Essa semana desembarco no Rio de Janeiro para mais uma maratona de ideias e insights no Rio Innovation Week, de 4 a 7 de agosto, no Píer Mauá. Para essa viagem, quero levar na bagagem algo que ficou ressoando em mim desde que ouvi o físico Marcelo Gleiser refletir sobre o conceito de interser. A ideia, desenvolvida pelo monge zen Thich Nhat Hanh, parte de algo aparentemente simples: nada existe isoladamente. Uma árvore depende da chuva, a chuva depende das nuvens, as nuvens dependem dos oceanos e nós dependemos uns dos outros. Não somos seres independentes, somos relações.
Tradução de “interbeing”, o termo descreve uma ideia budista antiga: a de que cada coisa carrega dentro de si todas as outras. Nós carregamos nossos ancestrais, o solo, o ar, as bactérias que nos habitam. Não somos, nós intersomos.
Curiosamente, a física contemporânea chega a uma conclusão parecida. O carbono que compõe nosso corpo nasceu na explosão de estrelas que existiram bilhões de anos antes de nós.
Em outras palavras, carregamos o universo na pele e insistimos em viver como ilhas. Fico com essa palavra porque ela descreve, com mais precisão do que qualquer relatório de tendências, o que está prestes a virar competência de liderança.
Durante décadas fomos treinados para pensar em autonomia, desempenho e competição. Construímos organizações divididas em silos, cidades que afastam pessoas, modelos econômicos que tratam a natureza como recurso externo e redes sociais que transformam relações em métricas. A lógica da separação nos trouxe eficiência, mas também nos trouxe exaustão.
Por isso, tantas conversas importantes estão mudando de direção. O crescimento infinito começa a dar lugar a um debate sobre regeneração, a produtividade tóxica dá lugar a ideia de pertencimento. A lógica é deixar de sermos indivíduos extraordinários e sermos inteligência coletiva.
Presto atenção em quem já fala essa língua sem precisar traduzi-la para o mundo corporativo. Gleiser é um deles. Físico, ganhador do Templeton, o “Nobel da espiritualidade”, ele passou os últimos anos costurando algo que a ciência dura resistiu por décadas: a ideia de que conhecer o universo e cuidar da alma não são dois projetos separados.
Em maio, na abertura do São Paulo Innovation Week, resumiu isso ao lado do astrofísico Adam Frank: a curiosidade é o motor que precisamos reaprender a usar diante do desconhecido e o desconhecido, hoje, é também sobre quem somos quando a inteligência artificial ocupa espaços que achávamos exclusivamente humanos.
É esse mesmo fio que espero reencontrar no Rio Innovation Week: Gleiser cura mais uma vez uma conferência inteira dentro do festival, a “Ciência para Todos”. Entre os temas anunciados: alta performance como potência emocional, não como resistência isolada; design quântico como lembrete de que as máquinas pensam em rede, em possibilidades simultâneas; ciência para o amanhã como física que devolve ao humano o lugar de parte de um cosmos, não de espectador dele; busca de sentido como diálogo, nunca como monólogo. Quatro títulos, um só fio: nada disso se sustenta isolado.
Minha aposta é que “interser” vai deixar de ser vocabulário de retiro contemplativo e virar vocabulário de estratégia. Não porque o mundo ficou espiritualizado, mas porque a fragmentação chegou ao limite.
O recado por trás da euforia da inteligência artificial é este: o futuro não vai premiar quem se isola mais rápido. Vai premiar quem entende, antes dos outros, que interser não é filosofia de nicho, é a próxima competência de liderança. Uma competência que não se aprende em curso nenhum, porque não é técnica: é postura. É saber que toda raiz que cresce sozinha, cresce fraca, que toda ideia que nasce isolada, nasce incompleta. Quem chega primeiro no futuro não é quem corre mais rápido, é quem lembra, antes dos outros, que nunca correu sozinho.







