‘Copan’: uma espiada na rotina de moradores e nas reuniões de condomínio
Documentário de Carine Wallauer age como mosca para apresentar cotidiano no icônico edifício de Oscar Niemeyer no coração de São Paulo
Fazer um filme sobre um dos edifícios mais emblemáticos de São Paulo não é uma tarefa fácil. Copan, de Carine Wallauer, tenta dar conta da dimensão da construção projetada por Oscar Niemeyer no coração da capital paulista. O longa, premiado no festival É Tudo Verdade, começa com um relato pessoal da diretora, que realizou um sonho e morou por anos no prédio. É, porém, o único momento pessoal — e até deixa perguntas em aberto.
Nos 90 minutos seguintes, a câmera age como mosca para mostrar a estrutura na paisagem urbana, a arquitetura marcante, com curvas e brises, a rotina e personalidade dos moradores e da equipe de funcionários e as reuniões de condomínio tensas e cheias de discussão. Lá moram pessoas como o DJ KL Jay, um mágico ilusionista e uma criadora de conteúdo para plataformas adultas. Não são feitas entrevistas, apenas captados recortes rápidos de um dia ou uma noite em seus apartamentos.
Essa abordagem é interessante, para sair do formato comum, que ficaria cansativo e lembraria muito o clássico Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho. Porém, a proposta acaba perdendo a força entre as imagens contemplativas, que ficam vazias e repetitivas. A tensão se dispersa, há uma quebra recorrente e os momentos de bom humor não são aproveitados.
O longa não explora os inúmeros atributos que diferenciam o Edifício Copan de outros, como o histórico de moradores, a localização, o contexto do entorno, as supostas assombrações e muito mais — afinal, vizinhos existem em todos os prédios.
O foco do conteúdo recai na administração do síndico Affonso Celso Prazeres de Oliveira, que ficou por mais de 30 anos no cargo e morreu no dia 21 de dezembro de 2025, aos 86 anos, vítima de uma pneumonia — notícia que chegou depois da finalização do filme. A reeleição para mais um mandato ocorre em paralelo às eleições presidenciais de 2022 — intencionais ou não, há comparações incoerentes.
Destaca-se pela câmera espiã no cotidiano das pessoas, uma pequena brecha de como é morar num cartão-postal da cidade.
NOTA: ★★★☆☆
Publicado em VEJA São Paulo de 29 de maio de 2026, edição nº 2997





