A ascensão dos chamados tintos de geladeira
Em São Paulo, com termômetros teimando em encostar nos 30º até no recém-terminado inverno, opções como essas se tornam alternativas refrescantes
“Sirva o tinto em temperatura ambiente.” Poucas frases foram tão repetidas, e tão mal compreendidas na história do vinho. O conselho nasceu nos salões da Europa do século 19, onde ambiente significava 16 ou 17 graus.
Em São Paulo, com termômetros teimando em encostar nos 30 até no recém-terminado inverno, segui-lo à risca é servir sopa. Daí a ascensão dos chamados tintos de geladeira, que os franceses batizaram de vins de soif, vinhos de sede. Por aqui a expressão equivalente seria “glu glu”, para vinhos fáceis de beber em geral.
O tema aqui são os tintos leves, de taninos discretos, acidez viva e pouca ou nenhuma madeira, feitos para consumir entre 10 e 14 graus. Não pedem decantador nem longas esperas em adega. Pedem sede. A física explica. O frio realça o frescor e a fruta, mas endurece os taninos. Um cabernet sauvignon robusto, gelado, fica amargo e anguloso, um atleta de pernas travadas. Quase sem taninos, um gamay sai da geladeira em plena forma, com sua fruta vermelha crocante intacta.
Cada país tem seu representante na turma. Na França, o patriarca é a gamay do Beaujolais, leve e perfumada. A Itália responde com a frappato da Sicília, floral e salino. O Chile resgatou a país, uva de videiras centenárias do vale do Itata, hoje queridinha dos sommeliers.
Na Argentina, a bonarda que dormia à sombra da malbec vive segunda juventude em Mendoza. Portugal oferece a castelão da Península de Setúbal, que dá líquidos macios e frutados. A Espanha entra com a mencía do Bierzo, fragrante e fresca. E o Brasil surpreende com gamay e pinot noir da Campanha Gaúcha, que colecionam prêmios lá fora.
Não se trata de modismo isolado. A OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) registra consumo mundial em queda, mas o que se bebe migra para estilos mais leves e frescos. A geração que chega agora ao vinho quer menos álcool, menos peso, mais prazer imediato. O tinto de geladeira responde a tudo isso sem abrir mão do que faz um tinto ser tinto.
Na mesa, esses vinhos são coringas: peixes grelhados, pizza, macarronada, hambúrguer e até a feijoada de sábado agradece o contraste. Trinta minutos de geladeira antes de servir bastam. Na dúvida, gele um pouco mais, a taça esquenta rápido nas mãos e no clima daqui.
Confesso que, no auge do calor, até bons tintos de guarda já visitaram meu balde de gelo. Nenhum reclamou. “Temperatura ambiente” continua valendo como regra. Só que o ambiente mudou. O vinho que mora nele também.
Feliza Tinto
Do Produtor Vinos Y Bodegas de Castilla-La Mancha na Espanha. Elaborado com mistura de safras das castas tempranillo, bobal e garnacha, sem passagem por madeira. Vermelho rubi, com reflexos granada. Aroma de frutas vermelhas e silvestres. Paladar leve, com acidez moderada e taninos macios. Pronto. Servir refrescado. R$ 74,90, na Evino.
Las Alturas Red Blend 2025
Da vinícola Viña Casa Solís, feito com as castas carménère (40%), syrah (40%), malbec (20%), do Vale Central, no Chile, sem passagem por madeira. Cor rubi escura. Aroma de frutas vermelhas e negras, com notas predominantemente herbáceas. Paladar leve, meio-seco, acidez e taninos moderados. Servir refrescado. R$ 35,18, na Wine.
Publicado em VEJA São Paulo de 02 de outubro de 2026, edição nº 3015.
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