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Terapeuta analítico-comportamental e mestre em Neurociências e Comportamento pela USP, Cheixas propõe usar a psicologia na abordagem de temas relevantes sobre a vida na metrópole.

Não existe “dar um tempo” no relacionamento

Quando um casal que não está bem opta por se afastar para salvar o relacionamento, comete um equívoco

Por Carolina Giovanelli 11 nov 2016, 14h24 | Atualizado em 4 mar 2017, 16h47
1996 DAVID SCHWIMMER AND JENNIFER ANISTON OF THE TV HIT SERIES “FRIENDS”
Ross e Rachel, de Friends: casal famoso por “dar um tempo” na série (/)
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Vou aqui na contramão do que dizem o senso comum e mesmo alguns articulistas. Quando um casal que não está bem opta por se afastar para salvar o relacionamento, comete um equívoco.

A razão imediata porque alguém pede um tempo ao parceiro é porque ao menos quem pediu o tempo não está satisfeito com o vínculo. Na maioria das vezes, ambos estão insatisfeitos.

Se apenas um está insatisfeito a ponto de querer se afastar é porque (já) não gosta do outro. Nesse caso, o encaminhamento correto é terminar o vínculo. Simples assim, por mais difícil que seja dizer isso a alguém. Pedir um tempo nesse cenário é como quando os pais dizem para a criança que “na volta a gente compra”, já sabendo que isso não vai acontecer. Não é honesto e só fará quebrar a confiança e amplificar a mágoa.

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Quando ambos estão insatisfeitos, há apenas dois caminhos possíveis para a resolução: mudar juntos o que for preciso ou terminar. Conversar e mudar dá trabalho. Expor ao outro o que incomoda gera tensão por despertar sentimentos nos dois, mas é o único caminho para a superação das dificuldades.

O namoro (casamento etc) envolve duas pessoas autônomas compartilhando uma relação, ou seja, mesmo mantendo a autonomia de cada um, há uma unidade que é o casal. Quando um casal dá um tempo, perde-se a unidade. A dissolução da unidade significa que o vínculo terminou.

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Se pudéssemos passar as frases típicas de quando se pede um tempo por uma máquina “sincerizante”, descobriríamos que:

1. “Preciso de um tempo para entender se é isso mesmo que eu quero pra mim” significa “Vou ali ver se eu consigo pegar alguém mais legal que você e, se não rolar e se eu não tiver nada interessante pra fazer, se pá eu até volto...”

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2. “Acho que esse tempo será bom pra nós dois” significa “Não tenho coragem de dizer que não quero mais estar com você. Então vou sair de fininho”.

O verbo “voltar”

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Dar um tempo só faria sentido se não houvesse dúvidas em relação à continuidade do vínculo. As férias, por exemplo, significam dar um tempo do trabalho, porque você sabe o dia e a hora quando retomará seu posto. Quer dizer, o vínculo não se rompeu.

Alguém pode alertar para o fato de que “muitos casais voltam depois de dar um tempo”. O que acontece é que não atentamos para o verbo “voltar”. Isso quer dizer que houve de fato um rompimento e que o casal poderia voltar ou não. Quando há um rompimento, está cada um por si. Você pode pedir um tempo e, depois de semanas ou meses, decidir que quer voltar. O ponto é que você não sabe o que encontrará na outra pessoa. Poderá ter sido tarde e o outro pode não querer mais nada com você.

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A questão central é que não há diferença entre terminar e dar um tempo a não ser o eufemismo da expressão que suaviza artificialmente o impacto da decisão tomada.

Não é possível resolver sozinho o que diz respeito a duas pessoas. O que você resolve sozinho só resolve sua questão, nunca a questão da relação. O caminho adequado para quem quer que o relacionamento dê certo continua sendo o diálogo. Dá trabalho… Mas é o que garante a autenticidade do vínculo.

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