Maurício Pereira volta com disco de inéditas: “Meu deus é Erasmo Carlos”
O cantor e compositor paulistano lança o álbum 'O Dia da Girafa', coleção delicada de canções que inclui parcerias com os filhos Chico e Tim Bernardes
Em meados do século passado, operários de uma fábrica de cerâmica na Grande São Paulo começaram a levar peças quebradas para as suas casas. Pedaços vermelhos, amarelos e pretos que seriam descartados ganharam vida nova ao decorar as residências. Como cacos espalhados pelos cadernos do compositor Maurício Pereira, 66, seus versos encontraram moradia em melodias e se colaram no novo disco O Dia da Girafa (2026), com o tradicional chão de caquinhos na capa e doze faixas que serão lançadas na quarta-feira (29).
Este é o primeiro disco de inéditas do cantor e saxofonista paulistano desde Outono no Sudeste (2018). Metade de Os Mulheres Negras, dupla pop com André Abujamra criada nos anos 80, Maurício lança discos solo desde 1995. O olhar de cronista da cidade — São Paulo está entranhada em suas letras, seu sotaque e seu vocabulário — é sua assinatura, redescoberta pela cena indie jovem da década passada, que voltou a atenção para álbuns como Mergulhar na Surpresa (1998) e Pra Marte (2007).
Seu hit é Trovoa, canção romântica prolixa e sem refrão. No encontro da simplicidade com a estranheza está a sua arte, centrada na palavra. “Mesmo estando nesse mundo alternativo, sempre quis simplificar. Meu deus é Erasmo Carlos. Como o muçulmano é virado para Meca, sou virado para ele”, proclama.
Em seu novo trabalho, o brilho está nas canções com ar de mistério, como a imagética Um Facho de Luz Cobre, a sexy Alfabetiza, a delicada As Nuvens, Nuvens, Nuvens, a solitária Casamata de Amoreiras e a faixa-título. “É a onda desse disco, essas associações de poesia e não de prosa. O título O Dia da Girafa não esclarece nada, mas abre várias portas.”
As letras nasceram todas na pandemia, jorradas. O seu processo criativo funciona assim, em safras, a cada quatro ou cinco anos. “Todo mundo está fazendo mil coisas, qual a pressa que tenho de escrever se já estão dizendo o que tem que ser dito? Eu escrevo na ponta da necessidade”, afirma.
As melodias ficaram a cargo de parceiros como Biel Basile, produtor do disco, além de Romulo Fróes, Lu Horta, Edson Natale, Tonho Penhasco e seus filhos músicos Chico e Tim Bernardes. “Agora tem a história do ‘nepo baby’. Ser meu filho não dá camisa para ninguém”, brinca. Completa o trio a filha Manuela, atriz, locutora e dubladora. “Como não tem jeito de eles não serem artistas, ajudei onde podia, oferecendo estudo e mostrando Tim Maia, Milionário & José Rico, Bob Marley… Não queria ver ninguém em casa dizendo: ‘Esse tipo de música é ruim’. Aí eu deserdava meu filho (risos).”
Esse caldeirão de referências inspira a intenção pop de Maurício, defendida na faixa Uma Vida Standard. “Por mais que esteja no mundo alternativo, e que o povo me conheça só na Barra Funda e na Santa Cecília, eu olho para as pequenas coisas que falam com todos. Coloco as minhas complicações do jeito mais singelo possível”, diz.
Com seu papel e caneta, escreve e edita no caderno como quem junta cacos de cerâmica em um piso multicolor. O divertido é entrar pelas portas que as palavras abrem. ■
Publicado em VEJA São Paulo de 24 de julho de 2026, edição nº 3005







