O triste abandono do Beco do Batman
Quando uma cidade deixa de cuidar até daquilo que é consenso, o problema é maior do que uma divergência sobre política cultural
O triste estado do Beco do Batman talvez seja uma das imagens mais simbólicas do momento que São Paulo está vivendo. Trata-se de um dos pontos turísticos mais conhecidos da cidade, celebrado há décadas, frequentado por brasileiros e estrangeiros e reconhecido internacionalmente como uma verdadeira galeria a céu aberto da nossa arte urbana.
Desde os anos 1980, quando os primeiros desenhos começaram a ocupar seus muros, com trabalhos precursores de artistas como Alex Vallauri, Mauricio Villaça e do coletivo Tupinãodá, formado à época por Zé Carratu, Jaime Prades, Rui Amaral, Carlos Delfino e Ciro Cozzolino, o Beco se transformou num território de encontro entre diferentes gerações e vertentes do grafite. Tornou-se parte da identidade da Vila Madalena e, principalmente, uma demonstração concreta de como São Paulo transforma a rua em espaço de criação.
Em torno dele surgiram bares, restaurantes, comércio, turismo e uma economia inteira movimentada pela cultura. O Beco é uma criação genuinamente paulistana e, apesar das idas e vindas conservadoras da metrópole, sempre foi motivo de orgulho para a cidade. Ali, uma placa azul de Memória Paulistana, que tive a honra de inaugurar ao lado do saudoso Gilberto Dimenstein, atesta todo seu simbolismo e história.
É justamente por isso que seu abandono causa tanta perplexidade. O jardim de chuva implantado para ajudar a enfrentar os históricos alagamentos foi danificado, há trechos deteriorados, buracos, pavimento irregular, cones e áreas improvisadamente interditadas. A situação amplia uma reflexão que venho fazendo nesta coluna. Nos últimos meses vimos espaços culturais, teatros, festas, manifestações de rua e instituições sofrendo com decisões equivocadas ou com a ausência de diálogo do poder público. Mas, no caso do Beco, sequer é possível atribuir o abandono à indecente perseguição ideológica que vem atingindo parte da cultura paulistana. O Beco do Batman não é um espaço de disputa dessa natureza.
Será que o desleixo tem alguma relação com o fato de que ali não se pode simplesmente construir mais um prédio, já que o Rio Verde corre canalizado sob o Beco, e portanto o território não desperta o mesmo interesse de uma cidade cada vez mais submetida à lógica da especulação imobiliária? Ou será simplesmente a incapacidade de compreender o valor da própria cidade?
O Beco atravessa governos, partidos e diferentes visões. É patrimônio afetivo, atração turística, economia criativa e cartão-postal. Quando uma cidade deixa de cuidar até daquilo sobre o que existe amplo consenso, o problema é maior do que uma divergência sobre política cultural. São Paulo construiu sua força porque permitiu que manifestações surgidas espontaneamente nas ruas se transformassem em símbolos reconhecidos pelo mundo. O Beco do Batman é uma delas. Deixá-lo chegar a esse estado significa abandonar não apenas algumas ruas da Vila Madalena, mas descuidar de uma parte daquilo que fez São Paulo ser São Paulo.
Dedico esta coluna à memória de Tito Bertolucci, fundador da galeria Alma da Rua, um dos maiores defensores da arte urbana da cidade.






