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Blog do Lorençato

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O editor-executivo Arnaldo Lorençato é crítico de restaurantes há mais de 30 anos. De 1992 para cá, fez mais de 16 000 avaliações. Também comanda o Cozinha do Lorençato, programa de entrevistas e receitas no YouTube. O jornalista é professor-doutor e leciona na Universidade Presbiteriana Mackenzie

Pinheiros: Rua Ferreira de Araújo tem quase 40 restaurantes em 500 metros

Endereços recém-abertos e veteranos transformaram a via em um destino obrigatório para fãs de gastronomia em São Paulo

Por Arnaldo Lorençato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 mar 2026, 06h00 • Atualizado em 26 mar 2026, 18h48
Confeitaria Dama
Rua Ferreira de Araújo: efervescente com um mix de culinárias que inclui a veterana Confeitaria Dama (Ricardo Dangelo/Veja SP)
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  • Uma deliciosa babel culinária onde a clientela se entende bem à mesa, a fervida Rua Ferreira de Araújo, em Pinheiros, reúne quase quarenta estabelecimentos gastronômicos em um trecho de pouco mais de 500 metros de extensão. Um fenômeno só comparável à Rua dos Pinheiros, no mesmo bairro.

    pessoas na esquina em bar
    Movimento na Rua Ferreira de Araújo: quarenta estabelecimentos gastronômicos (Helena Wolfenson/Veja SP)

    Disputam a atenção de paulistanos e turistas as fachadas e os menus tanto de casas cheirando a tinta fresca, como o bar de vinhos Lita, o português Quinta do Olivardo e o árabe Casa Manish, quanto de endereços veteranos como o Nou, de cardápio variado, o italiano Più e a Confeitaria Dama.

    Há mais de uma dezena de especialidades culinárias para escolher e saborear em uma caminhada de menos de dez minutos. Bombando desde a inauguração, no fim de setembro, o Lita atrai pela carta de vinhos com mais de 400 rótulos, escolhidos a dedo pelo sommelier Danyel Steinle. Desse total, o especialista seleciona vinte opções rotativas em taça, que saem do balcão ovalado e podem ser degustadas tranquilamente em torno das mesinhas que têm como cenário a cozinha aberta ao fundo.

    O cenário, um charme só, se completa com a área reservada no piso superior, onde fica a adega. Para acompanhar a bebida, há receitas da chef Tássia Magalhães, esposa e sócia de Danyel, responsável pela cozinha só de mulheres do Nelita, localizado do outro lado da rua e do qual o bar é derivado. Em vez de uma culinária italiana autoral, como na casa-mãe, no Lita ela investe em uma cozinha casual, assim como em massas clássicas que abraçam o paladar, como a versão do paccheri allo scarpariello, com molho cremoso de tomate encorpado com queijo Tulha.

    duas pessoas sérias em restaurante
    Danyel Steinle e Tássia Magalhães: sócios do Lita e do Nelita (Helena Wolfenson/Veja SP)

    Na Ferreira de Araújo desde o fim de 2019, Tássia, eleita a MelhorChef Mulher da América Latina em 2025 pelo ranking britânico The World’s 50 Best Restaurants, inaugurou o Nelita em 2021 e enfrentou com bravura a pandemia, inclusive vendendo empadinhas para os vizinhos durante os períodos mais críticos. “O Nelita explodiu desde a abertura. Não esperava. Nesse período, a rua valorizou muito e muito rápido”, diz a entusiasta daquele pedaço de Pinheiros. “Os aluguéis por aqui chegam a 30 000 reais por mês.” Isso não a impediu de ficar com o ponto do Lita, onde antes era um consultório de psicologia. “Peguei baratinho”, conta. Ela e Danyel também não se intimidaram em investir mais de 2 milhões de reais para montar o wine bar, já um dos melhores da cidade.

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    Em funcionamento desde dezembro, o Casa Manish (leia minha crítica aqui) é uma extensão de uma casa do Itaim Bibi que retorna à rua, uma vez que teve uma primeira vida por lá entre 2015 e 2018. Apresenta o frescor da culinária árabe e vem disputar as preferências de paladares com o Shuk Falafel & Kebab, onde há uma cozinha mais ampla de países do Oriente Médio.

    Também recebeu um aporte expressivo em sua montagem: cerca de 3 milhões de reais.  “Era uma residência dos anos 1960, de dois andares. Queríamos manter o imóvel com cara de casa, por isso, a intervenção maior que fizemos foi aumentar o pé-direito do salão”, descreve Rodrigo Danezi, o diretor de comunicação da Casa Manish. O resultado é agradável e arejado, com mesas em uma varanda aberta diretamente para a rua.

    Com previsão de ficar pronto na primeira quinzena de abril, o Mokutan deve funcionar como um izakaya refinado no número 477, onde antes havia uma residência. É mais um estabelecimento do empresário Fabio Honda, que tem quatro Huto em diferentes pontos da cidade e não economizou na reforma. “É um izakaya sofisticado, não um boteco”, explica ele, que convidou o arquiteto Otavio de Sanctis para assinar o projeto, orçado em 2,5 milhões de reais.

    Honda vem cuidando do menu com o chef Milton Hasegawa. “Não teremos sushis e serão poucas opções frias”, adianta. Entre as receitas que pretende servir, aparece o mochi recheado de carne de porco e finalizado na grelha. Também está em desenvolvimento uma linha de drinques autorais pelo bartender Adelson Rodrigues. “Vamos usar insumos como shissô, umeboshi, yuzu e bebidas como saquê, shochu, vodca e uísques japoneses”, enumera Honda.

    Pioneiro dessa onda, o Nou começou a operar em 2008, quando a Ferreira de Araújo era um deserto culinário. “Estávamos procurando um imóvel em uma região próxima aos bairros já consolidados como destino gastronômico, no caso, a Vila Madalena”, lembra o dono Paulo Sousa, que trazia a experiência de ter sido gerente do Ritz.

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    dois homens sorrindo
    Amilcar Azevedo e Paulo Sousa, do Nou: pioneirismo culinário (Ricardo Dangelo/Veja SP)

    De imediato, ele e o sócio, Amilcar Azevedo, responsável pelo cardápio, se encantaram com o imóvel da década de 1950. O começo, porém, não foi fácil. “Enfrentamos um pouco de preconceito de possíveis marcas parceiras. Diziam que ali era conhecido como o Largo da Batata e ninguém iria frequentar”, recorda. Amilcar faz coro: “Acreditamos na promessa de revitalização do largo”. E deu tão certo que o Nou tem hoje três unidades, além do Nouzin Café, na Padre Carvalho. Nos dois restaurantes, o prato mais vendido continua a ser o filé-mignon à milanesa com risoto de limão-siciliano.

    Quem também apostou no potencial da rua antes de a via se tornar um fenômeno foram as cunhadas e sócias Mariana Gorski e Daniela Gorski, atraídas especialmente pela proximidade das estações de metrô Pinheiros e Faria Lima. A dupla comprou um imóvel de 400 metros quadrados para montar a Confeitaria Dama, em 2011, dos quais 25 metros quadrados foram destinados ao atendimento. O êxito da doceria veio do mil-folhas, sobremesa associada à marca.

    duas mulheres sorrido em balcão
    Mariana Gorski e Daniela Gorski: sede de 400 para 800 metros quadrados (Ricardo Dangelo/Veja SP)

    Ao mesmo tempo que iam espalhando endereços por shoppings da cidade, aumentaram o ponto original, também sede da produção da linha de doces e pães, além de delivery central. A esta única loja de rua foi incorporado um imóvel vizinho e ela conta hoje com uma área de 800 metros quadrados.

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    Mais antiga representante da rua ligada à alimentação, a padaria Vipão está no mesmo número, 604, desde a fundação, 49 anos atrás, época em que a via era predominantemente residencial. “Mudou muito e os custos só aumentam. Fico por aqui porque o imóvel é próprio. Poucos vão aguentar e, em especial os pequenininhos, tendem a fechar”, pontifica Sergio Henrique Santos Pereira, sócio da panificadora.

    O mais recente endereço a encerrar as atividades por lá foi o italiano Locale, cuja matriz se situa no Itaim Bibi. Ficava no número 302, ocupado anteriormente por uma extinta unidade da rede Tartuferia. Também não vingaram restaurantes como o brasileiro Canto do Picuí, o variado Urban Kitchen e a sorveteria Davvero, que continua com a placa na fachada.

    endereço com verde e vinho e pessoas na frente
    O bar de vinhos Lita: abertura recente na Rua Ferreira de Araújo (Helena Wolfenson/Veja SP)

    “É uma rua que vale o investimento, mas é importante ter a consciência de que só a rua não faz o movimento. É um negócio que tem de ser bem planejado”, crava Tássia Magalhães. Custos e outras possíveis adversidades não devem espantar futuros investidores, como aposta Tadeu Masano, da consultoria de negócios Geografia de Mercado.

    “É o princípio do varejo, que funciona como atração cumulativa. Funciona muito para ruas especializadas em bens de consumo e também para lazer e gastronomia”, explica. Ele enumera algumas vias que foram ou são emblemáticas, como a Treze de Maio, na Bela Vista, a Haddock Lobo, nos Jardins, a Amauri, no Itaim Bibi. “É um corredor que não está totalmente formado. À medida que aumentarem os lugares de referência, como o Nelita e o Moma, a procura por pontos na rua só vai crescer. Quando bem cuidadas, essas concentrações duram muito”, garante.

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    Entre esses restaurantes, ele faz referência ao Moma – Modern Mamma Osteria, que abriu uma unidade em 2021. Os números da trattoria justificam a afirmação. “De janeiro a dezembro de 2025, passaram, em média, 10 438 pessoas por mês”, contabiliza o chef italiano Salvatore Loi, sócio do Moma. “Corresponde a 24% dos clientes atendidos nas nossas quatro casas.” E a Ferreira de Araújo não está sozinha. Ruas paralelas e transversais também imantam interessados em comida, bebida e diversão. É o caso da Padre Carvalho, da Costa Carvalho, da Vupabussu e da Marcos de Azevedo, que juntas formam um quadrilátero gastronômico.

    Convivência intranquila

    Os problemas para quem mora na via, quase sempre congestionada

    rua com carros passando
    Congestionamentos formados pela fila dupla: um dos problemas enfrentados pelos moradores (Ricardo Dangelo/Veja SP)

    A Ferreira de Araújo é uma rua de ocupação mista. Teoricamente, deveriam coexistir harmoniosamente moradores e turistas, da cidade ou não, que disputam as mesas dos quase quarenta estabelecimentos espalhados pela via estreita e plana. Não é bem assim, como nota George Frug Hochheimer, arquiteto, urbanista, morador na paralela Padre Carvalho e ex-presidente da Associação de Moradores de Pinheiros. “É legal e não é legal a rua. Faço tudo a pé. Tem uma gastronomia diversificada”, reconhece.

    Admite também que a mudança de mão dupla para mão única ajudou bastante, inclusive porque há uma linha de ônibus por lá. Por outro lado, são várias as queixas recorrentes apontadas por ele e por moradores que entrevistei e preferiram não se identificar. A primeira delas é sobre o serviço de valet, que gera um trânsito pesado tanto no almoço quanto no jantar. “Junta-se a falta de habilidade dos manobristas com a falta de educação dos turistas que largam os carros em fila dupla”, afirma Hochheimer.

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    O barulho é outro problema recorrente. Há caminhões de lixo que passam em horários diferentes, alguns de madrugada e outros nas primeiras horas da manhã. “Felizmente, tenho janelas antirruído. Quem não tem, sofre”, diz uma moradora. Ao longo do dia, ocorre uma movimentação constante de caminhões para abastecimento, outra fonte de ruído. Bares que têm música alta e gente espalhada pela calçada são outro transtorno. Alguns parklets, além de ajudarem a travar ainda mais a movimentação de veículos, não são limpos adequadamente, o que atrai insetos. “Algumas pessoas mudaram porque não aguentavam mais a rua”, conta Hochheimer.

    Há que lembrar ainda que esta ex-tranquila rua de Pinheiros não tem só estabelecimentos gastronômicos. Nessas poucas quadras, enfileiram-se também igrejas, loja de móveis, posto de saúde, consulado britânico, delegacia, antiquário, escolas (inclusive uma Etec). É um microcosmo paulistano que precisa conviver melhor. Os moradores acreditam que a presença mais constante dos agentes regulares ajudaria e muito.

    Publicado em VEJA São Paulo de 20 de março de 2026, edição nº 2987.

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