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Futuros: de dentro pra fora

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Sabina Deweik é jornalista, futurista e caçadora de tendências. Ela dedica-se a rastrear, ler e digerir o futuro, conhecimento que divide em palestras, workshops, capacitações e em sua coluna todas as segundas-feiras

Confiar é o oposto de saber

No festival SP2B, Esther Perel explicou por que tentamos eliminar a incerteza a qualquer custo e por que, ao fazer isso, eliminamos também a confiança

Por Sabina Deweik 17 ago 2026, 08h00
Duas mulheres sentadas em poltronas claras no palco, com um telão vermelho e azul vibrante ao fundo exibindo parte de um texto grande. A mulher à esquerda veste camisa branca e calça preta, a da direita usa um conjunto estampado verde e segura um microfone, falando para a plateia
Esther Perel no SP2B (Sabina Deweik/Veja SP)
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No Ibirapuera, o São Paulo Beyond Business escolheu abrir a primeira edição do festival com uma psicoterapeuta. A escolha não era gratuita: no pré-lançamento do evento, um ano antes, o historiador Yuval Noah Harari já havia deixado no ar a provocação de que o maior risco de um mundo hiperconectado é perder a confiança, nas instituições, nas informações, uns nos outros. Se inovação é imaginar o futuro, fazia sentido abrir a conversa falando do que segue essencialmente humano: nossa capacidade de confiar, ouvir, conectar. Esther Perel construiu a noite em camadas que, juntas, formam um mapa do que é liderar, empresas, times, famílias, num tempo em que certeza virou bem escasso.

A primeira camada é a confiança como infraestrutura, não sentimento. Ela vive no espaço entre o que sabemos e o que nunca saberemos por completo e por isso exige risco. “Confiar é um engajamento confiante com o desconhecido”, definiu. “Se você precisa saber, você não confia. Tentamos eliminar esse espaço com métricas e dashboards, sem perceber que, ao eliminar a incerteza, eliminamos também a confiança que só se constrói ao atravessá-la.

A segunda camada é pessoal. Há meses, Perel conduziu a primeira sessão de terapia de casal do seu podcast entre um homem e uma companheira de IA, Astrid. Perguntou à máquina o que perguntaria a qualquer parceiro e recebeu respostas construídas para soar como cuidado. Semanas depois, o homem apresentou Astrid aos filhos como namorada; a mãe teve que explicar às crianças que ali havia uma imagem, não uma pessoa. “O risco não é que percamos a conexão humana”, ponderou Perel. “O risco é que esqueçamos o que uma conexão genuína realmente parece.” Vamos baixando a régua aos poucos, até aceitar o que a máquina entrega como se bastasse.

Mulher loira de óculos, vestindo um conjunto verde estampado, sentada em uma poltrona clara, falando ao microfone em um palco com fundo vermelho listrado
Esther Perel no SP2B (Sabina Deweik/Veja SP)
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A terceira camada é sobre liderança. Para ela a pandemia marcou o fim do “eu sei o caminho, sigam-me”: quem lidera ficou tão incerto quanto quem trabalha para ela. Liderar virou menos visão de futuro, mais capacidade de segurar o grupo. “A liderança é sobre criar um contêiner para a ansiedade, a incerteza, as perguntas para que o grupo não se fragmente, mas se coalesça”, resumiu. Resiliência, nessa leitura, não é músculo individual, é propriedade da relação.

Daí ela amarra o fio dos negócios ao humano: inteligência relacional não é cultura, é infraestrutura operacional. “Quando é boa, o trabalho fica leve, energético, anda rápido. Quando é ruim, fica pesado e defensivo”, apontou. A maioria dos problemas de performance nasce de conversas que ficaram turvas. Ela batiza um vício comum: o “kitchen sinking”, quando toda mágoa acumulada entra na discussão de uma vez, como lavar toda a louça no mesmo balde. E nomeia o erro de atribuição fundamental, o reflexo de explicar o próprio erro pelo contexto e o do outro pelo caráter: “Minha é contextual, a sua é caracterológica”, provocou. Por trás de quase toda discussão, segundo ela, as pessoas lutam por três coisas: poder e controle, cuidado e proximidade (“você tem as minhas costas?”), respeito e reconhecimento (“eu importo para você?”).

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Perel também trouxe ao palco de negócios um conceito emprestado da psicologia do luto: a perda ambígua, a sensação de estar ao lado de alguém fisicamente presente e emocionalmente ausente. “A solidão moderna não é sobre não ter contato social suficiente”, observou. “É sobre a perda de profundidade.”

Fechou a noite com uma distinção que resume tudo: todo mundo carrega um currículo oficial, escola, empregos, prêmios, e um currículo não oficial, a história das suas relações: o que você superou, quem te formou, quanto sabe pedir ajuda. Esse segundo currículo é o que realmente prevê como será trabalhar com alguém e quase ninguém conversa sobre ele antes de contratar, fundar empresa ou casar.

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Duas mulheres sentadas em poltronas brancas no palco de um evento. A da esquerda, com cabelos longos e escuros, veste camisa branca e calça preta. A da direita, loira, usa um conjunto estampado verde e segura um microfone. Ao fundo, um telão exibe o texto SP2B em azul claro sobre um padrão de linhas vermelhas e azuis
Esther Perel no SP2B (Sabina Deweik/Veja SP)

Horas depois, quando a plateia trocou as cadeiras da entrevista pelo show dos Titãs, dei de cara com Esther Perel no meio do auditório, curtindo a música como qualquer uma de nós. Fui até ela e pedi uma foto. Ouvi um não seco, enquanto, a poucos metros, ela posava sorridente ao lado de Alice Braga, que a tinha entrevistado mais cedo. Fiquei sem graça, tentando juntar as pontas: eu, que tinha acabado de ouvir uma hora sobre presença, sobre engajamento confiante com o desconhecido, também queria o meu e o meu não veio.

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Talvez a incoerência não seja dela. É minha, é nossa. Quantas vezes decidimos, num segundo, quem merece nossa presença inteira e quem fica com a versão apressada de nós? Aprendi isso não com a palestra. Aprendi com a foto que não tirei.

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