Queda do chichá do Arouche alerta sobre preservação de árvores centenárias em São Paulo

Cidade perdeu mais de 300 árvores na tempestade de quarta (12); especialistas denunciam falta de monitoramento

Por Laura Pereira Lima
21 mar 2025, 08h00
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Árvore centenária tombou como temporal (Agliberto Lima/Veja SP)
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Foram cerca de 200 anos fincada no canteiro onde hoje é o Largo do Arouche — tempo em que testemunhou, altiva, todas as grandes transformações pelas quais passou a região — até sucumbir às fortes chuvas e rajadas de vento que assolaram a cidade na quarta- feira (12). A queda do chichá (Sterculia chicha) de 30 metros, terceira árvore mais antiga da cidade segundo o relatório Veteranas de Guerra, da Fundação SOS Mata Atlântica, comoveu os paulistanos e chamou atenção para a preservação de árvores centenárias em tempos de crise climática. “São monumentos históricos e ambientais tão importantes quanto os de pedra”, afirma o botânico Ricardo Cardim.

Além do chichá do Arouche, a cidade perdeu mais de 300 árvores somente naquela quarta-feira, entre elas muitas tipuanas (Tipuana tipu), espécie que ajuda a resfriar o ambiente e tornar o ar mais agradável. Com o passar dos anos, é natural que estas plantas apresentem infecções e podridões no tronco, como explica o professor associado do Instituto de Biociências da USP, Gregório Ceccantini. Mas ele acrescenta fatores humanos que contribuem para a deterioração, como vandalismo, batidas de carro e podas inadequadas. De todo modo, ele reforça, é fundamental evitar a queda e seus danos. “É necessário monitorar, fazer avaliação periódica de saúde e, no caso de comprometimento, cortar de uma forma controlada para que não caia numa tempestade”, alerta. Existem tecnologias acessíveis, como o ultrassom, que indicam o nível de saúde do tronco, mas são subutilizadas pelas prefeituras, segundo o especialista.

Questionada sobre os procedimentos de fiscalização e as medidas adotadas para evitar quedas no futuro, a gestão municipal informou que está elaborando um protocolo que permitirá avaliar se uma árvore está sob risco de queda e o grau do risco, além de indicar as ações a serem tomadas. Também reforçou que, em 2024, foram podadas 163 808 árvores e que, em janeiro e fevereiro de 2025, podou 23 590 e removeu outras 2 835.

Outras plantas elencadas no levantamento da SOS Mata Atlântica seguem resilientes, como a Figueira das Lágrimas (Ficus organensis), apontada como a mais antiga da capital. Ceccantini diz que não é possível saber sua idade com precisão, já que a espécie não forma os anéis no interior do tronco que indicam a datação. A estimativa se baseia em documentos históricos. Num mapa do início do século XIX, a figueira localizada no Sacomã aparece desenhada no caminho de dom Pedro I até o Ipiranga para proclamar a independência, em 1822. Com cerca de 240 anos, ela fica no terreno de Yara Rodrigues, 70, sua guardiã desde a década de 1970. A motorista de ônibus aposentada garante que os temporais não a abalaram. “Eu vou morrer e ela vai ficar aí, se Deus quiser.”

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Figueira das Lágrimas: testemunha da história (João Bertholini/Divulgação)
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Para a biologia, o legado dessas plantas é imenso. “São árvores que sobreviveram às mudanças da metrópole, então, têm uma genética valiosa”, explica Cardim. Em 2015, ele fez parte de uma equipe que clonou a Figueira das Lágrimas e gerou 200 mudas, boa parte já plantada na cidade. Que cresçam e ajudem a tornar nossa cidade mais bela e agradável.

Publicado em VEJA São Paulo de 21 de março de 2025, edição nº 2936

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