Presente de Natal cultural
Cidade plenamente ocupada pela arte seria muito mais segura e melhor para se viver
Neste tempo em que todas as pesquisas de opinião apontam a segurança pública como a principal preocupação dos paulistanos e dos brasileiros em geral, se esta coluna tivesse um pedido de Natal a fazer, ele seria uma consistente ocupação cultural da cidade.
Há inúmeros exemplos que demonstram como a arte transforma o espaço urbano. Ruas, praças e centros antes esvaziados tornam-se espaços públicos mais humanos, mais coloridos, mais diversos e, sobretudo, mais seguros.
A presença de pessoas circulando, flanando, convivendo e celebrando cria a percepção de que aquele território está vivo, habitado e protegido pelo uso coletivo. Hoje vivemos um meio termo frustrante. Alguns até compreendem a cultura como instrumento de transformação urbana mas não conseguem promover a ação cultural em sua plenitude.
Ainda há uma forte resistência, que insiste em enxergar a cultura não como aliada, mas como problema. Em nome de uma ideia ultrapassada de segurança, restringem atividades públicas, impõem limitações que afastam as pessoas do espaço público.
Quando optamos por uma cidade mais acolhedora, com mais convivência os resultados são evidentes. O Programa Ruas Abertas, por exemplo, sucesso desde sua instituição no inicio em 2015, é uma prova permanente desse conceito que deveria ser expandido e não reprimido.
Basta analisar o que ocorre em locais como a Avenida Paulista, Minhocão e Liberdade. As Viradas Culturais marcantes foram momentos inesquecíveis de redescobrimento da nossa cidade, com surpresas belas em cada esquina.
O MAR – Museu de Arte de Rua embelezou e ressignificou a paisagem urbana com os grandes painéis de graffiti. A Jornada do Patrimônio já fez da preservação histórica uma festa nas ruas, com bonitos cortejos arrastando multidões.
Antes, no inicio dos anos 2000, era tempo do festival Agosto Negro de Hip Hop, do Love Por São Paulo de Música eletrônica, do Rock Cidadania, da Semana Jovem que abrangiam toda a cidade — das periferias ao centro.
O Carnaval de rua, símbolo maior e impulsionador da retomada da ocupação cultural de São Paulo no inicio dos anos 2010 — que apresentou ao mundo uma cidade muito diferente do estereótipo da violência e do medo — permanece robusto pela força dos seus blocos, mas sofre com as limitações de horários e as dificuldades das manifestações comunitárias e espontâneas.
Todos os bairros de São Paulo merecem acesso permanente e gratuito ao conteúdo cultural e criativo que esta incrível metropole é capaz de gerar. Queremos que o Papai Noel nos traga um calendário cultural integrado, que articule iniciativas públicas e privadas, colocando a economia criativa no eixo central do nosso desenvolvimento, potencializando a cidade que tem a melhor noite do mundo e um incrível e atuante empreendedorismo criativo.
O presente sonhado pela nossa Movida Paulistana é uma São Paulo ocupada pela cultura e pela arte o tempo todo. Uma cidade mais humana, mais bonita, mais diversa e, justamente por isso, muito mais segura e melhor para se viver. Feliz Natal!





