Parada SP completa trinta anos em meio a redução de patrocínio e projeto de lei que a ameaça
Tema deste ano convoca pessoas LGBTQIAPN+ às ruas e às urnas
Há três décadas, um grupo se reuniu no entorno da Praça Roosevelt reivindicando o espaço público para as pessoas LGBTQIAPN+. Um ano depois, em 1997, dentro de um contexto de crescente mobilização pelos direitos civis da comunidade, a Parada de São Paulo foi criada, com a presença de 2 000 pessoas em um dos principais cartões-postais da cidade, a Avenida Paulista, sob a bandeira “Somos muitos, estamos em várias profissões”. Naquela primeira edição, Nelson Matias Pereira, 59, hoje no comando da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP), entidade responsável por organizar a manifestação, fez parte da aglomeração em frente ao prédio da Gazeta, só com uma kombi e bexigas. “Me juntei e desci até o final feliz da vida. Ir para a rua é como celebrar nossa existência como cidadãos. Hoje, temos uma manifestação que virou um evento. E fervo também é luta”, diz.
O ato já nascia com caráter político e, nos anos seguintes, cresceu rapidamente: em 1999 foi criada a APOLGBT-SP e em 2006 a mobilização alcançou reconhecimento internacional ao ser registrada no Guinness World Records como a maior parada LGBTQIAPN+ do mundo, alcançando um público estimado de 4 milhões de participantes em 2022. Hoje, considerada uma das principais atrações do calendário da cidade, a mobilização, que celebra a trigésima edição neste domingo (7), enfrenta duros reveses com a redução de 60% na receita vinda de patrocinadores, além da tramitação de um projeto de lei na Câmara Municipal de São Paulo que pretende retirar o megaevento do espaço onde nasceu.
O recuo das marcas foi tamanho que a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) indicou que haverá uma queda de 15% em relação ao ano passado na movimentação econômica. Enquanto em 2025 o evento injetou na cidade 548 milhões de reais, em 2026 este valor deve ficar em pouco mais de 466 milhões de reais. “Houve uma mudança de postura das multinacionais nos últimos dois anos; elas estão mais cautelosas em relação a pautas de diversidade, muito por conta do contexto internacional do conservadorismo. Este ano temos só três marcas (Amstel, La Roche-Posay e Philip Morris Brasil), mas o que importa para nós é agregar empresas que pensam além do ‘pink monkey’ e mostram comprometimento. Até porque só começamos a ter grandes patrocinadores em 2018 e sempre colocamos a Parada na rua”, afirma Nelson.
Apesar da diminuição de recursos, grandes nomes do pop e da cena queer brasileira foram confirmados na programação, que tem como tema “A rua convoca, a urna confirma”, um aceno à importância da luta política para a comunidade e uma homenagem à chegada da urna eletrônica no Brasil, que também comemora trinta anos. Alguns parceiros, inclusive, abriram mão de seus cachês para se apresentarem na Parada. É o caso de artistas como Melody, Pepita, Diego Martins, Jup do Bairro, MC Soffia, Isma, Katy da Voz e as Abusadas, entre outros. Ao todo serão catorze veículos na via sob o comando das drag queens e apresentadoras Silvetty Montilla, Tchaka Drag Queen, Xênia Star, Divina Raio Laser, Karen Bachini, Mãe Silvia, Pri Drag, Dimmy Kieer e Nelly Winter. Convidada para apresentar a edição de 1999, Tchaka, personificada por Valder Bastos, participa todo ano. “Foi um mix de emoção e sentimento de liberdade por estar entre meus pares”, relembra. “Desde então, vi minhas amigas travestis retificarem seus nomes e gêneros nos cartórios, vi avanços com a inclusão de crianças LGBTs e grupos de mães pela diversidade.”
A presença de famílias na Parada é pauta de outra discussão que põe em xeque a integridade do evento. Aprovado em primeira votação com apenas dez votos contrários, o Projeto de Lei 50/2025, de autoria do vereador Rubinho Nunes (UniãoBrasil), propõe a proibição de crianças e adolescentes em eventos “que façam alusão ou promovam temáticas LGBTQIAPN+”, bem como o veto da realização de festividades do tipo em vias públicas. “É um projeto de lei absolutamente inconstitucional. Primeiro, porque não compete ao município legislar sobre classificação indicativa de eventos. Também viola o princípio da impessoalidade, já que existe uma clara finalidade de inviabilizar a Parada. A administração pública não pode agir para favorecer ou para prejudicar alguém em especial. Além de tudo, é discriminação com base em orientação sexual e identidade de gênero”, analisa Flavio Crocce Caetano, presidente da Comissão de Direito Constitucional da OAB-SP.
Pais e mães com seus filhos são figuras constantes na mobilização, que historicamente destaca a pauta trans em seus trios. “Lembro de quando entrevistei um casal com seus filhos pequenos e perguntei por que decidiram trazêlos para a Parada. A resposta foi: ‘Para crescerem sem preconceitos’”, conta Silvetty Montilla, a drag queen criada por Silvio Cássio Bernardo, que também acompanha o evento desde o primeiro ano.
Mesmo com tantos obstáculos, a expectativa é de que a Paulista seja ocupada por cerca de 1 milhão de pessoas neste final de semana, mostrando a resposta para todo esse cenário, como indica Nelson: “Usam esses projetos como cortina de fumaça, mas lá nas entrelinhas o que querem e o que sempre tentam todos os anos é tirar a Parada da avenida. O que eles não aceitam é que a gente faz a maior manifestação deste país no centro financeiro da cidade de São Paulo. Mas, o mais importante da Parada não é o trio, não são os artistas, são as pessoas estarem ali vivendo e confraternizando com seus iguais”.
Confira a programação paralela da Parada do Orgulho de São Paulo
› Camarote Pride
No 2º andar do Conjunto Nacional, com vista para a Paulista, o camarote recebe DJs e convidados para oito horas de festa durante a Parada.
Avenida Paulista, 2073, 2º andar, Consolação. → Dom. (7), 12h. A partir de R$ 1 297,00 até R$ 1 689,00. eventim.com.br.
› Festa Castro
Dos criadores do Festival Castro, o selo retorna às raízes clubber com uma festa para 1 300 pessoas dançarem “até o sol nascer”, com DJs como Millos Kaiser, M4lta e Luísa Viscardi.
Armazém Solon. Rua Solon, 1121, Bom Retiro. → Sáb. (20/6), 22h. R$ 100,00 e R$ 180,00. ingresse.com.
› Festival Vórtice
Criada por Paulo Cibella e Leonardo Maciel, a quinta edição da mostra reúne 147 artistas de 22 países, com obras de criadores que investigam temas como desejo, afeto e erotismo em diferentes linguagens artísticas e visuais, com trabalhos em pintura, fotografia, escultura, bordado, instalação, publicação, cinema, videoarte e performance.
Espaço República. Avenida São Luís, 86, República. → Ter. a sáb., 13h/19h. R$ 20,00 (ou R$ 10,00 com 1 kg de alimento não perecível). Até 27/6.
› Kat Klub
A casa na Augusta completa quatro anos com programação especial: nesta sexta (5), a nostalgia toma conta da pista com uma noite inteira dedicada aos hinos dos anos 2000. No sábado (6), a festa Miau mistura funk e pop. E domingo (7), a partir das 18h, acontece um grande after com o selo Minhoqueens, que encerra a Parada com pop e brasilidades.
Rua Augusta, 609, Consolação. → Sex. (5) e sáb. (6), 22h/6h. Dom. (7), 18h/2h. De R$ 40,00 a R$ 60,00. katklub.com.br.
› Kevin Pride
Com duas pistas na Fabriketa, a festa apresenta pela primeira vez no Brasil o Zebra Katz, rapper jamaicano baseado em Berlim, e a DJ Clementaum, que mistura funk, tribal e techno.
Rua do Bucolismo, 81, Brás. → Sáb. (6), 22h/9h. De R$ 100,00 a R$ 120,00. shotgun.live.
› Ursound
Em duas noites, a balada reúne a tribo dos ursos (homens parrudos e peludos) com música pop, disco e eletrônica. Komplexo Tempo. Avenida Henry Ford, 511, Mooca. →. Sáb. (5), 22h. De R$ 70,00 a R$ 200,00.
Club Hotel Cambridge. Rua João Adolfo, 126, Centro. → Sáb. (6), 23h. De R$ 70,00 a R$ 120,00. sympla.com.br.
Publicado em VEJA São Paulo de 5 de junho de 2026, edição nº 2998





