Pesquisadores descobrem duas novas espécies de árvore na cidade de São Paulo
Uma tipo de jabuticaba com frutos alongados e uma planta que se apoia nas vizinhas para se sustentar são encontradas no extremo sul da capital
Quem anda pela Avenida Paulista ou circula pelos prédios espelhados da Faria Lima nem imagina que o município de São Paulo abriga uma rica biodiversidade, com uma cobertura vegetal que ocupa cerca de 50% do território. A maior parte dessa área verde se concentra no extremo sul da cidade, onde estão parques e reservas naturais que preservam a vegetação da Mata Atlântica. Foi nessa região que duas novas espécies de árvore foram identificadas, no fim de janeiro: a Plinia longifructa, uma jabuticabeira de frutos alongados, e a Myrcia piratininga, árvore de tronco fino que se apoia em plantas vizinhas para se sustentar.
A Plinia foi encontrada em meados de 2023, quando uma equipe do Herbário Municipal de São Paulo realizava um estudo de manejo no Parque Natural Municipal Varginha, próximo ao Rodoanel. Durante uma caminhada pelas trilhas, coletando imagens e amostras da flora local, Eduardo Barretto observou, com um binóculo, algo que lhe chamou a atenção. “Era uma árvore da família Myrtaceae, com a qual eu trabalho bastante, mas não consegui identificar a espécie de imediato. Isso já acendeu um alerta”, lembra o biólogo, que retornou ao local nos meses seguintes para coletar amostras em diferentes fases do ciclo reprodutivo.
De volta ao herbário, o trabalho continuou em detalhes quase microscópicos. Depois de ficarem cerca de seis dias em uma máquina de secagem — procedimento padrão para evitar contaminações por insetos e fungos —, as amostras foram analisadas, com o auxílio de lupas, em um processo que identificou as estruturas, como folhas, flores e frutas, e as comparou com descrições científicas e exemplares já catalogados. Esse sistema segue chaves de identificação — ferramentas que ajudam a diferenciar espécies com base em características específicas — e pode envolver a consulta a centenas de registros até que se descarte a possibilidade de a planta já ser conhecida.
Características particulares como o formato do fruto, a distribuição da inflorescência e a presença de tricomas nas folhas (pelos semelhantes aos do kiwi) indicaram não se tratar de nenhuma Plinia já descrita na literatura botânica. Barretto, então, em parceria com Matheus Santos, professor da Universidade Federal do ABC, publicou um artigo na revista norte-americana Brittonia em janeiro deste ano, descrevendo a descoberta e batizando-a de Plinia longifructa, em referência à forma alongada do fruto.
Na publicação, os autores apontam que a espécie tem entre 10 e 20 metros de altura, com frutos que passam do verde ao preto quando amadurecem e com ocorrências no município de São Paulo, no interior do estado e no Paraná. Essas ocorrências foram encontradas em acervos digitais, imprecisamente registradas sob o nome de outra espécie no mesmo gênero.
No artigo, a dupla ainda descreveu outra espécie, também encontrada na Zona Sul em 2023, na reserva particular Sítio Curucutu: a Myrcia piratininga. O nome faz referência à antiga denominação da capital paulista: São Paulo dos Campos de Piratininga — até hoje, o único local onde a planta foi registrada. Seu principal diferencial é o hábito “apoiante”. “Ela emite um caule fino que cresce verticalmente, mas não se sustenta após certa altura e passa a se apoiar em outras plantas ou se inclina até próximo do solo. É um hábito bem incomum para esse gênero”, explica Matheus Santos. A árvore produz frutos pequenos, importantes para a alimentação da fauna.
A equipe encontrou inicialmente indivíduos com frutos e precisou monitorá-los até a floração. “Como era uma espécie desconhecida, não sabíamos quando voltaria a florescer. Fizemos visitas periódicas durante quatro meses até conseguir coletar material com flores”, conta Eduardo. Outro fator de dificuldade é o tamanho do gênero Myrcia, que reúne cerca de 800 espécies, exigindo comparações minuciosas com outros exemplares.
Um dos municípios com a flora mais estudada do Brasil — as primeiras coletas começaram no século XIX, com naturalistas europeus —, São Paulo ainda se surpreende com novas descobertas. “A gente está muito longe de ter um conhecimento completo da nossa biodiversidade”, afirma Eduardo.
Publicado em VEJA São Paulo de 3 de abril de 2026, edição nº2989







