Coral das Quebradas: o grupo fenômeno do funk que nasceu na Zona Leste
Com seis vozes e ritmo nas palmas das mãos, projeto idealizado por MC DR viralizou, chegou ao Rock in Rio e também conquista o público infantil
Seis vozes em coro, ombro a ombro, e doze palmas que ressoam no ritmo do funk. Ao fundo, uma escada azulada no Jardim Três Marias, na Zona Leste de São Paulo. Com essa proposta e cenário, uma série de vídeos nas redes sociais se transformou, em poucas semanas, em um projeto que chegou ao palco do último Rock in Rio, despertou o interesse de artistas da MPB e do pagode e conquistou jovens, adultos e crianças como um vento fresco no gênero musical. Se você ainda não conhece, é tempo de conhecer o Coral das Quebradas.
O canto coletivo e uníssono, formato diferente do que se costuma ver e ouvir no funk, chamou a atenção de milhões de pessoas que assistiram ao primeiro conteúdo viral do grupo, publicado no início de julho. Cada membro tem sua carreira solo e história. O sexteto é formado pelo mineiro MC Chaverin, 19, e pelos paulistanos MC Kauan PV, 21, MC Zignani, 18, Oracioh MC, 21, MC Collin, 16, e MC DR, 28, o responsável por reunir todos e idealizar o projeto.
A longa escadaria que se tornou a paisagem marcante do coral fica no bairro onde o cantor cresceu. Filho do músico Predador Jamaica, ex-integrante do grupo de rap Elementos da Terra, DR tem sua própria gravadora, a Progresso Funk. E decidiu reunir os talentos para gravar prévias de faixas inéditas. “Sempre gostei de divulgar minhas músicas batendo na palma da mão, desde a época do Facebook. Um dia assisti a um vídeo do Trimanos (trio de irmãos paraenses que também faz muito sucesso na internet), eles ombro a ombro, gostei do jeito de filmar. Então pensei em fazer um coral”, conta, revelando a inspiração.
Sobre como aprenderam a cantar em coro, eles contam que, assim como o ritmo com as mãos, foi um aprendizado do dia a dia do funk. “A gente sempre cantou junto as músicas dos outros”, diz Kauan.
Os primeiros conteúdos traziam faixas autorais ou sucessos do gênero musical. Mas o projeto se expandiu depois que comentários relacionaram as palmas à música Lavar as Mãos, de Arnaldo Antunes, que estreou em 1994 no Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura. Foi então que o grupo começou a gravar vídeos com clássicos infantis, como Banho É Bom (ou Ratinho Tomando Banho), de Hélio Ziskind, da trilha do mesmo programa.
Assim nasceu uma vertente do projeto para os pequenos: o Coral das Quebradas Kids, com vídeos em animação e um primeiro disco que sairá em 12 de outubro. O próximo single é o famoso hino de higiene das mãos, que chega às plataformas nesta sexta-feira (25), pela gravadora GR6 com distribuição da Virgin Music Group.
Os vídeos virais chamaram a atenção de artistas como Mumuzinho, Kell Smith e Nando Reis, que até convidou os jovens a tomarem um café na sua casa. E os levaram até o maior festival de música do país, o Rock in Rio, com uma participação no show do DJ Dennis, no último dia 13. Sem falar nas grandes marcas: o coral já gravou publicidades com empresas como Nubank, Burger King e Cacau Show.
O sexteto deixa claro que a ideia não é abandonar as músicas de temática adulta, lançadas tanto pelo conjunto — com outro disco previsto para o início de 2027 — quanto pelos integrantes individualmente, e sim caminhar com o projeto infantil em paralelo. “Gostamos de gravar nossas próprias composições, que falam de onde viemos. E que têm um palavrão ou outro e falam da favela, de mulher, bebida, rolê. Não podemos perder essa originalidade”, explica DR, também reconhecendo a importância dos sons educativos. “Estamos fazendo os pequenos cantarem música de criança novamente. Isso estava em escassez. Tem muita baboseira na internet, elas ficam no Instagram e TikTok, ouvindo as músicas dos adultos. Graças a Deus estamos trazendo o inverso”, completa.
Entre risadas, ensaios e alguma paciência de todos para registrarem os melhores takes, os jovens cantores se divertem no pé da escadaria em meio a uma vizinhança tranquila. Toda semana eles vão pelo menos um dia àquele endereço e cantam por cerca de quatro horas, que rendem dezenas de vídeos, registrados em diferentes celulares e ângulos.
Sobre o que sonham conquistar, o caçula Collin responde de batepronto: “Uma casa para a minha mãe”. E logo Kauan complementa. “Nós furamos uma bolha, chegamos na criançada. Agora temos que trabalhar para que a nossa imagem seja boa para o funk. Não de droga, sexo, essas coisas”, afirma. O funk paulistano acaba de ganhar um coral para chamar de seu, que, munido apenas de algumas vozes e mãos, tem ressoado por salas de aula e bailes no país inteiro. ■
Publicado em VEJA São Paulo de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014






