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Dos prédios às comidas: curiosidades dos bairros Pacaembu e Higienópolis

Do passado aristocrático ao presente diverso e cheio de contrastes, os vizinhos mantêm as tradições sem tirar os olhos do futuro

Por Thaís Oliveira Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 18 Maio 2018, 06h00 | Atualizado em 14 fev 2020, 16h03
Edifício Louveira_Vilanova Artigas_foto1 Nelson Kon.tif.jpg
Edifício Louveira: integrado à Praça Vilaboim (Andre Seiti/Veja SP)
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A ROTA DO CONCRETO ARMADO

Estimulada pela reconstrução do Viaduto do Chá, nos anos 30, a expansão do centro mudou a paisagem dos bairros próximos. Foi nessa época que Higienópolis ganhou seus primeiros prédios residenciais, chamados de “cortiços de ouro” pelos detratores. As edificações mais importantes do bairro começaram a surgir na década seguinte, assinadas por arquitetos como João Vilanova Artigas, Franz Heep e João Artacho Jurado — cujos coloridos edifícios enchiam os olhos da classe média, atraída pelo passado de nobreza do bairro. A partir dos anos 50, vieram os condomínios com apartamentos amplos e áreas de lazer, como o Bretagne e o Parque das Hortênsias. Muitos foram tombados pelo patrimônio histórico e são disputados por inquilinos. Confira alguns dos mais importantes:

Louveira (1946). Composto de dois blocos idênticos, é integrado à Praça Vilaboim, o que era novidade na época da construção.

Lausanne (1953). Projetado pelo alemão Franz Heep, do Edifício Itália, esse prédio ostenta um dos traços mais marcantes do arquiteto: as venezianas de correr que dão vida à fachada.

Prudência (1944). O projeto de Rino Levi chama atenção pelas passarelas suspensas e pelos jardins de Burle Marx. Foi o primeiro com controle individual de refrigeração.

Cinderela (1956). O mais retilíneo dos prédios de Artacho Jurado, tem abundância de elementos decorativos e revestimento de pastilhas em tons de rosa.

AS “DONAS” DE HIGIENÓPOLIS

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O Palacete Veridiana (Paulo Leonardo da Costa Cunha/Veja SP)
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O povoamento da porção que faz divisa com Santa Cecília deveu-se em grande parte a três personagens: Maria Antônia da Silva Ramos, Veridiana da Silva Prado e Maria Angélica Sousa Queirós. Em comum, havia o fato de pertencerem a riquíssimas famílias da elite cafeeira. Todas elas compraram terrenos na região atraídas pelos ares frescos de um dos pontos mais altos da cidade e pela distância do centro.

Também romperam com os padrões femininos da época, estudando, divorciando-se e comandando negócios familiares. Os palacetes de inspiração francesa marcam a identidade arquitetônica do pedaço, como o de Veridiana, que hoje abriga a sede do Iate Clube de Santos, na Avenida Higienópolis. Não à toa, elas batizam algumas das principais ruas da região. Confira uma breve história dessas importantes mulheres:

Veridiana. Inspirada por Maria Antônia, a herdeira dos Silva Prado ergueu em 1884, após o divórcio, seu “château” de dezoito quartos, point da elite intelectual da época.

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(Reprodução/Veja SP)

Maria Angélica. Acostumada ao campo, escolheu viver longe do centro com o marido e, após a morte dele, batizou com o próprio nome a avenida que corta o bairro.

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(Reprodução/Veja SP)

Maria Antônia. Filha do barão de Antonina, em 1870 vendeu por preço simbólico o terreno de 27 000 metros quadrados que hoje sedia o Mackenzie.

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(Reprodução/Veja SP)

QUITUTE DA TERRA

De acordo com a versão mais difundida, o brigadeiro se popularizou com esse nome graças às senhoras do Pacaembu, inspiradas pelo brigadeiro Eduardo Gomes. Em 1945, ele proferiu um discurso para 100 000 pessoas no estádio que leva o nome do bairro. A candidatura do aviador da UDN à Presidência da República atraiu a simpatia da classe média paulistana.

Brigadeiros, da Maria Brigadeiro.
Brigadeiro tem relação com o bairro (Fernando Moraes/Veja SP)
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Durante a campanha, a receita que leva leite condensado e chocolate em pó foi produzida em massa — São Paulo sediava as únicas fábricas desses ingredientes no país. As pessoas eram chamadas para comer “docinho do brigadeiro” em troca de donativos para colaborar com o esforço da campanha. Apesar do êxito culinário, Gomes perdeu o pleito para Eurico Gaspar Dutra.

VERDE-NOBREZA

A história do Parque Buenos Aires se confunde com a de Higienópolis. Nasceu em 1913 como uma praça que servia de mirante do Vale do Anhangabaú, com direito a um pioneiro telescópio no topo. A parte inferior recebeu um espelhod’água e esculturas vindas da França, que podem ser vistas até hoje: o Leão Atacado e o Veado Atacado. O local foi tombado em 1992 pelo conselho municipal de patrimônio histórico (Conpresp).

SONHO DE UM MECENAS

Ocupando há mais de setenta anos um enorme terreno na Rua Alagoas, a Faap nasceu de um desejo póstumo. Descendente de uma abastada família cafeeira, Armando Alvares Penteado estudou em Londres e Paris, onde frequentou círculos de artistas e conheceu a francesa Annie. Os dois compartilhavam o gosto pela arte e a vontade de oferecer cursos de escultura, pintura e arquitetura na capital. Ele morreu em 1947 e, sem filhos, ordenou em testamento que parte de sua fortuna fosse destinada à fundação que leva seu nome.

Vitrais no saguão da Faap.
Vitrais no saguão da Faap (Fernando Moraes/Veja SP)

A instituição foi fundada naquele mesmo ano, inicialmente dedicada às belas-artes. Hoje, oferece dezessete cursos de graduação e mais de cinquenta opções de especialização. Também no terreno da sede principal está o Museu de Arte Brasileira, cujo acervo conta com mais de 3 500 obras que remontam a três séculos da produção nacional. Há ainda um teatro interno que foi palco de peças importantes, com atores de renome como Marília Pêra, Wagner Moura, Glória Menezes, Antonio Fagundes e Marieta Severo.

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REDUTO ISRAELITA

JUDEUS ORTODOXOS
O rabino Nathan Ruben Silberstein com a esposa Hani e os filhos (Fernando Moraes/Veja SP)

Mais de 60 000 judeus vivem em São Paulo — um quarto desse total só em Higienópolis. Os primeiros a chegar instalaram- se no Bom Retiro, em meados dos anos 40. Conforme os negócios prosperavam, eles foram se estabelecendo no bairro vizinho e o ramo de atuação de seus filhos e netos expandiu- se para além do comércio. Isso mudou a cara do local, que ganhou sinagogas, clubes e escolas de hebraico. Também não faltam supermercados e estabelecimentos kosher, que seguem o conjunto de regras culinárias da religião, como a lanchonete Pinati, na Alameda Barros, o restaurante Nur, na Rua Tupi, e a unidade do Sushi Papaia da Vilaboim.

NOVA ORDEM DO PANIFÍCIO

O entorno de Higienópolis sedia pelo menos 22 padarias. Uma das mais tradicionais é a Barcelona, que nos anos 70 projetou o proprietário Benjamin Abrahão ao estrelato — a fama culminou na expansão de uma rede com seu nome a partir de 2015. Perto dali, na Rua Maranhão, funciona desde 1986 a Aracaju, outro ponto bastante frequentado.

Três croissants enfileirados em cima de prato branco
Croissant da padaria Fabrique Pão e Café: novidade na área (Clayton Vieira/Veja SP)

A boa reputação do bairro para esse tipo de negócio é mantida pela chegada de casas mais recentes, como a Fabrique, aberta no ano passado e especializada em receitas de fermentação natural. Descendente de padeiros portugueses, o fundador José Carlos Gomes prioriza ingredientes de qualidade. Por lá, a dica é experimentar o croissant de sabor amanteigado.

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