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Sabina Deweik é jornalista, futurista e caçadora de tendências. Ela dedica-se a rastrear, ler e digerir o futuro, conhecimento que divide em palestras, workshops, capacitações e em sua coluna todas as segundas-feiras

Storytelling: a arte de ser lanterna no escuro

A vantagem competitiva mais subestimada da era da IA

Por Sabina Deweik 20 abr 2026, 08h00
Storytelling: a arte de ser lanterna no escuro
Storytelling: a arte de ser lanterna no escuro  (Freepik/Divulgação)
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“Estou com lanternas à procura de mim mesma.” Emily Dickinson escreveu isso no século XIX, num quarto em Amherst, sem nunca ter visto um feed algorítmico. E mesmo assim capturou, com uma precisão que o tempo só foi confirmando, o estado permanente de quem tenta se comunicar num mundo saturado de ruído: a busca incessante por algo que seja, de fato, real. Em 2026, essa frase é quase um diagnóstico de nossos tempos.

Nunca produzimos tanto conteúdo. E nunca nos importamos tão pouco com a maior parte dele. A IA colapsou o custo de produção a quase zero e em novembro de 2024, pela primeira vez na história, artigos gerados por máquinas ultrapassaram os escritos por humanos na web aberta, segundo estudo da Graphite que analisou 65 mil páginas publicadas entre 2020 e 2025. E num ambiente de ruído infinito, o que se torna escasso, e, portanto valioso, é exatamente o oposto: a história que claramente veio de alguém com algo verdadeiro a dizer. 

Herbert Simon, economista americano, previu isso em 1971: “a riqueza de informação cria a pobreza de atenção.” O que ele não imaginava é que a saída não seria conteúdo melhor, seria conteúdo mais honesto. É disso que trata o storytelling hoje. Não de uma técnica de marketing mas de uma posição existencial.

O neuroeconomista Paul Zak descobriu que narrativas com tensão e resolução liberam ocitocina, o neuroquímico que regula confiança e empatia. Quando isso acontece, o cérebro do ouvinte sincroniza com o do narrador. Não trocamos só informações, mas sim estados emocionais. O efeito prático: informações em formato narrativo são retidas com até 22 vezes mais facilidade do que dados isolados. Não é preferência, é arquitetura cerebral. A narrativa é o formato nativo do pensamento humano desde os 50 mil anos de histórias contadas ao redor de fogueiras.

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Segundo a Harvard Business Review , 81% dos consumidores precisam confiar numa marca antes de comprar e 73% pagam mais por empresas transparentes. E clientes emocionalmente conectados valem, em média, 52% mais do que clientes satisfeitos mas desconectados. A diferença não está entre insatisfeito e satisfeito. Está entre satisfação e conexão. Você pode ter NPS impecável e ainda deixar metade do valor do seu cliente na mesa simplesmente porque nunca criou uma história que fizesse essa pessoa se sentir vista.

Existe uma categoria de storytelling que separa empresas que constroem legado das que apenas constroem receita: nomear o que as pessoas sentem, mas têm vergonha de admitir. A estrategista Cheryl Miller Houser chama isso de emprestar lanterna. A marca Crocs, por exemplo, passou uma década sendo ridicularizada, até parar de se desculpar e abraçar a estranheza como ato político. O produto não mudou. Mudou a história que ele dava permissão de viver: US$ 4,1 bilhões no último ano fiscal. 

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Para o Dia das Mães deste ano, O Boticário tapresenta a campanha “Despedida” com um dos temas mais pesquisados nas redes sociais para a data: o “ninho vazio”. Dados de social listening da marca indicam que 64% das conversas sobre o assunto têm tons de tristeza e solidão. Para contrapor esse pensamento, o filme, criado pela AlmapBBDO, faz uma metáfora com uma viagem de trem para mostrar que a maternidade é uma eterna despedida, mas um constante recomeço. Quem não assistiu ainda, assista. Eu, que sou mãe, chorei. Chorei porque a marca entra em uma conversa que nenhum algoritmo alcança e nenhuma verba compra.

Em todos os casos, a operação é idêntica: identificar uma emoção com estigma, criar espaço para que as pessoas sejam honestas consigo mesmas, e receber em troca o único ativo que não se compra, presença nas conversas que importam.

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O equívoco mais caro em comunicação hoje é confundir autenticidade com estética. Fotos de bastidores cuidadosamente iluminadas. Tom “humano” revisado por jurídico. Vulnerabilidade escolhida para não revelar nada que importe. O cérebro detecta e o ceticismo se instala. Autenticidade performática não é apenas ineficaz, ela corrói ativamente a confiança que tenta construir.

A IA gera textos convincentes, analisa padrões narrativos, identifica estruturas que funcionam estatisticamente. Mas existe uma diferença que não é técnica, é ontológica: entre simular o formato de uma história verdadeira e ser a fonte de uma. Uma história verdadeira emerge de escolhas custosas, erros que deixaram marcas, apostas com consequências reais. A IA não tem histórias porque não tem pele no jogo. 

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O que ela faz bem, muito bem, é ampliar quem já tem algo real a dizer. Formatar, distribuir, otimizar, escalar. Mas o núcleo gerador precisa vir de alguém que viveu algo que vale compartilhar. Não é coincidência que o storytelling tenha crescido 46% em 2024, exatamente quando a IA generativa explodiu em adoção. É uma resposta de mercado: quanto mais conteúdo sintético inunda os canais, mais valioso se torna o conteúdo que claramente veio de alguém de verdade.

O médico paliativista Zach Bush descreve o que ouve com frequência perturbadora de pacientes no fim da vida: “Eu tinha medo demais de ser eu mesmo. Eu precisava da aprovação dos outros para definir quem eu era.”

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Essa confissão, de quem já não tem nada a performar, é o espelho invertido de tudo que vimos até aqui. A IA pode executar, orquestrar, otimizar em escala industrial. O que ela não pode fazer, por ninguém, é responder à pergunta que antecede toda história que vale ser contada: Por que você existe. E no que você acredita de verdade?

Quem conseguir responder a isso, e tiver a coragem de dizer em voz alta, não vai precisar competir por atenção. Vai ser a lanterna que as pessoas procuram no escuro.

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