auge, a pausa e o seu atual momento, confira a conversa com o músico a seguir.
Troco Likes foi um momento muito importante na sua carreira, e também muito intenso. Foi após a turnê daquele disco que você decidiu dar uma pausa na carreira. Como é voltar àquele repertório?
Tem sido muito bonito. Sempre tive a característica de seguir em frente, ser muito andarilho, meio cigano. Não só criativamente, mas a minha vida desde a infância foi muito itinerante, então me acostumei psicologicamente a deixar as coisas para trás. Estive sempre preparado para um novo caminho. E sinto que a idade e o tempo foram me permitindo olhar com um pouco mais de carinho para as etapas que me forjaram. Esse álbum significou mudança na minha vida. Está sendo bonito voltar com essa clareza e carinho pelo que foi. Naturalmente, com o tempo, a sensação é que vou me distanciando do que fui. Mas fiquei feliz de voltar e ver que existe beleza ali.
Essas músicas chegaram a ter um gosto amargo para você, após a sua pausa na carreira? Chegou a se cansar desse disco?
Muitas das canções que têm êxito acabam se tornando cansativas para os artistas. Alguns até ficam com um certo repúdio delas. Eu felizmente sempre tive carinho por essa obra e essas canções, Amei Te Ver, Coisa Linda. E agora talvez tenha um pouco mais, nesse momento de apreciação pelo que foi. Nem tinha me dado tanto conta do quanto esse disco mexeu na minha vida, na vida das pessoas e no cenário da música. Quando Amei Te Ver saiu, era a única música do gênero que estava entre as mais tocadas nas rádios. Nunca tive uma sensação de cansaço.
Musicalmente, como é levar esse repertório aos palcos, dez anos depois?
O Troco Likes foi uma transição. Quando lancei, não foi um êxito de imediato. Ainda levou um ano e pouco de trabalho para começar a furar a bolha. O que eu fazia naquele momento eram shows voz e violão, uma estrutura mais simples. Esse show novo é mais coletivo. Comigo no palco são outros sete músicos, com arranjos novos. A luz e a narrativa do show são focadas em resgatar a memória afetiva dessas canções. Essa possibilidade de ter mais instrumentação no palco permite uma expansão e me permite uma certa liberdade. Nem tudo está só na minha mão.
Você sente que o mercado da música pop brasileira mudou nesses dez anos? Quais as portas que Troco Likes abriu?
Na época eu não tinha essa percepção, só percebia que havia chegado a um lugar que desconhecia. Com muita gente ouvindo, muitas portas abertas, vivendo fantasias. Como cantar com Roberto Carlos, conhecer, gravar e fazer turnê com Milton Nascimento… Essa dimensão foi me permitindo vivenciar coisas muito bonitas. Ao mesmo tempo, não percebia o que estava acontecendo para além disso, porque o que estava acontecendo comigo já era demais. E nem isso eu tinha capacidade de compreender. Mas, analisando com o tempo e recebendo o olhar de outras pessoas, inclusive artistas que participaram da regravação do álbum, como Vitor Kley, Marina Sena e Jota.pê, essa galera toda me confidenciou que aquele álbum foi um possibilitador de caminhos. Acho isso super bonito.
Com tantos sonhos realizados, o que te motiva a seguir a carreira hoje?
Percebo que a essência do que me movimenta segue sendo muito parecida de quando comecei. Quando ficava sozinho no meu quarto por 8 horas ou mais estudando violão e guitarra. É uma paixão que vai além da minha compreensão, uma conexão que sinto como propósito mesmo: encontrar expressão e através disso possibilitar caminhos de sensibilidade para outras pessoas. Sinto que isso não tem fim, é um laboratório, uma experimentação de cada dia. Sigo sendo surpreendido. A música sempre foi muito generosa na minha vida. Sinto uma conexão mútua em que me devoto e ela retribui com uma jornada. Uma caminhada em que vou descobrindo a abundância que a música permite. E estou feliz de descobrir para onde vamos agora, eu e ela, a música.







