‘Criadas’ propõe reflexão profunda sobre racismo e fardos geracionais
Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti interpretam primas cujas mães tiveram relação difícil envolvendo empregada doméstica e patroa
Vencedor do prêmio do público na Mostra de Cinema de São Paulo no ano passado, Criadas se propõe a fazer uma análise e uma reflexão complexas. A diretora Carol Rodrigues trata de um assunto urgente e em constante transformação.
A trama acompanha Sandra (Mawusi Tulani), uma engenheira civil que retorna a São Paulo, à casa onde cresceu, em busca de uma fotografia da mãe falecida, que trabalhou como empregada doméstica residente para a família da prima, Mariana (Ana Flavia Cavalcanti). O reencontro desperta gatilhos e fardos geracionais à medida que elas navegam por tentativas de crescimento profissional, estigmas, situações de racismo e paixões.
Mesmo em idade adulta, é como se estivessem reavaliando e julgando quem são e no que acreditam diante do que havia sido ensinado pelas mães. A percepção sobre as dinâmicas de poder e racismo, que já esbarrava em questões de colorismo, ganha mais uma nuance com a personagem Raquel (Rudimira Fula), empregada doméstica atual de Mariana, que valoriza o trabalho e não se identifica com peso carregado pelas primas.
Os fantasmas do passado são uma grande fronteira final entre as dores e batalhas que lhe pertencem ou não. O elenco realizou um exercício difícil de repassar vivências difíceis, para além de entregar performances concisas, para acompanhar a visão da diretora.
NOTA: ★★★☆☆
Entrevista com diretora e atrizes
Realizar o filme foi um mergulho profundo nas vivências da diretora e das atrizes. Carol Rodrigues partiu de uma história vivida por ela na própria família. A avó experimentou uma ascensão social ao entrar no serviço público e chamou primas para trabalhar como empregada doméstica. “Sempre foi uma coisa muito esquisita, com relação aos limites entre trabalho e família”, ela conta.
A partir dessa fagulha, desenvolveu uma engrenagem para a história. “Me interessava entender como a gente se define pela violência e como encontra caminhos de afeto e amor por meio da violência. Pode parecer que só há o caminho da separação, mas meu desejo era propor conversas e pensar sobre conciliações”.
A atriz Mawusi Tulani, intérprete da Sandra, identificou-se pessoalmente com a personagem. “Ela é muito obstinada, meus desejos se assemelham aos dela, no sentido de ‘querer chegar lá, tenho um sonho e nada vai me parar’”, analisa. “No caminho, percebemos que não é assim. Vejo hoje que ainda tem coisas que me rasgam, me ferem”.
Ana Flavia Cavalcanti afirma ter sido muito feliz com a realização do projeto, mesmo com as questões fortes e que possivelmente poderiam despertar traumas e gatilhos. “É um filme de muita quina, a gente se desencontra muito até se encontrar. Isso passa pelo nosso corpo”, relata a atriz. Para isso, houve uma preparação de elenco intensa e uma transparência da produção para que toda a equipe se sentisse confortável e segura.
“Foi muito sensível, muito bonita, essa reunião de mulheres pretas, para falar sobre coisas que a gente às vezes não tem tempo e espaço para fazer”, acrescenta Mawusi.
Publicado em VEJA São Paulo de 12 de junho de 2026, edição nº 2999





