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Futuros: de dentro pra fora

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Sabina Deweik é jornalista, futurista e caçadora de tendências. Ela dedica-se a rastrear, ler e digerir o futuro, conhecimento que divide em palestras, workshops, capacitações e em sua coluna todas as segundas-feiras

A ressaca da inteligência artificial

Da euforia ao vale do desencanto: quando a ferramenta funciona, mas a matemática não fecha

Por Sabina Deweik 23 jun 2026, 15h59
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 (Magnific/Reprodução)
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Havia uma promessa no ar. Simples, sedutora, quase irresistível: adote IA e tudo ficará mais rápido, mais barato, mais inteligente. Bilhões de dólares foram investidos nessa narrativa. Executivos em todo o mundo viraram evangelistas da tecnologia. E durante um bom tempo, a lua de mel pareceu real. Agora vem a ressaca.

Em maio de 2026, o mundo da tecnologia assistiu a uma cena que nenhum analista esperava tão cedo: a Microsoft, a mesma empresa que investiu bilhões na OpenAI e cujo CEO anunciou orgulhoso que 30% do seu código já é gerado por IA, cancelou a maioria de suas licenças internas do Claude Code, a ferramenta de programação da Anthropic, e ordenou que seus engenheiros migrassem para o GitHub Copilot. A história foi revelada pelo jornalista Tom Warren, do The Verge, em 14 de maio. O motivo? Os custos por engenheiro chegaram a entre 500 e 2.000 dólares por mês — não porque a ferramenta fracassou, mas porque os engenheiros a usaram demais. Para uma divisão responsável pelo Windows, pelo Microsoft 365 e pelo Teams, com milhares de engenheiros, a matemática simplesmente não fechava.

A ironia é precisa: a ferramenta funcionava. Claude Code havia se tornado, por vários relatos, a ferramenta preferida dentro da Microsoft. Se os custos tivessem melhorado com a escala, este seria o momento de fechar um contrato plurianual em termos favoráveis. Em vez disso, a empresa desfaz o experimento. Quando a companhia com mais poder de barganha no setor abandona um fornecedor cujo produto seus próprios funcionários preferem, o sinal não é sobre preferência tecnológica. É sobre a matemática que ainda não fecha.

A Microsoft não estava sozinha nessa conta. Praveen Neppalli Naga, CTO da Uber, revelou em abril à The Information que a empresa consumiu todo o orçamento planejado para IA em 2026, em quatro meses. Por março, o uso do Claude Code havia saltado de 32% para 84% de sua organização de cerca de 5.000 engenheiros. O próprio COO da Uber, Andrew Macdonald, chamou o momento de “head-exploding” ao constatar que o link entre consumo de tokens e melhoria nos produtos para o consumidor simplesmente não estava lá.

Existe um nome para o que estamos vivendo: Trough of Disillusionment ou vale do desencanto. “A melhora na previsibilidade do ROI precisa ocorrer antes que a IA possa verdadeiramente ser escalada pelas empresas”, disse John Lovelock, analista do Gartner. A pesquisadora Melanie Freeze foi mais direta: “57% dos líderes de TI que relataram pelo menos uma falha, disseram que seus projetos de IA fracassaram porque esperavam demais, rápido demais.”

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Os números são reveladores. Em 2026, os gastos globais com IA devem chegar a 2 trilhões de dólares. E ainda assim 95% dos pilotos de IA entregam zero retorno financeiro mensurável dentro de seis meses de implantação. Pesquisa do Gartner realizada com 353 líderes globais de dados e IA, publicada em abril de 2026, revelou que apenas 39% dos líderes tecnológicos estão confiantes de que os investimentos atuais em IA de suas empresas terão impacto positivo no desempenho financeiro.” Mas o problema não é a tecnologia. É como estamos pensando sobre ela.

Há um conceito novo circulando nos círculos corporativos que merece atenção: workslop. É a palavra que descreve o que acontece quando a IA é usada sem critério, relatórios longos, slides bonitos, textos elaborados que parecem bons à primeira vista, mas não resolvem nada.

Entregas com aparência de competência e ausência de substância. A cientista comportamental Kate Niederhoffer identificou algo ainda mais grave nesse fenômeno: quando alguém recebe um workslop de um colega, não perde apenas tempo. Perde confiança. Perde vontade de colaborar. Perde a abertura para o relacionamento.

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As organizações que relatam iniciativas de IA bem-sucedidas investem até quatro vezes mais, como percentual da receita, em fundações: qualidade de dados, governança, pessoas preparadas para IA e gestão da mudança. Ferramenta sem estratégia raramente produz transformação. O paradoxo da eficiência é exato: a IA economiza tempo para quem produz, mas muitas vezes transfere o trabalho para quem recebe. Gartner

Toda inovação passa por isso. Primeiro vem o encantamento, depois as perguntas difíceis. O encantamento foi necessário, sem ele, não haveria escala, não haveria aprendizado coletivo, não haveria dados suficientes para entender o que realmente funciona. Mas as perguntas difíceis não podem mais ser adiadas. Onde a IA realmente agrega valor? O que continua exigindo julgamento humano? Como evitar que ela gere mais problemas do que soluções?

A IA não substitui pensamento, contexto, critério nem responsabilidade. A visão humana continua determinando o valor do que é produzido. Estamos ensinando nossas equipes a usar IA ou apenas exigindo que encontrem uma maneira de utilizá-la?

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A diferença entre as duas perguntas vai determinar quem sai do vale do desencanto com vantagem real. E quem vai sair com slides bonitos.

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