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Vila Madalena: o maestro da noite

Ailton Manuel, com sua nobreza e eficiência, tornou-se um mito da boemia paulistana

Por Jardel Sebba 15 out 2010, 23h00 | Atualizado em 5 dez 2016, 18h33

“Curam-se dor de amor mal resolvido ou terminado, traição e ressentimentos sentimentais em geral e salva-se reputação com boa comida, caipirinha e chope gelado. Oferecem-se papo amigo, gentileza, atenção e, se necessário, um táxi para voltar para casa. Não se traz o amor perdido, mas com sorte se consegue uma mesa com vista para possíveis futuros romances. Tratar no local com Ailton.”

A faixa não existe, mas ninguém há de estranhar se um dia ela aparecer no alto do número 374 da Rua Girassol, sobre o logotipo do bar Genial. É lá, desde o começo do ano, o endereço do garçom que, com sua nobreza, educação e eficiência, se tornou um mito da boemia local. Há uma década a noite da Vila Madalena tem em Ailton Manuel da Silva, 42 anos, pernambucano da diminuta Panelas de Miranda, sua mais fiel definição.

Tudo começou a cerca de 200 quilômetros dali, em Ilhabela, no verão de 2000. O produtor musical Helton Altman fazia um evento na cidade e, enquanto comia em uma das barracas da praia, prestou atenção no garçom que o servia. “O que me cativou no Ailton era como alguém que trabalhava na praia de short e camiseta conseguia transmitir tanta nobreza”, lembra. Um dos amigos de Altman pediu um caldinho de feijão, que não fazia parte do cardápio da barraca. Em vez de dizer não, o garçom atravessou a rua e buscou o pedido no hotel mais próximo. “Eu estava montando o Filial e três meses depois o convidei para vir trabalhar comigo”, recorda.

Do dia em que chegou a São Paulo, em 1986, até a abertura do Filial, em 2000, Ailton havia construído uma modesta reputação na cidade. Começou no restaurante Gigetto, inicialmente para ocupar uma vaga de lavador de copos durante o dia. Pediu e foi para a noite, que o encanta até hoje, de onde nunca mais saiu. Seis anos depois, resolveu encarar um novo desafio e ir comandar uma equipe na então recém-renascida região do Baixo Augusta, no Leblon. Saiu dois anos mais tarde e abriu a própria pizzaria em Osasco, que não vingou. Desde o começo do ano reforça a equipe do Genial, dos mesmos sócios do Filial. “Quando vejo que a pessoa já chega meio alterada, vou conversando, ganhando tempo, demoro um pouco mais para levar a bebida. Cinco minutos de conversa são dois chopes ou uma dose de uísque a menos”, diz o garçom.

E se tornou célebre por, entre tantas coisas já citadas aqui, nunca perder a paciência. Ou quase nunca. “Lembro-me de duas vezes em que saí do sério. Uma, quando um cliente sugeriu que eu o estava roubando na conta. A outra foi com um cara que insistiu que já tinha pago, e não tinha.” O primeiro virou cliente fiel. O segundo nunca mais apareceu. Servindo a cada noite, pelos cálculos dele, uma média de dezoito casais em crise, quatro mulheres infiéis, cinco homens inseguros, oito casais no primeiro encontro cujo romance não irá para a frente e três sujeitos que só querem se embriagar sozinhos, não se tem notícia de que Ailton tenha perdido a paciência mais alguma vez.

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