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Vinho e Algo Mais

Por Por Marcelo Copello Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Especialista na bebida, Marcelo Copello foi colunista de Veja Rio. Sua longa trajetória como escritor do tema inclui publicações como a extinta Gazeta Mercantil e livros, entre eles "Vinho e Algo Mais" e "Os Sabores do Douro e do Minho", pelo qual concorreu ao prêmio Jabuti

Conheça rótulos que o público ama e os críticos desprezam

Do suave de mesa ao lambrusco, rótulos rejeitados pelos especialistas provam que prazer e prestígio nem sempre andam na mesma taça

Por Marcelo Copello 4 set 2026, 11h30 | Atualizado em 4 set 2026, 11h57
Homem barbudo, vestindo camisa escura, segura e lê o rótulo de uma garrafa de vinho branco em um corredor de supermercado, com prateleiras cheias de bebidas ao fundo
Vinhos que o público ama: críticos detestam (Magnific/Divulgação)
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Todo crítico de vinhos guarda uma lista secreta de prazeres que não confessa. E todo consumidor tem um favorito que algum especialista já olhou torto. Talvez seja isso que, de alguma forma, una especialistas e fãs, já que o paladar de quem bebe sabe de algo que o esnobismo esqueceu.

Comece pelo campeão de vendas do país: o suave de mesa. Doce, feito de uva americana, fora da vitis vinifera que define o vinho clássico. Responde por mais de 80% do vinho bebido no Brasil, e ainda assim raríssimos críticos admitem ter um na adega.

Na técnica, não é, a rigor, a mesma bebida. Mas é a porta de entrada de milhões de brasileiros, e torcer o nariz para isso é esquecer que todos nós entramos por alguma. Foi meu caso: meu primeiro vinho foi de garrafão.

Há, porém, casos em que o desprezo é puro preconceito. O pinot grigio industrial virou sinônimo de vinho sem graça, e poucos lembram que, no Friuli ou na Alsácia, a mesma uva ganha tensão e mineralidade. O prosecco apanha por não ser champanhe, como se a alegria precisasse de licença para borbulhar.

O carménère e o malbec de entrada são acusados de monótonos, quando cumprem com louvor o papel para o qual nasceram: dar prazer sem exigir reverência.

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Existe ainda um terceiro grupo, talvez o mais injusto, o vinho cuja versão barata envenenou a reputação da boa. O lambrusco, traumatizado pelo doce industrial dos anos 70, renasce hoje seco e artesanal, e voltou às cartas dos restaurantes mais antenados.

O liebfraumilch alemão, açucarado e vendido às toneladas na década de 80, sepultou por uma geração inteira a imagem do riesling sério, hoje reabilitado entre os grandes brancos do mundo. E o primitivo di Manduria, opulento e alcoólico, é descartado como “molho” por quem confunde generosidade com falta de classe.

O espumante moscatel merece um capítulo à parte. Floral, doce, de baixo álcool, é tratado com condescendência, embora seja um dos pontos mais altos da técnica brasileira, premiado lá fora enquanto esnobamos por aqui.

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O público acertou antes do crítico, e siga acertando taça após taça. Talvez seja hora de inverter a pergunta. Em vez de “por que tanta gente bebe isso?”, o melhor seria perguntar o que essa gente percebe que os especialistas, de tanto analisar, deixaram de sentir.

O vinho serve ao prazer antes de servir ao discurso. E o paladar do público, esse velho sábio, raramente se engana sobre o essencial: a primeira função de uma taça é dar gosto à vida. O resto é conversa de quem já bebeu.

Frisante Botticello lambrusco I.G.T. Dellemilia Rosso Amabile

Garrafa de vinho Botticello Lambrusco DellEmilia Rosso Amabile, com rótulo preto, letras brancas e detalhes em azul e dourado. A garrafa é escura, com gargalo fino e rolha de cortiça presa por uma gaiola de arame dourado
Frisante Botticello lambrusco I.G.T. Dellemilia Rosso Amabile (Divulgação/Divulgação)
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Da vinícola Medici Ermete Wines, da Emilia-Romagna, na itália. Elaborado com 100% uvas lambrusco. Cor rubi. Aroma de frutas vermelhas, como morango e framboesa. Paladar frisante (com algum gás), adocicado, com apenas 8% de álcool. R$ 44,59, na Wine

Famiglia Rocca Collezione Oro Primitivo di Manduria doc 2024

Garrafa de vinho tinto Famiglia Rocca Primitivo di Manduria D.O.C. com rótulo dourado e detalhes em preto, e selo de garantia na tampa dourada
Famiglia Rocca Collezione Oro Primitivo di Manduria doc 2024 (Divulgação/Divulgação)

Do produtor Angelo Rocca & Figli, da Puglia. Feito com 100% primitivo, com passagem por barricas de carvalho da eslavônia. Rubi escuro. Aroma de frutas negras muito maduras. Paladar de bom corpo, com taninos macios, acidez moderada e açúcar aparente, com 14,5% de álcool. R$ 209,90, na Evino.

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Publicado em VEJA São Paulo de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011.

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