O livro sobre neandertais que conquistou Bial e Gregório Duvivier
'Os Imortais', de Paulliny Tort, chegou à quinta reimpressão poucos meses após o lançamento; autora participa de bate-papo com Zélia Duncan em SP
Em março deste ano, uma autora de nome curioso, que não publicava um livro havia cinco anos, levou às livrarias uma obra bem diferente do que costuma aparecer nas estantes brasileiras. E bastaram algumas semanas para que Os Imortais (Fósforo; 232 págs. ; R$ 84,90), de Paulliny Tort, ganhasse o coração de celebridades como Pedro Bial, Gregório Duvivier e virasse leitura indispensável nos clubes do livro — tanto que, em agosto, já estava em sua quinta reimpressão.
O romance escolhe como personagens principais um grupo de neandertais, que atravessa vastos territórios em busca de sobrevivência. Depois de um confronto sangrento com um grupo de Homo sapiens, o clã decide adotar uma criança sapiens.
Ambientar um romance no Paleolítico está longe de ser uma escolha convencional na ficção histórica, mas o caminho surgiu de maneira natural para Tort, que cultiva há anos um interesse pela natureza e pela evolução humana — ela foi estudante de Oceanologia, Ciências Biológicas e Engenharia Florestal. A seguir, confira uma conversa com a autora, nascida em Brasília em 1979, que, na segunda (21), fará um bate-papo com Zélia Duncan na Livraria da Travessa de Pinheiros.
Livraria da Travessa. Bate-papo Paulliny Tort e Zélia Duncan. Rua dos Pinheiros, 513, Pinheiros,☎ 2394-6059. Seg. (21), 19h
Você esperava que o livro fosse causar tamanha repercussão?
Escrevo muito para os personagens, para que eles tenham uma forma de existência. Durante o meu processo, não penso tanto nos leitores. Não fiz cálculos de como seria a recepção, só queria poder contar essa história da melhor forma possível.
Como foi o processo criativo durante os cinco anos de escrita do livro?
Minha rotina de escrita é a da entrega total. Escrevi a primeira versão em 2021 e aí, ao longo dos anos, continuei no texto e fui conhecendo mais aqueles personagens, ganhando intimidade com eles e descobrindo também seus destinos. Não faço planejamento prévio, me permito descobrir o que vai acontecer com eles enquanto escrevo. Nesses anos, houve momentos de muita paixão, de muita obsessão e de muito trabalho. Chegava a passar 16 horas seguidas escrevendo.
Os Imortais mistura poesia com uma certa crueza. Como foi o caminho até encontrar essa linguagem?
Durante a escrita, evitei ler autores brasileiros, porque acho que a dicção deles influencia o meu ritmo. Então li os portugueses e li muita coisa antiga, Virgílio, Homero, Ésquilo… Li bastante poesia também. Deixo sempre livros de poesia espalhados pela casa para consulta. Também ouvi músicas minimalistas e com sons estranhos, como a música eletroacústica de Joanna Brouk (compositora e dramaturga norte-americana; 1949-2017). Procuro seguir um pouco o fluxo dessa voz interna, sem pensar tanto na forma. É mais intuitivo, não tem um cálculo técnico de como achar isso.
Como trabalhar a verossimilhança sem se propor a fazer uma descrição perfeita daquele período?
O livro não é uma tese sobre como viviam os neandertais, então não tem um compromisso com o rigor científico, de maneira alguma. É uma imaginação sobre um tempo. E imagino dentro de possibilidades aventadas sobre os neandertais. A evolução e a natureza são temas que me acompanham há quase três décadas, então eu tinha esse pano de fundo já. O interessante da ficção é que a gente pode imaginar de uma maneira que a ciência não poderia jamais. E que bom que não pode, porque não é o papel dela.
Publicado em VEJA São Paulo de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013.






