Martinho e Mart’nália: “O samba é um símbolo maior que o hino nacional”
O cantor divide o palco com a artista na turnê 'Pai e Filha', que passa por São Paulo em julho; confira a data e a entrevista com a dupla
Junta-se Martinho da Vila, 88, e Mart’nália, 60, e tem-se gargalhadas gostosas à vontade e muitos sambas para cantar. Foi assim a conversa com os dois, e ainda mais divertida será a turnê Pai e Filha, que roda o Brasil entre maio e novembro, com data marcada em São Paulo no dia 25 de julho, no Espaço Unimed.
É a primeira vez que a dupla divide os holofotes na estrada. A parceria no palco não é novidade: a artista carioca começou a trajetória na banda do pai, nos vocais e na percussão, nos anos 1980. “Tudo que faço no palco é fruto daqueles tempos. Aprendi a minha profissão muito graças a ele”, conta a cantora de voz rouca e suave. Quando falam sobre o show, uma certeza transparece: serão dias de pura alegria. “Era uma vontade antiga fazer algo juntos. Vamos nos divertir muito”, afirma o sambista. Mas não só nos espetáculos. “A gente canta, depois vai a algum lugar tomar um chope, comer alguma coisa”, diz Martinho. “De noite, jogar um buraco”, completa Mart’nália.
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Os dois se animam com os planos em cada cidade. A turnê estreia no Rio de Janeiro, em 30 de maio. Além da capital paulista, também viaja por Campina Grande, Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife e Salvador. São onze datas, por enquanto. “Em Belo Horizonte, uma comida mineira”, trama a artista. “Tem um negócio que acho que você não vai gostar: sarapatel. É pernambucano, com sangue”, Martinho continua o papo sobre petiscos…
Sorrisos largos e paixão pelos prazeres da vida são alguns traços hereditários facilmente detectados no duo. Uma boa cerveja gelada brilha nos olhos de ambos. “Temos que aproveitar, não ficar só fazendo show, mas sair e se mexer um pouco”, conta Martinho. O cantor e compositor fluminense busca, nessa altura da vida, conforto, mas não aposentadoria. “Depois dessa turnê, só vou me apresentar em lugares próximos ao Rio, de fácil acesso, como Belo Horizonte, São Paulo e Espírito Santo. Onde não precise trocar de avião, isso não dá mais para mim”, desabafa.
E a música não para: ele prepara o primeiro disco só de inéditas desde o álbum de estreia, Martinho da Vila (1969). “Gilberto Gil mandou duas. Musiquei uma, que vou gravar. A outra é uma letra muito linda, vou trabalhar nela bem devagar, com muito cuidado, e passar para Mart’nália”, revela. A filha também prepara um novo álbum. “Dei o pontapé com as ‘sobras’ do paizão. Ele ganhou umas músicas, vou começar por elas. O que restar, pego para mim (risos)”, diz, esperta.
No palco, o roteiro inclui momentos solo de cada um e grandes sucessos. As bandas de ambos os artistas irão acompanhá-los nos shows, somando quinze instrumentistas. Ainda sem um repertório fechado, na conversa foram citados sambas como Canta Canta, Minha Gente, Tom Maior e até O Teu Chamego, hit do Grupo Raça gravado por pai e filha no disco Pagode da Mart’nália (2024). “Para mim, a música que mais lembra meu pai é Canta Canta, Minha Gente. Mas tem muitas outras que adoro cantar com ele. Gostamos muito de De Amor e Paz”, diz a cantora. “Tem uma porção que eu curto no repertório dela, mas uma que impressiona muito é Cabide. É um ‘sucessão’”, orgulha-se o pai.
Seja qual for o setlist final, a certeza é que terão refrões que atravessam décadas. Desde o primeiro sucesso de Martinho, Casa de Bamba, dos tempos que ainda era terceiro-sargento do Exército, no fim dos anos 1960, a outros grandes hits comerciais, como Mulheres e Disritmia. “É uma doença, a pessoa é ‘disritmada’, e também um cara que está bêbado. Conversando com uma amiga psicóloga, entendi bastante sobre esse estado e resolvi escrever uma música. Não foi inspirada em ninguém, veio do ar”, relembra, sobre a composição.
O caminho estrelado do bamba na música brasileira é honrado pela filha — a terceira entre sete irmãos —, que ganhou atenção como intérprete no disco Pé do Meu Samba (2002), dirigido por Caetano Veloso. O sucesso foi consagrado pelo trabalho seguinte, Menino do Rio (2006), que emplacou Cabide. “Mart’nália é a grande estrela. Gosto de ver o show dela. Fico, como diz o dito popular, lambendo a cria (risos)”, declara Martinho. A filha devolve a admiração. “Adoro quando dizem ‘gosto mesmo é do seu pai’. Se não gostar dele, não precisa nem olhar para mim”.
Não é difícil entender o caminho de Mart’nália. “Lembro de quando meu pai mostrou a primeira música africana, da Miriam Makeba, eu ficava dançando. E dos músicos que conviviam em casa, Paulo Moura, Banda Black Rio, Rosinha de Valença, Manoel da Conceição”, diz. “Mart’nália praticamente começou a sambar com Ivone Lara, que era de uma elegância total”, conta Martinho.
Ainda criança, ela acompanhava o pai nas visitas a Candeia (1935–1978), grande sambista carioca. “Clara Nunes, quando chegava, dominava tudo”, ela revela. “Clara, Beth Carvalho e Elis Regina subiram muito cedo”, lamenta ele. Da carreira do pai, Mart’nália fala com carinho das capas icônicas dos discos assinadas pelo artista Elifas Andreato (1946- 2022). “Lembro de esperar os LPs chegarem para ver a ilustração. A Rosa do Povo é impressionante, os pés com aquelas veias e raízes”, pontua, destacando o álbum lançado há exatos cinquenta anos.
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Além da turnê em família, neste ano Martinho também fará participações especiais no show O Maior Encontro Do Samba, que reúne Alcione, Jorge Aragão e Zeca Pagodinho — ele será o convidado nas datas em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Curitiba e em Salvador. “O samba está sempre bem, porque é a música do Brasil. É um símbolo maior que o hino nacional. Ele pode ficar um pouco fora da mídia, mas está sempre ativo. Você pode encontrar rodas de samba a semana toda”, afirma o compositor. “A gente acha samba em tudo quanto é lugar, em todas as cidades que vamos passar”, concorda Mart’nália.
Cantando forte e alto, a dupla não contém a animação para o projeto Pai e Filha. “Faz tempo que não tocamos juntos, tenho saudades daqueles tempos. Vamos ficar mais próximos”, diz a artista. Durante o papo, Martinho sugeriu abrir o show sozinho, seguido pelo momento dos dois juntos e, ao final, a filha assume a bronca para “agitar a galera”, nas palavras dele. Ela concordou, com o mesmo sorriso largo do pai estampado no rosto. Com muito samba no pé, casas lotadas e chopes gelados para finalizar, será uma despedida de gala de Martinho dos grandes palcos. ■
Confira as datas da turnê Pai e Filha
- 30 de maio – Rio de Janeiro – Vivo Rio
- 3 de julho – Campina Grande – São João
- 18 de julho – Brasília – Na Praia Festival
- 25 de julho – São Paulo – Espaço Unimed
- 4 de setembro – Belo Horizonte – BeFly Hall
- 10 de outubro – Fortaleza
- 17 de outubro – Recife – Classic Hall
- 23 e 24 de outubro – Salvador – Concha Acústica TCA
- 14 e 15 de novembro – Rio de Janeiro – Arena Jockey Brava
Publicado em VEJA São Paulo de 17 de abril de 2026, edição nº 2991







