‘Dolores’: a realidade encontra o sonho à procura da felicidade
Filme de Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar narra a história de três mulheres de uma família que buscam realizar desejos
Há uma profunda busca pela felicidade em Dolores. O filme de Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar reúne três mulheres à procura de algo maior para a vida. Em momentos de transição, elas andam por rotas de encontro e desencontro com o outro e consigo mesmas. O que predomina é a ação. São protagonistas determinadas.
Entusiasta de bingos, Dolores (Carla Ribas) quer abrir um cassino no Centro de São Paulo. No dia do aniversário de 66 anos, ela tem uma visão de que sua vida irá mudar com esse negócio. Decide vender a casa para realizar o sonho, mas precisa da assinatura da filha, Débora (Naruna Costa), que não aprova as atitudes da mãe.
A neta, Duda (Ariane Aparecida), e a melhor amiga da protagonista, Silvia (Gilda Nomacce), servem como intermediárias, cada uma com as próprias questões. A primeira trabalha em um estande de tiro e sonha em se mudar para os Estados Unidos e a segunda lida com as dores de ter uma amante encarcerada.
As atuações de todo o elenco são delicadamente construídas. Há uma beleza no retrato das diferentes gerações e de como elas se conectam entre as contradições. Por meio da fotografia, montagem e trilha sonora, a noção do sonho transborda a tela do início ao fim.
Esbarra até mesmo numa noção existencial, de tomar atitude, por não se satisfazer com a falta de recursos no mundo à volta, e enxergar uma vida diferente para si. As fronteiras entre real e onírico se desmancham, enquanto somos conduzidos para uma realização total do ser.
NOTA: ★★★★☆
Entrevista com diretores e elenco
O filme nasceu da amizade e parceria entre Marcelo Gomes e o roteirista Chico Teixeira (1958-2019). “A gente queria construir uma personagem com contradições, dilemas, sem fazer nenhum julgamento moral”, conta o diretor. “A Dolores está tentando reconstruir afetos”.
O roteiro iniciado por Teixeira parou nas mãos de Gomes, que convidou Maria Clara Escobar para codirigir e pensar nessas personagens nos dias de hoje. “Meu olhar voltou-se para mulheres no estado de trânsito, em movimento, tudo menos fixadas. O cinema costuma nos fixar em um só lugar”, diz a cineasta.
Para os dois, o longa toca em diversos temas: o conceito de liberdade, o campo do sonho e o modo como as gerações se relacionam com a falta de recursos. “Descobrimos que o coração do filme era entender o que a gente pode ser como indivíduo. As pessoas se conectam por meio das contradições”, ela acrescenta.
A atmosfera do sonho foi intrínseca ao projeto, sendo explorada por meio do figurino com paetês, a fotografia e a montagem. Como resultado, os diretores ouviram do público o comentário de que se trata do “primeiro filme em que o glitter é personagem”.
As três atrizes principais também tiveram uma relação profunda com a narrativa. “A inspiração com relação a acreditar no sonho remete a minha própria história, na carreira de atriz”, afirma Carla Ribas. “Meu primeiro curso de teatro foi com 35 anos. Apostei todas as fichas. Sabia que era o meu caminho”.
Para Ariane Aparecida, o feminino ficou em destaque. “Quando recebi o teste, pensei nas mulheres da minha família, que é muito feminina”, relata.
Naruna Costa ressalta a questão do sonho: “O filme traz um ‘esperançar’, uma possibilidade de sonhar sem perspectiva exata de conquista. São três mulheres com relações complexas, mas se compreendem no lugar do sonho, se respeitam porque é necessário sonhar”.
Publicado em VEJA São Paulo de 5 de junho de 2026, edição nº 2998





