Jão sobre luto e novo disco: “Não me deslumbro porque já me detestei”
O cantor e compositor paulista fala sobre as perdas do pai e da avó, o sucesso, o relacionamento e a volta aos palcos em nova fase da carreira
Foi na ausência que Jão, 31, enxergou o brilho da presença como nunca antes. Seja o hiato da própria carreira, de março de 2025 até o mês passado, seja as dolorosas perdas recentes, com as mortes da avó e do pai, o cantor e compositor transborda os vazios com palavras em seu novo disco, Memórias Póstumas (2026).
Jão é tão sincero nas respostas quanto nas letras do álbum lançado no último dia 26, com audição no Vale do Anhangabaú para mais de 11 000 pessoas. “Senti que precisava voltar. Não planejei, não tinha hora. Foi uma decisão emocional, continuo me questionando se era o momento”, confessa. O show inaugural da nova fase foi anunciado (e já está esgotado) para o dia 25 de setembro, no Nubank Parque, onde se apresentou outras três vezes, com todos os ingressos vendidos.
A escolha de dar um tempo na rotina de arenas e discos foi calculada. Mas o respiro ganhou outros contornos quando o pai do cantor faleceu repentinamente, em junho do ano passado. “Não consigo escrever na tristeza. Quando aconteceu, me sentia até egoísta de ouvir música. Foi um período de muito isolamento. Tenho pessoas comigo, mas só consigo lidar com as coisas sozinho”, compartilha. A reconexão com o próprio ofício demorou meses. “Eu estava pisando no palco quase todo dia, e logo veio um estágio muito diferente da vida. Não tive tempo de processar, me questionei muito se o que tinha vivido tinha sido real”, conta.
Nove das catorze músicas de Memórias Póstumas são parcerias de Jão com Pedro Tófani, seu diretor criativo e, também, namorado. A relação do casal é outro grande tema do disco — a faixa João, por exemplo, é um texto de Pedro para o companheiro. “Comecei a ver muita beleza nos detalhes. O quanto é mais bonito o acordar, o café, quem segura a sua mão nos momentos difíceis. Eu pensava que só existia amor quando era uma facada no coração”, relata Jão. O casal está junto há treze anos, “entre idas e vindas”, como define. “Nunca achei que fosse ter um relacionamento, sempre fui muito independente. Hoje vejo a beleza do que construímos.”
Muito se engana quem pensa que Jão agora quer calmaria. “Sou muito acelerado com a minha carreira e quero seguir assim por muitos anos”, deixa claro. A diferença é que o artista conhece melhor o equilíbrio. “Tenho outras prioridades, a minha família, o meu corpo. Mas o meu trabalho é o que mais amo, e me defino muito por ele”, desabafa. “Não faço terapia, mas seria o primeiro tema: eu me vejo como o meu trabalho. Acho que as pessoas só gostam de mim por causa dele”.
Essa indistinção talvez venha da maneira como ele leva a própria carreira, com letras íntimas e discos sem participações. Um caminho nada solitário, acompanhado por milhares de jovens fãs. “Sempre me propus a ser sincero”, diz.
Nascido no interior, em Américo Brasiliense, o paulista vive na capital há mais de uma década. “A nossa vida aqui é cansativa. Mas não consigo sair, acho que São Paulo vai ser uma prisão perpétua”, brinca. Em meio à correria, sua onda hoje é o cotidiano. “Sempre fui muito espiritual, mas está complicado. O dia a dia vem sendo a minha religião.”
É o que ajuda a cabeça a não desandar em meio às multidões — para esta conversa ele se atrasou após dezenas de fãs o surpreenderem no aeroporto. “Sou tão inseguro, até me maltrato. Não me deslumbro porque já me detestei de formas muito variadas”, conta, citando também a importância da sua equipe. “O que as pessoas gostam em mim é o acesso a um sentimento que não conseguem traduzir”, completa, compreendendo a força de um cantor e compositor pop: transformar em palavras o que toda uma geração sente. ■
Publicado em VEJA São Paulo de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008







