Criar é uma forma de não desperdiçar a vida
Uma filósofa e uma psicanalista se encontram para falar sobre criação e chegam ao mesmo lugar: o ato de fazer algo é, antes de tudo, uma recusa ao vazio
Vivemos conectados o tempo todo e acordamos com a sensação de que nada do que fazemos deixa marca. A epidemia de depressão não é um acidente clínico isolado, é um sintoma dos nossos tempos. E no centro dela está uma pergunta que não saiu de moda desde os pré-socráticos, mas que o século XXI tornou urgente de um jeito novo: para que estou aqui?
É exatamente nessa fratura que se encontram uma filósofa e uma psicanalista. Rebecca Goldstein, doutora por Princeton, professora em Yale e Harvard, romancista, condecorada por Barack Obama com a Medalha Nacional de Humanidades, e Maria Homem, psicóloga, pesquisadora, colunista, aquela que transformou o divã em palco público sem trair nenhum dos dois.
Vieram de universos distintos e chegaram, por caminhos diferentes, à mesma borda. A filosofia pergunta o que torna uma vida significativa. A psicanálise pergunta o que impede alguém de vivê-la. No fundo, as duas perguntas apontam para o mesmo lugar: o ato de criar como resposta ao vazio.
Tive o privilégio de assistir a uma conversa entre essas duas mulheres incríveis, um papo sobre criação. Goldstein nos elucidou: criar é trazer para o mundo algo que não existia. E fazemos isso, antes de qualquer outra razão, para provar a nós mesmos que não estamos desperdiçando o tempo curto que temos aqui.
Ela chama esse impulso de longing, um desejo, uma pulsão de importar. Não importar para o universo, não importar para a posteridade em sentido grandioso. Importar nos próprios olhos. Ela conta que perguntou a uma paciente, recém-saída de uma internação por depressão severa, quais eram as palavras que ecoavam em sua cabeça quando estava “lá embaixo”. A resposta foi: “Que eu não importo. Que o mundo seria exatamente igual sem mim.”
É o niilismo em estado bruto. E é, curiosamente, o ponto de partida de toda criação. Porque criar é o avesso disso. É o gesto de dizer: passei por aqui. Deixei uma marca. Não necessariamente para os outros, mas para si mesmo, primeiro.
Maria Homem, que divide o pensamento entre a psicanálise, as colunas de jornal e uma espécie de missão autoproclamada de “ampliar a consciência” num tempo que insiste em estreitá-la, provocou Goldstein com uma questão elegante: e se o luto da própria importância fosse libertador? E se a consciência de sermos poeira de estrelas, efêmeros, esquecíveis em escala cósmica, nos libertasse da pressão de ter que significar algo?
A resposta de Goldstein não foi uma negação, foi uma reconfiguração. Ela concorda que não se trata de ser famoso, de ser um “mover and shaker”, de deixar o nome gravado em mármore. Trata-se de algo mais urgente: a necessidade de justificar, para si mesmo, toda a atenção que você dedica à sua própria existência.
Somos as únicas criaturas que fazem isso. Um chimpanzé não entra em depressão existencial porque sente que está desperdiçando a vida. Nós, sim.
Há um momento na conversa em que a filósofa, perguntada sobre o que transformou sua vida, abandona o roteiro e cava fundo. Ela começou com Bertrand Russell aos 13 anos, lido às escondidas numa biblioteca, enquanto a família religiosa, verificava os títulos antes de liberar. Passou pela universidade como “uma criança numa loja de doces”. Chegou nos filhos “eu não imaginava o quanto ter filhos me mudaria” e pousou, com uma honestidade que parou a plateia, no marido, que estava sentado na primeira fila. “Eu estava bem preparada para falar dos livros que escrevi. Mas cavei mais fundo e descobri que tudo é sobre o amor.” É uma frase que uma filósofa de Princeton não costuma dizer em público. E talvez seja exatamente por isso que ela transforma.
Há uma tese implícita nessa conversa que vale nomear: a criação não é um ato de gênio. É um ato de sobrevivência simbólica. Criamos porque precisamos de uma razão para continuar, porque sem isso a vida some para dentro de si mesma, vira depressão, vira aquela voz que diz “você não importa”.
E criamos também porque somos feitos de outros que criaram antes. Um livro lido aos 13 anos pode desmontar uma cosmovisão inteira e montar outra. Uma análise pode desconstruir a imagem do pai que você passou quarenta anos mantendo no lugar errado. Um amor pode criar um ser que não existia.
Maria Homem resumiu com precisão: “A criação também vem da angústia.” Vem do mundo que dá medo. Das guerras que se acumulam nos informativos. Do vazio que a distração das redes não consegue preencher. Mas vem, principalmente, da decisão de não deixar que a angústia vença.
O painel terminou com uma proposta simples de Goldstein: encontre aquilo que te faz florescer, não o que te faz parecer importante. O que te acende por dentro. E encoraje os outros a fazerem o mesmo. É uma filosofia que cabe numa frase. Mas demora uma vida inteira para ser praticada.





