Mulheres da periferia de SP transformam terreno tomado por entulho em horta urbana
Na Zona Leste, uma iniciativa encabeçada por mulheres produz alimentos, renda e oportunidades
Perto do Viaduto Jacuí, entre os trilhos da Linha 12-Safira e as casas do bairro União de Vila Nova, no extremo leste de São Paulo, o terreno que vivia soterrado em entulho hoje dá lugar a hortaliças, frutas, ervas e temperos. “Era um local que parecia não ter vida. O entulho chegava à altura da nossa estufa”, lembra Vilma Martins, presidente da Associação Mulheres do GAU (Grupo de Agricultura Urbana), que toca o projeto ao lado de outras sete mulheres da região.
A área pertence à Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), que urbanizou a região. O bairro nasceu de uma ocupação irregular às margens do Rio Tietê, o antigo Pantanal, historicamente castigado por enchentes. “Quando cheguei em São Paulo, já vim direto para essa vila. Faltava de tudo, a gente não tinha UBS, escola nem creche”, relembra Vilma.
Quem conhece a horta hoje nem imagina o esforço para que se pudessem colher os frutos: a recuperação do terreno começou em 2011 e foram seis anos de tentativas e erros até o solo virar terra fértil com a ajuda de parcerias e a adoção da permacultura. Hoje, crescem ali mais de oitenta espécies. Podem ser encontrados por lá alface, couve, coentro, abacate, arruda, espada-de-são-jorge, além de PANCs, as plantas alimentícias não convencionais, e outras variedades.
“Aqui é agricultura limpa, sem agrotóxico e fertilizante químico. Uma comida de prevenção, de saúde”, explica Vilma, orgulhosa de ter contribuído para trazer o cultivo orgânico para dentro da comunidade. Quase metade da produção ajuda no abastecimento de escolas e projetos sociais da região.
Tudo isso vem de dois espaços administrados pelo grupo. Um deles é o Viveiro Escola, que tem 2 200 metros quadrados, estufa de mudas, 22 canteiros e cozinha coletiva. É lá que são servidos cafés e almoços a estudantes da rede pública de ensino e a outros visitantes. A poucos minutos a pé fica o segundo, o Polo de Educação Ambiental, de 2 000 metros quadrados, com casinha de barro, dezoito canteiros e um empório para a comercialização dos produtos das Mulheres do GAU.
Da terra à cozinha, tudo carrega o mesmo espírito agroecológico. Bolacha de folha de batata-doce com queijo, bolo de ora-pro-nóbis, pão com ervas, patê de biomassa e geleia “com tudo que se tem no quintal” são alguns dos preparos encontrados.
O espaço também funciona como ponto de formação para quem chega em busca de uma oportunidade. Atualmente, quatro mulheres e dois homens são beneficiários do Programa Operação Trabalho (POT), da prefeitura, mas o local já recebeu dezenas de participantes, todos de famílias de baixa renda. Ali, eles têm a chance de aprender uma ocupação na área de atividade agrícola, em um curso com duração de até dois anos.
O trabalho não se resume à horta e à cozinha. As integrantes da associação são multiplicadoras e também participam de feiras e realizam palestras e oficinas. Cada uma é responsável por tarefas que contribuem para a manutenção dos espaços e para o sustento delas, por meio da venda de produtos e da produção de refeições em eventos externos. Entre elas está Kelly Cristina, de 45 anos. Ela entrou no grupo há seis anos, na pandemia, ao deixar o trabalho de babá e cuidadora de idosos para ficar perto da filha pequena.
Começou trabalhando duas vezes por semana, fazendo mudas e podas. Também passou a levar a filha. Enquanto a mãe trabalhava, a menina brincava na horta. “Para quem não sabia nem colocar água numa planta, comecei a gostar e a me empenhar para aprender cada vez mais.” Hoje, Kelly também cozinha, recebe crianças em visitas escolares e cuida da comunicação e das vendas.
Mais do que oferecer um emprego, o local também cumpre papel de acolhimento e desenvolvimento pessoal. “Tenho muito orgulho de trabalhar aqui e de ser quem sou”, afirma. Esse sentimento é compartilhado por Vilma, que define o lugar como um divisor de águas em sua vida. Pernambucana, ela reencontra ali ensinamentos da terra passados por sua família e os compartilha com outras mulheres. Também encontrou no espaço um lugar de conexão e apoio. “É coisa de paixão.”
Publicado em VEJA São Paulo de 9 de outubro de 2026, edição nº 3016.






