Confiar é o oposto de saber
No festival SP2B, Esther Perel explicou por que tentamos eliminar a incerteza a qualquer custo e por que, ao fazer isso, eliminamos também a confiança
No Ibirapuera, o São Paulo Beyond Business escolheu abrir a primeira edição do festival com uma psicoterapeuta. A escolha não era gratuita: no pré-lançamento do evento, um ano antes, o historiador Yuval Noah Harari já havia deixado no ar a provocação de que o maior risco de um mundo hiperconectado é perder a confiança, nas instituições, nas informações, uns nos outros. Se inovação é imaginar o futuro, fazia sentido abrir a conversa falando do que segue essencialmente humano: nossa capacidade de confiar, ouvir, conectar. Esther Perel construiu a noite em camadas que, juntas, formam um mapa do que é liderar, empresas, times, famílias, num tempo em que certeza virou bem escasso.
A primeira camada é a confiança como infraestrutura, não sentimento. Ela vive no espaço entre o que sabemos e o que nunca saberemos por completo e por isso exige risco. “Confiar é um engajamento confiante com o desconhecido”, definiu. “Se você precisa saber, você não confia. Tentamos eliminar esse espaço com métricas e dashboards, sem perceber que, ao eliminar a incerteza, eliminamos também a confiança que só se constrói ao atravessá-la.
A segunda camada é pessoal. Há meses, Perel conduziu a primeira sessão de terapia de casal do seu podcast entre um homem e uma companheira de IA, Astrid. Perguntou à máquina o que perguntaria a qualquer parceiro e recebeu respostas construídas para soar como cuidado. Semanas depois, o homem apresentou Astrid aos filhos como namorada; a mãe teve que explicar às crianças que ali havia uma imagem, não uma pessoa. “O risco não é que percamos a conexão humana”, ponderou Perel. “O risco é que esqueçamos o que uma conexão genuína realmente parece.” Vamos baixando a régua aos poucos, até aceitar o que a máquina entrega como se bastasse.
A terceira camada é sobre liderança. Para ela a pandemia marcou o fim do “eu sei o caminho, sigam-me”: quem lidera ficou tão incerto quanto quem trabalha para ela. Liderar virou menos visão de futuro, mais capacidade de segurar o grupo. “A liderança é sobre criar um contêiner para a ansiedade, a incerteza, as perguntas para que o grupo não se fragmente, mas se coalesça”, resumiu. Resiliência, nessa leitura, não é músculo individual, é propriedade da relação.
Daí ela amarra o fio dos negócios ao humano: inteligência relacional não é cultura, é infraestrutura operacional. “Quando é boa, o trabalho fica leve, energético, anda rápido. Quando é ruim, fica pesado e defensivo”, apontou. A maioria dos problemas de performance nasce de conversas que ficaram turvas. Ela batiza um vício comum: o “kitchen sinking”, quando toda mágoa acumulada entra na discussão de uma vez, como lavar toda a louça no mesmo balde. E nomeia o erro de atribuição fundamental, o reflexo de explicar o próprio erro pelo contexto e o do outro pelo caráter: “Minha é contextual, a sua é caracterológica”, provocou. Por trás de quase toda discussão, segundo ela, as pessoas lutam por três coisas: poder e controle, cuidado e proximidade (“você tem as minhas costas?”), respeito e reconhecimento (“eu importo para você?”).
Perel também trouxe ao palco de negócios um conceito emprestado da psicologia do luto: a perda ambígua, a sensação de estar ao lado de alguém fisicamente presente e emocionalmente ausente. “A solidão moderna não é sobre não ter contato social suficiente”, observou. “É sobre a perda de profundidade.”
Fechou a noite com uma distinção que resume tudo: todo mundo carrega um currículo oficial, escola, empregos, prêmios, e um currículo não oficial, a história das suas relações: o que você superou, quem te formou, quanto sabe pedir ajuda. Esse segundo currículo é o que realmente prevê como será trabalhar com alguém e quase ninguém conversa sobre ele antes de contratar, fundar empresa ou casar.
Horas depois, quando a plateia trocou as cadeiras da entrevista pelo show dos Titãs, dei de cara com Esther Perel no meio do auditório, curtindo a música como qualquer uma de nós. Fui até ela e pedi uma foto. Ouvi um não seco, enquanto, a poucos metros, ela posava sorridente ao lado de Alice Braga, que a tinha entrevistado mais cedo. Fiquei sem graça, tentando juntar as pontas: eu, que tinha acabado de ouvir uma hora sobre presença, sobre engajamento confiante com o desconhecido, também queria o meu e o meu não veio.
Talvez a incoerência não seja dela. É minha, é nossa. Quantas vezes decidimos, num segundo, quem merece nossa presença inteira e quem fica com a versão apressada de nós? Aprendi isso não com a palestra. Aprendi com a foto que não tirei.







