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Futuros: de dentro pra fora

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Sabina Deweik é jornalista, futurista e caçadora de tendências. Ela dedica-se a rastrear, ler e digerir o futuro, conhecimento que divide em palestras, workshops, capacitações e em sua coluna todas as segundas-feiras

O último privilégio humano

Por enquanto, a IA chega na média. O cume ainda é nosso e é lá que precisamos permanecer

Por Sabina Deweik 16 jun 2026, 14h15 | Atualizado em 16 jun 2026, 16h09
Homem de costas, com gorro vermelho, jaqueta cáqui e mochila preta, braços erguidos em celebração, olhando para uma paisagem montanhosa com uma cidade e o oceano ao fundo
IA vai nos impulsionar a ser mais criativos (Magnific/Reprodução)
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O último privilégio humano Priorizar nos meus resultados Google

Por muito tempo, achamos que a criatividade era o nosso escudo. A última fronteira. O lugar onde nenhuma máquina chegaria. Afinal, algoritmos calculam, mas sonhar, criar do nada, conectar o absurdo e o sublime, isso era coisa nossa.

Parte disso ainda é verdade. A outra parte acaba de ser colocada em xeque.

Em janeiro de 2026, um estudo publicado no Scientific Reports, periódico da Nature, sacudiu esse consenso com dados.

A maior pesquisa comparativa já realizada entre seres humanos e inteligências artificiais, conduzida pelo professor Karim Jerbi da Universidade de Montreal e co-assinada pelo pioneiro Yoshua Bengio, avaliou modelos como ChatGPT, Claude e Gemini contra mais de 100 mil participantes humanos em testes de criatividade divergente.

O resultado foi inquietante e preciso: a IA já supera a criatividade média humana em tarefas linguísticas bem definidas. O ser humano mediano perdeu.

“Nosso estudo mostra que alguns sistemas de IA já superam a criatividade humana média em tarefas bem definidas. Mas os humanos mais criativos ainda estão em território que a IA não alcança.”, concluiu professor Karim Jerbi, Université de Montréal, Scientific Reports, 2026.

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Mas aqui está a virada: os 10% mais criativos da amostra humana deixaram todos os modelos para trás, com folga. Quanto mais alto no espectro criativo, maior o abismo entre o humano e a máquina. A IA nivelou a mediocridade mas não tocou no cume.

Para entender o que está em jogo, vale recorrer à filósofa britânica Margaret Boden, que dedicou décadas a mapear os territórios da criatividade, humana e artificial.

Boden identificou três tipos: a criatividade combinacional (unir ideias conhecidas de formas novas), a exploratória (navegar dentro de espaços conceituais existentes) e a transformacional, aquela que muda as próprias regras do jogo, que torna possível o que antes era literalmente impensável.

“A ideia mais profunda vem quando alguém pensa algo que, dentro de seu próprio espaço conceitual, seria impossível pensar antes.”, afirma Margaret Boden, The Creative Mind.

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A IA domina com maestria os dois primeiros tipos. Combina, recombina, explora variações com velocidade e volume impossíveis para o cérebro humano. Mas a criatividade transformacional, aquela que rompe o espaço conceitual inteiro, que inventa um novo paradigma, ainda escapa à máquina. Porque isso exige algo que nenhuma rede neural possui: experiência vivida, corpo, perda, desejo, a dor de existir no tempo.

Os dados pintam um quadro que parece contraditório, mas é preciso. Pesquisa da Universidade de Swansea (2026) mostrou que, ao colaborar com IA em projetos de design, as pessoas exploraram ideias mais ousadas, ficaram mais tempo no processo e chegaram a resultados superiores.

A IA como parceira acendeu uma chama, não a apagou. “A IA não vai substituir os criadores. Mas vai transformar profundamente como eles imaginam, exploram e criam, para quem escolher usá-la.”, diz Prof. Karim Jerbi, da Université de Montréal.

O risco real não é a IA ser mais criativa que nós. O risco é nos tornarmos preguiçosos demais para sermos criativos. Há até um nome para isso na literatura científica: atrofia criativa, o fenômeno descrito pelo pesquisador Ben Shneiderman em que o uso irrestrito de IA substitui o processo de aprendizado, enfraquecendo as faculdades imaginativas que não são exercitadas.

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Aqui está o que os dados, juntos, nos dizem: estamos vivendo uma inversão histórica. Por séculos, o valor humano no trabalho esteve atrelado à execução, no fazer, no produzir, no replicar. A máquina assumiu isso progressivamente e agora assumiu também a criatividade de massa.

O que sobra para nós não é menos, é o que sempre foi mais difícil: a imaginação transformacional. A capacidade de fazer perguntas que o passado não sabia formular. De sentir o que não tem nome ainda. De criar não a partir de dados, mas a partir de experiência de quem amamos, de quem perdemos, de quem nos tornamos.

A IA reorganiza o arquivo da humanidade com velocidade e precisão sem precedentes. Mas o arquivo só existe porque alguém viveu o suficiente para criar algo digno de ser arquivado. A criatividade que importa, a que move culturas, que nomeia o sem nome, que provoca o impossível, ancora-se no mais humano dos territórios: a experiência encarnada, a ferida, o amor, o tempo.

Não somos ameaçados pela IA porque ela imagina. Somos desafiados por ela a imaginar melhor.

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