Conheça rótulos que o público ama e os críticos desprezam
Do suave de mesa ao lambrusco, rótulos rejeitados pelos especialistas provam que prazer e prestígio nem sempre andam na mesma taça
Todo crítico de vinhos guarda uma lista secreta de prazeres que não confessa. E todo consumidor tem um favorito que algum especialista já olhou torto. Talvez seja isso que, de alguma forma, una especialistas e fãs, já que o paladar de quem bebe sabe de algo que o esnobismo esqueceu.
Comece pelo campeão de vendas do país: o suave de mesa. Doce, feito de uva americana, fora da vitis vinifera que define o vinho clássico. Responde por mais de 80% do vinho bebido no Brasil, e ainda assim raríssimos críticos admitem ter um na adega.
Na técnica, não é, a rigor, a mesma bebida. Mas é a porta de entrada de milhões de brasileiros, e torcer o nariz para isso é esquecer que todos nós entramos por alguma. Foi meu caso: meu primeiro vinho foi de garrafão.
Há, porém, casos em que o desprezo é puro preconceito. O pinot grigio industrial virou sinônimo de vinho sem graça, e poucos lembram que, no Friuli ou na Alsácia, a mesma uva ganha tensão e mineralidade. O prosecco apanha por não ser champanhe, como se a alegria precisasse de licença para borbulhar.
O carménère e o malbec de entrada são acusados de monótonos, quando cumprem com louvor o papel para o qual nasceram: dar prazer sem exigir reverência.
Existe ainda um terceiro grupo, talvez o mais injusto, o vinho cuja versão barata envenenou a reputação da boa. O lambrusco, traumatizado pelo doce industrial dos anos 70, renasce hoje seco e artesanal, e voltou às cartas dos restaurantes mais antenados.
O liebfraumilch alemão, açucarado e vendido às toneladas na década de 80, sepultou por uma geração inteira a imagem do riesling sério, hoje reabilitado entre os grandes brancos do mundo. E o primitivo di Manduria, opulento e alcoólico, é descartado como “molho” por quem confunde generosidade com falta de classe.
O espumante moscatel merece um capítulo à parte. Floral, doce, de baixo álcool, é tratado com condescendência, embora seja um dos pontos mais altos da técnica brasileira, premiado lá fora enquanto esnobamos por aqui.
O público acertou antes do crítico, e siga acertando taça após taça. Talvez seja hora de inverter a pergunta. Em vez de “por que tanta gente bebe isso?”, o melhor seria perguntar o que essa gente percebe que os especialistas, de tanto analisar, deixaram de sentir.
O vinho serve ao prazer antes de servir ao discurso. E o paladar do público, esse velho sábio, raramente se engana sobre o essencial: a primeira função de uma taça é dar gosto à vida. O resto é conversa de quem já bebeu.
Frisante Botticello lambrusco I.G.T. Dellemilia Rosso Amabile
Da vinícola Medici Ermete Wines, da Emilia-Romagna, na itália. Elaborado com 100% uvas lambrusco. Cor rubi. Aroma de frutas vermelhas, como morango e framboesa. Paladar frisante (com algum gás), adocicado, com apenas 8% de álcool. R$ 44,59, na Wine
Famiglia Rocca Collezione Oro Primitivo di Manduria doc 2024
Do produtor Angelo Rocca & Figli, da Puglia. Feito com 100% primitivo, com passagem por barricas de carvalho da eslavônia. Rubi escuro. Aroma de frutas negras muito maduras. Paladar de bom corpo, com taninos macios, acidez moderada e açúcar aparente, com 14,5% de álcool. R$ 209,90, na Evino.
Publicado em VEJA São Paulo de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011.
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