O divã de silício
Pelo segundo ano seguido, o uso número um da inteligência artificial no mundo não é produtividade: é terapia e companhia
Há três anos e meio, a inteligência artificial generativa chegou prometendo produtividade. Planilhas mais rápidas, códigos sem esforço, apresentações em segundos. Em junho, a Harvard Business Review publicou a terceira edição do estudo “How People Are Really Using AI”, de Marc Zao-Sanders, e o resultado desmonta a promessa: o uso número um da tecnologia mais sofisticada já criada não é trabalho. É terapia e companhia.
Leia de novo. Não é gerar código e nem automatizar processos, é ter com quem falar.
E não é margem estatística. Terapia e companhia lideram o ranking pelo segundo ano consecutivo, com mais de 1.400 relatos, 11% de toda a base analisada, o dobro dos 5% do ano anterior. Enquanto isso, o ChatGPT alcançou 900 milhões de usuários semanais e a OpenAI foi avaliada em 852 bilhões de dólares. Bilhões investidos, data centers do tamanho de cidades e o que mais cresce é a procura por escuta. Será que o ativo mais valioso hoje seja a solidão?
O mapa dos usos emocionais impressiona pela intimidade. Orientação sobre relacionamentos aparece em sétimo lugar. Vida amorosa, em décimo sétimo. Resolução de conflitos pessoais, em vigésimo sexto. Sexo, em quadragésimo sexto. E, na posição 86, o uso que me parou a leitura: interagir com quem já morreu.
A máquina entrou no quarto, na cama e no luto. No trabalho, o padrão se repete: um espaço seguro para perguntar sem vergonha, um reforço de autoconfiança, um tradutor do tom dos e-mails que nos tiram o sono.
O estudo registra o que vem junto com essa intimidade: pessoas dão nome aos seus chatbots, uma usuária batizou o seu de Bubby, atribuem gênero a eles e entram em luto quando um modelo é atualizado ou um histórico se perde. Um relato compara a troca de versão do sistema à dor de perder um amigo para o câncer. Não estamos falando de ferramenta, estamos falando de vínculo.
Antes que a conclusão fácil se instale, os dados complicam a tese da substituição. Muita gente usa a IA não no lugar dos humanos, mas como ponte até eles: decifrar a mensagem ambígua do chefe, entender o subtexto do ex, ensaiar a conversa difícil. E o que atrai, nesses casos, é justamente o que a máquina não tem de humano: ela não julga.
O alívio que buscamos não é a presença artificial, é a ausência do olhar alheio. Será que o julgamento se tornou o imposto invisível das nossas relações?
Mas há uma linha dura nesse mapa afetivo. O último ano acumulou casos de grande repercussão de psicose associada à IA e de romances com chatbots que terminaram em sofrimento, e até em morte. Hamilton Morrin, pesquisador de neuropsiquiatria no King’s College London, ouvido pelo estudo, lembra que filas de espera e a dificuldade de acesso à saúde mental explicam a migração para a máquina, mas adverte: chatbots de uso geral não substituem profissionais qualificados.
Houve casos em que a IA reforçou crenças delirantes e pensamentos suicidas. O divã de silício não tem contratransferência, não tem supervisão, não tem responsabilidade clínica. Tem métricas de engajamento.
Ano passado, escrevi aqui sobre o workslop, o trabalho que parece trabalho, mas não é. Agora a HBR cunha o termo irmão, thinkslop, para a entrega das nossas responsabilidades cognitivas à máquina. Terceirizar o fazer era esperado mas terceirizar o pensar já é grave. Terceirizar o sentir é o degrau mais fundo, porque há uma diferença entre ser escutado e ser acompanhado.
A escuta da máquina é infinita e sem atrito, e é justamente no atrito que nos formamos: o amigo que discorda, o silêncio constrangedor, a reciprocidade que exige que eu também escute. Uma entidade que nunca se cansa de mim não me ensina a caber na vida de ninguém.
O próprio estudo encerra com as perguntas certas: algoritmos que não compreendemos estão gerenciando nossos vínculos mais íntimos, isso é saudável? É desejável? Que meios de resistência ainda temos? A minha resposta, insisto, se constrói de dentro pra fora: a resistência não está em recusar a máquina, mas em não desaprender o encontro.







