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Vinho e Algo Mais

Por Por Marcelo Copello Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Especialista na bebida, Marcelo Copello foi colunista de Veja Rio. Sua longa trajetória como escritor do tema inclui publicações como a extinta Gazeta Mercantil e livros, entre eles "Vinho e Algo Mais" e "Os Sabores do Douro e do Minho", pelo qual concorreu ao prêmio Jabuti

A ascensão dos chamados tintos de geladeira

Em São Paulo, com termômetros teimando em encostar nos 30º até no recém-terminado inverno, opções como essas se tornam alternativas refrescantes

Por Marcelo Copello 2 out 2026, 08h00
Uma mão derrama vinho tinto de uma garrafa escura em uma taça de cristal, formando espuma. O fundo desfocado mostra garrafas e luzes de um bar
Tintos de geladeira: em ascensão  (Magnific/Divulgação)
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“Sirva o tinto em temperatura ambiente.” Poucas frases foram tão repetidas, e tão mal compreendidas na história do vinho. O conselho nasceu nos salões da Europa do século 19, onde ambiente significava 16 ou 17 graus.

Em São Paulo, com termômetros teimando em encostar nos 30 até no recém-terminado inverno, segui-lo à risca é servir sopa. Daí a ascensão dos chamados tintos de geladeira, que os franceses batizaram de vins de soif, vinhos de sede. Por aqui a expressão equivalente seria “glu glu”, para vinhos fáceis de beber em geral.

O tema aqui são os tintos leves, de taninos discretos, acidez viva e pouca ou nenhuma madeira, feitos para consumir entre 10 e 14 graus. Não pedem decantador nem longas esperas em adega. Pedem sede. A física explica. O frio realça o frescor e a fruta, mas endurece os taninos. Um cabernet sauvignon robusto, gelado, fica amargo e anguloso, um atleta de pernas travadas. Quase sem taninos, um gamay sai da geladeira em plena forma, com sua fruta vermelha crocante intacta.

Cada país tem seu representante na turma. Na França, o patriarca é a gamay do Beaujolais, leve e perfumada. A Itália responde com a frappato da Sicília, floral e salino. O Chile resgatou a país, uva de videiras centenárias do vale do Itata, hoje queridinha dos sommeliers.

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Na Argentina, a bonarda que dormia à sombra da malbec vive segunda juventude em Mendoza. Portugal oferece a castelão da Península de Setúbal, que dá líquidos macios e frutados. A Espanha entra com a mencía do Bierzo, fragrante e fresca. E o Brasil surpreende com gamay e pinot noir da Campanha Gaúcha, que colecionam prêmios lá fora.

Não se trata de modismo isolado. A OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) registra consumo mundial em queda, mas o que se bebe migra para estilos mais leves e frescos. A geração que chega agora ao vinho quer menos álcool, menos peso, mais prazer imediato. O tinto de geladeira responde a tudo isso sem abrir mão do que faz um tinto ser tinto.

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Na mesa, esses vinhos são coringas: peixes grelhados, pizza, macarronada, hambúrguer e até a feijoada de sábado agradece o contraste. Trinta minutos de geladeira antes de servir bastam. Na dúvida, gele um pouco mais, a taça esquenta rápido nas mãos e no clima daqui.

Confesso que, no auge do calor, até bons tintos de guarda já visitaram meu balde de gelo. Nenhum reclamou. “Temperatura ambiente” continua valendo como regra. Só que o ambiente mudou. O vinho que mora nele também.

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Duas garrafas de vinho tinto em fundo branco. À esquerda, vinho Feliza com rótulo branco e ilustração de uma casa antiga. À direita, vinho Las Alturas Red Blend 2023 com rótulo colorido e design geométrico
Sugestão de tintos de geladeira (Reprodução/Divulgação)

Feliza Tinto

Do Produtor Vinos Y Bodegas de Castilla-La Mancha na Espanha. Elaborado com mistura de safras das castas tempranillo, bobal e garnacha, sem passagem por madeira. Vermelho rubi, com reflexos granada. Aroma de frutas vermelhas e silvestres. Paladar leve, com acidez moderada e taninos macios. Pronto. Servir refrescado. R$ 74,90, na Evino.

Las Alturas Red Blend 2025

Da vinícola Viña Casa Solís, feito com as castas carménère (40%), syrah (40%), malbec (20%), do Vale Central, no Chile, sem passagem por madeira. Cor rubi escura. Aroma de frutas vermelhas e negras, com notas predominantemente herbáceas. Paladar leve, meio-seco, acidez e taninos moderados. Servir refrescado. R$ 35,18, na Wine.

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Publicado em VEJA São Paulo de 02 de outubro de 2026, edição nº 3015.

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